Catulo da Paixão Cearense, Brasil - Artigo
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Catulo da Paixão Cearense (1866-1946) nos deixou no dia 10 de
maio de 1946. Foi poeta, compositor e teatrólogo. Dono de um estilo que
misturava o pitoresco regional com floreios poéticos eruditos e vocábulos
refinados se autodenominava o “Victor Hugo do sertão”. Foi um sucesso popular e
nos salões. “Luar do Sertão” (Não há, ó gente, ó não/ Luar como este do
sertão), com João Pernambuco (1883-1947), está presente em rodas de seresta até
hoje.
Apesar do nome, Catulo não era cearense, nasceu no Maranhão, mas viveu no Ceará
até os 17 anos, quando mudou-se para o Rio de Janeiro. A influência dos
cantadores do nordeste marcou a sua obra e, no Rio, foi responsável, junto com
João Pernambuco e depois Marcelo Tupinambá (1889-1953), por uma onda
regionalista que ganhou o teatro e o carnaval, tornando-se muito popular e com
enorme influência no mundo musical a partir de então. O gosto pelo sertanejo
produziu a maioria dos conjuntos na década de 1920, entre os mais importantes,
os “Oito Batutas”, o “Flor do Tempo” e o “Bando dos Tangarás”. Sua música
“Cabocla do Caxangá”, com João Pernambuco, fez tanto sucesso que inspirou Donga
(1890-1974) e Pixinguinha (1897-1973) a criarem junto com João Pernambuco o
“Grupo do Caxangá”, que mais tarde tornou-se os Oito Batutas.
Com Catulo, o violão ganhou os salões. Quando chegou ao Rio de Janeiro, Catulo
era flautista. O violão era um instrumento mal visto pelas famílias
respeitáveis, tocado em bailes públicos e bares, instrumento de “capadócios”,
malandros e trapaceiros. Quando seu pai descobriu que ele estava tocando o
instrumento, deu-lhe uma coça e colocou-o uns tempos na “solitária”, na
longínqua Copacabana da época. Logo ele que, anos depois, em 1908, foi o
primeiro músico popular a tocar em um recital no erudito Instituto Nacional de
Música, pelas mãos do maestro Alberto Nepomuceno (1864-1920). Em 1914, logo
depois do sucesso “Cabocla do Caxangá”, foi recebido para um recital no Palácio
do Catete, convidado por Nair de Tefé, a caricaturista Rian, esposa do
Presidente da República Hermes da Fonseca.
Os versos de Catulo eternizaram as melodias do Choro. O poeta colocou letras
nas melodias de Joaquim Callado (1848-1880), Ernesto Nazareth (1863-1934),
Anacleto de Medeiros (1866-1907), Irineu de Almeida (1863-1914), João
Pernambuco, Chiquinha Gonzaga (1847-1935). “Flor Amorosa” (Flor amorosa,
compassiva, sensitiva, vem porque/ É uma rosa orgulhosa, presunçosa, tão
vaidosa/ Pois olha a rosa tem prazer em ser beijada, é flor, é flor/ Oh, dei-te
um beijo, mas perdoa, foi à toa, meu amor.) de Joaquim Callado, recebeu letra
de Catulo depois da sua morte, e só então realmente fez sucesso.
Catulo foi um típico artista popular do seu tempo, atuando em diversas áreas do
entretenimento. Poeta, seresteiro, autor de canções populares e escritor de
revistas e burletas de costumes apresentadas nos teatros da Praça Tiradentes.
Fez sucesso com o teatro musicado. Sua peça “O Marueiro” foi um sucesso no
Teatro São José, na Praça Tiradentes. Contava a história de um toucador de
viola apaixonado pela filha de um rico fazendeiro. No musical sertanejo tinha
de tudo: duelo de cantadores, quermesse, padre festeiro, jagunços; e, nos
intervalos de cada ato, Catulo espertamente aproveitava para cantar suas
composições que nada tinham a ver com o repertório da peça. Sabia o que
agradava o público, conhecia os costumes musicais populares, foi compilador de
repertório popular em coletâneas editadas pela Livraria do Povo, a editora mais
popular e barata da época, e a primeira a editar sua obra.
Catulo aproveitou todas as oportunidades artísticas que teve na sua época,
ficou na memória de um tempo musical pautado pelo lirismo, pela boemia e pelo
romantismo exacerbado das serenatas. No final da vida foi incensado como poeta.
A intelectualidade da época, no auge do nacionalismo e do movimento
folclorista, o via como “o mais brasileiro dos nossos poetas”.