segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

A "Renúncia / Tentativa de Golpe" de Jânio Quadros - Artigo

 



A "Renúncia / Tentativa de Golpe" de Jânio Quadros - Artigo
Artigo

Há 60 anos, o presidente Jânio Quadros deixou o Brasil atônito. Sem aviso prévio, ele enviou um bilhete ao Congresso Nacional comunicando que havia abandonado a Presidência da República. O governo, que deveria ter durado cinco anos, chegou ao fim pouco antes de completar sete meses. A renúncia ocorreu em 25 de agosto de 1961.
Documentos históricos guardados no Arquivo do Senado mostram que inclusive os senadores e deputados federais da base governista foram surpreendidos pela renúncia. Um desses parlamentares, o senador Lino de Mattos (PSP-SP) quis rasgar o bilhete presidencial, numa tentativa desesperada de impedir que o ato se consumasse. Ele próprio narrou o episódio logo depois:
— Tentei obstar a entrega do documento [ao vice-presidente do Senado], pretendendo tomá-lo das mãos do ministro [da Justiça] Oscar Pedroso Horta, até mesmo meio à valentona. Conhecendo o temperamento do presidente Jânio Quadros, eu lhe dizia que aquele documento deveria ser rasgado, inutilizado. Sua Excelência [o ministro Horta] declarou-nos, no entanto, que se tratava de documento sério, assinado por um homem sério, para produzir efeito sério, que estavam distribuídas à imprensa as respectivas cópias e que, nessas condições, não adiantava qualquer atitude. O presidente já se demitira do posto e não se encontrava mais em Brasília. Não adiantava mais a destruição do documento.
A renúncia, segundo os historiadores, seria o primeiro passo de um autogolpe de Estado. Pelos planos não declarados de Jânio, a renúncia não seria aceita pelo Congresso, pelas Forças Armadas e até pelo povo, que lhe implorariam que reconsiderasse. Ele, então, aproveitaria o clamor geral e, como condição para a volta, exigiria mais poder de mando do que o previsto pela Constituição de 1946. Tendo êxito o autogolpe, Jânio alcançaria o objetivo de se transformar num presidente com superpoderes ou até mesmo num ditador.
Os documentos do Arquivo do Senado também mostram que os parlamentares se recompuseram logo do terremoto provocado pela renúncia. Mesmo estando no calor dos acontecimentos, eles enxergaram as intenções de Jânio Quadros e agiram para abortar o plano golpista. O Congresso Nacional aceitou a renúncia sem nenhum questionamento e, deixando Jânio para trás, começou a discutir as condições para a posse do vice-presidente João Goulart.
Num discurso logo após a renúncia, o senador Argemiro de Figueiredo (PTB-PB) disse que foi acertada a decisão do Congresso de não cair na armadilha de Jânio Quadros:
— Para fazê-lo voltar [à Presidência da República], seria mister a instituição preliminar de um regime janista, de uma Constituição janista, de leis janistas, de costumes janistas. Garroteiem a voz do povo que reivindica e protesta, calem a palavra do Congresso e fechem os jornais que debatem, orientam, advertem. Aí teríamos um regime governamental compatível com o temperamento do senhor Jânio Quadros. Mas isso seria a renúncia às nossas conquistas liberais. Seria a morte da democracia.
No mesmo pronunciamento, Figueiredo resumiu:
— A renúncia ao governo foi a tática premeditada de um homem que se julgava o único capaz de reorganizar a vida nacional. Renunciou como Bolívar, para voltar mais forte. Nunca pensou que lhe aceitariam a renúncia. Esperou retornar ao governo nos braços do povo e das gloriosas Forças Armadas para dirigir a nação como a queria governar: sozinho, mandando sozinho. A renúncia foi a primeira etapa do processo de uma ditadura que se tinha em vista.
Também atordoado pela renúncia, o ministro das Relações Exteriores, Afonso Arinos, às pressas enviou um telex ao Congresso Nacional advertindo que o ato de Jânio poderia trazer consequências catastróficas para o Brasil e que, por isso, os parlamentares deveriam discutir a fundo a conveniência de aceitar a saída do presidente. Para acelerar a consumação da renúncia, o vice-presidente do Senado, Auro de Moura Andrade (PSD-SP), preferiu engavetar o telex sem apresentá-lo aos colegas:
— Devo declarar ao Senado que não trouxe ao conhecimento da Casa o referido telex enviado pelo ministro das Relações Exteriores porque tive razões para esse comportamento. Não me era ele nominalmente dirigido. Não se dirigia ao Congresso, não se dirigia ao Senado, não se dirigia à Câmara. Não tinha destinatário. Assim sendo, eu não poderia dar-lhe destino. Foi a razão pela qual o guardei ao recebê-lo.
O presidente Jânio Quadros sabia que as Forças Armadas não tolerariam a posse do vice João Goulart. Jango, como era conhecido, mantinha estreitas relações com os sindicatos trabalhistas, muitos dos quais dirigidos por comunistas. Isso despertava nos militares, mais identificados com a direita, o medo de que o Brasil governado por Jango tomasse o caminho do comunismo.
Quando veio a renúncia, Jango se encontrava na China, numa missão oficial armada por Jânio. O presidente trabalhou para que o vice estivesse justamente num país comunista no momento em que a crise estourasse. As supostas inclinações comunistas do vice se tornariam inquestionáveis.
Conforme a previsão de Jânio Quadros, os militares de fato vetaram a posse de Jango. Diante dessa ilegalidade, o governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, ameaçou pegar em armas para garantir o cumprimento da Constituição. A renúncia, portanto, deixou o Brasil à beira de uma guerra civil.
O senador Alô Guimarães (PSD-RS) subiu à tribuna do Senado e leu o seguinte trecho de um editorial do jornal O Globo:
— O senhor Jânio Quadros renunciou na esperança de provocar derramamento de sangue ou pelo menos para provocar a ameaça de derramamento de sangue. Não renunciaria se depois de cuidadosa meditação não tivesse chegado à conclusão de que o derramamento ou a ameaça de derramamento de sangue teria o efeito por ele visado: a nação, ante o mal maior, aceitaria o mal menor, isto é, a ditadura do senhor Jânio Quadros. A verdade é essa.
Guimarães concluiu o discurso afirmando que o Congresso Nacional seria firme e que, portanto, o ex-presidente deveria esquecer de vez o plano de ser reconduzido com superpoderes ao Palácio do Planalto:
— O que não se pode agora é pretender modificar as instituições para que se cogite do retorno do senhor Jânio Quadros ao poder. Isto até já não é mais constitucional. Seria um ato de rebeldia a que nos oporíamos.
A guerra civil só não estourou porque os senadores e deputados negociaram com Jango a adoção do parlamentarismo, em substituição ao presidencialismo vigente desde 1889. O presidente passaria a dividir o governo com um primeiro-ministro. Com os poderes presidenciais de Jango limitados, as Forças Armadas aceitaram a posse. Duas semanas depois da renúncia, a crise enfim se encerrou. Mais tarde, por meio de um plebiscito em 1963, os brasileiros decidiriam pela volta do presidencialismo.
Acompanhando o bilhete de renúncia, Jânio Quadros enviou ao Congresso Nacional uma breve carta em que justificou a atitude. Em termos vagos, ele escreveu que tentara combater a corrupção, mas fora “vencido pela reação” e “esmagado” por “forças terríveis”.
Para os observadores da política, a renúncia de Jânio Quadros não chegou a ser de todo surpreendente. Ele havia feito um movimento muito parecido em 1960, quando ainda era candidato. Embora tenha sido eleito presidente com o apoio da UDN, o poderoso partido de direita, Jânio pertencia ao PTN, um partido paulista inexpressivo na política nacional. Insatisfeito com a ascendência da UDN sobre a sua candidatura, ele abandonou a disputa.
Um grupo de militares da Aeronáutica, temerosos de que a renúncia de Jânio impedisse a direita de enfim chegar à Presidência da República, deflagrou a Revolta de Aragarças, uma tentativa fracassada de golpe de Estado. Com a faca no pescoço, a UDN não teve alternativa senão ceder ao candidato. Jânio voltou à corrida presidencial depois de ganhar carta branca para dirigir sozinho a campanha eleitoral.
O senador Victorino Freire (PSD-MA) revelou que Jânio ensaiou a mesma estratégia chantagista ainda nos primeiros meses no Palácio do Planalto:
— Muitas vezes debati com Sua Excelência [Jânio Quadros], com intimidade, problemas nacionais, e uma das forças de reação de que se queixava era justamente o Congresso. Era uma injustiça de Sua Excelência, porque esta Casa deu-lhe todas as medidas de que necessitou, aprovando todos os vetos do governo, com exceção de um que dizia respeito à estabilidade dos funcionários da Novacap [empresa estatal que construiu Brasília]. No dia em que o Congresso rejeitou o veto presidencial, Sua Excelência se preparou renunciar ao governo. Foi impedido por seus auxiliares e sobretudo pelo eminente ministro Pedroso Horta, que submeteu o assunto à Corte Suprema justamente para evitar que se consumasse o gesto do senhor Jânio Quadros.
O clima de golpismo permeou praticamente todo o curto governo de Jânio Quadros. Quando estudantes universitários organizaram uma greve em Recife, depois que o diretor da Faculdade de Direito tentou impedir uma palestra da mãe do revolucionário Ernesto Che Guevara na instituição, o presidente mandou tanques do Exército e até navios da Marinha reprimirem o movimento estudantil. Foi uma demonstração exagerada e gratuita de força bélica.
Em outro momento, sem maiores explicações, transferiu a sede do governo federal provisoriamente de Brasília para São Paulo. Dessa forma, deu a entender que tramavam um golpe contra o governo e que na capital paulista, seu reduto eleitoral, poderia melhor se defender.
Uma das diversas sindicâncias abertas por Jânio para devassar negócios do governo de Juscelino Kubitschek apontou, sem provas, que Jango cometera irregularidades. Ele (que também fora vice de JK) reagiu publicamente à acusação. Com o episódio, o presidente fabricou a ilusão de que o país estava mergulhado numa crise política.
O golpismo pode ser explicado pela aversão de Jânio Quadros à negociação e à divisão do poder. Ele se elegera com o discurso de que não gostava dos partidos e dos políticos e que, com sua “vassourinha”, varreria para sempre a corrupção do Brasil. Apesar de a UDN ter empregado toda o seu peso político para ajudar a elegê-lo, o presidente não recompensou a sigla com o espaço no governo que ela julgava merecer.
O senador Argemiro de Figueiredo analisou:
— O senhor Jânio Quadros, tendo sido eleito por uma onda civil revoltada contra os sistemas anteriores, eleito pelo povo sem distinção de correntes partidárias, eleito com essa formação revolucionária da opinião pública em torno do seu nome, na prática do governo se esqueceu da atuação costumeira da vida da República. A sua renúncia ao governo significou a sobrevivência da República e da democracia.
O mandatário não teve maioria no Senado e na Câmara nem se esforçou para construir um governo de coalizão. Deputados da oposição chegaram a planejar um pedido de impeachment do presidente.
— O caráter personalista de Sua Excelência revelava-se a todo momento e em todas as suas decisões. O seu desprezo pelos parlamentares era de tal ordem que poucos dos senadores que o apoiavam tiveram ensejo de ser recebidos por Sua Excelência e de com ele se entenderem — afirmou o senador Lima Teixeira (PTB-BA).
Jânio tentou minar a autoridade dos governadores criando escritórios do governo federal nos estados — em vez de recorrerem aos governadores, os prefeitos preferiam buscar a ajuda desses escritórios. Os ministros recebiam ordens presidenciais por meio de bilhetinhos, que frequentemente eram vazados para a imprensa — isso podia deixá-los em situação constrangedora e até humilhante.
O senador Victorino Freire contou aos colegas outro episódio revelador da personalidade autoritária de Jânio Quadros:
— Eu disse a Sua Excelência: "Você só quer escrever a lei em papel sem pauta, mas o Congresso tem que escrevê-la em papel pautado. Vetam [seus projetos] a UDN, o PSD, o PTB e todos os partidos porque [no Congresso] não se discute em termos partidários, mas em termos de interesse público". Respondeu-me ele: "O Congresso não pode rejeitar o [meu] veto porque eu veto sempre certo".
O senador Argemiro de Figueiredo reforçou o argumento do colega:
— O Congresso, para ele, era a expressão de um poder inútil e até nocivo. A ordem legal do país era um estorvo abominável quando a sua vontade se conflitava com os preceitos constitucionais. Não se domesticava a ninguém, nem mesmo à própria lei. O homem sempre me pareceu, por temperamento e vocação, a figura típica de um ditador civil.
A data da renúncia, 25 de agosto, foi escolhida a dedo por Jânio Quadros. No dia anterior, o suicídio de Getúlio Vargas completara sete anos. Para Jânio, o melhor dos mundos seria a população brasileira, emocionada pelo aniversário do ato extremo de Vargas, associar a renúncia ao suicídio e, tal qual fizera em 24 de agosto de 1954, também sair às ruas em apoio ao presidente e repúdio aos adversários dele.
O senador Jefferson de Aguiar (PSD-ES) apontou uma segunda semelhança entre os dois episódios:
— Estranhei aquela carta que, procurando justificar a renúncia do presidente Jânio Quadros, falava em grupos de pressão, em situação terrível, numa cópia lamentável e pouco hábil da carta-testamento do presidente Getúlio Vargas. Era evidente que aquele pronunciamento escondia um segundo propósito.
Jânio Quadros provavelmente acreditava que os brasileiros se mobilizariam exigindo sua volta à Presidência da República por causa das medidas de cunho moralizante que tomara nos sete meses incompletos de governo, como a proibição das brigas de galo, a obrigação de os funcionários públicos federais vestirem uniforme, o veto aos trajes de banho nos concursos de beleza feminina, a criminalização do lança-perfume e o fim das corridas de cavalo nos dias de semana. Foram medidas de grande apelo entre as famílias conservadoras.
Ele também imaginava que contaria com algum apoio dos setores da sociedade mais à esquerda, como os sindicatos, pelo fato de ter começado a reatar as relações diplomáticas com países comunistas, apoiado a autodeterminação de Cuba e condecorado Ernesto Che Guevara, um dos ministros do governo cubano — tudo isso como parte da chamada Política Externa Independente.
O senador Argemiro de Figueiredo fez uma interpretação desse jogo duplo de adotar posturas conservadoras no ambiente interno, agradando à direita, e medidas arrojadas no cenário internacional, afagando a esquerda. Num discurso proferido semanas antes da renúncia, o parlamentar apresentou sua visão:
— Receio os destinos deste país. Jamais tivemos a nação tão bem preparada psicologicamente para se lançar nos braços dos aventureiros, dos demagogos, dos nacionalistas hipócritas, dos fanáticos vermelhos da esquerda. Tudo agora sob o estímulo premeditado do governo, que libera todas as ideias, todas as inclinações e todas as tendências, anima o capital e valoriza o trabalho, promove até os atritos de classe para compelir transigências de uma em favor das outras. E tudo faz num jogo temerário e satânico, certo de que, na hora exata, conterá os excessos, com as forças decorrentes da autoridade que, sem dúvida, soube fortalecer e consolidar.
Até mesmo o presidente da UDN, deputado Herbert Levy (SP), apesar de ter sustentado a candidatura de Jânio Quadros em 1960, enxergou golpismo na renúncia:
— O ato da renúncia só pode ser explicado por duas hipóteses: ou foi um ato temperamental do senhor Jânio Quadros, ou foi um ato meditado, planejado. Se foi temperamental, estaríamos diante de uma irresponsabilidade, de uma leviandade. Se foi deliberado, se pensava em renunciar, estava obrigado a preparar sua saída, sem a prejudicar o país, sem a ameaça de nos levar ao caos. Como não preparou sua saída, a gravidade é muito maior, pois, neste caso, o senhor Jânio Quadros desejaria convulsionar o país.
De acordo com o historiador Felipe Loureiro, especialista nos governos de Jânio e Jango e coordenador do curso de relações internacionais da Universidade de São Paulo (USP), embora não se conheçam todos os detalhes do plano, a intenção do presidente era, sim, dar um autogolpe:
— Jânio Quadros teve uma carreira política meteórica. No curto período de pouco mais de dez anos, ele foi vereador, deputado estadual, prefeito, governador, deputado federal e presidente da República. Ele conseguiu esse feito por força da sua imagem pessoal. Jânio sempre utilizou os partidos políticos de forma pragmática, conforme seus interesses, sem criar vínculos com eles. A eleição presidencial de 1960 não foi vencida pela UDN ou pela direita conservadora, mas pelo janismo. Dada essa força pessoal, Jânio acreditava que podia governar sozinho, sem dividir o poder com os partidos e o Legislativo.
Loureiro explica que o autogolpe falhou, entre outros motivos, porque o presidente não conseguiu manter sua base eleitoral mobilizada durante o governo:
— Jânio não tinha uma estrutura partidária que fosse sólida, tivesse capilaridade nacional e pudesse mobilizar os brasileiros a seu favor no momento da renúncia. Além disso, não havia na época canais alternativos de comunicação, como as redes sociais de hoje, que permitissem ao presidente comunicar-se diretamente com a sua base e mantê-la ativa, radicalizada e, quando necessário, presente nas ruas.
Jânio tampouco conseguiu construir uma ponte sólida com as Forças Armadas, segundo Loureiro, o que foi igualmente decisivo para o fracasso do autogolpe. As suas relações com a caserna sempre foram ambíguas. Ao mesmo tempo em que prestigiou a classe, nomeando militares para presidir as sindicâncias sobre supostos desvios cometidos pelo governo de Juscelino Kubitschek, ele também a humilhou publicamente, como quando acusou o general presidente da Petrobras de levar a estatal à falência — o militar chegou a ser preso após refutar o ataque.
A Política Externa Independente, de aproximação com países comunistas, também deixou as Forças Armadas com um pé atrás.
— Não sei por que Che Guevara foi condecorado — indignou-se o senador Padre Calazans (UDN-SP). — Por que se fez assassino de milhares em Cuba? Por que saqueou terras? Por que tomou propriedades particulares? Por que oprime o povo e engana uma nação? Por que entregou Cuba a Kruschev [líder da União Soviética], para ameaçar todas as nações da América? Ou por que a senhora sua mãe veio fazer baderna no Brasil? Não sei por que foi condecorado. Sei que os três ministros militares não referendaram esse ato.
— Quando Sua Excelência, num gesto infeliz e impensado, concedeu a Grã-Cruz da Ordem do Cruzeiro do Sul a Che Guevara, protestei imediatamente contra semelhante afronta aos sentimentos de nosso povo e aos brios do Exército justamente na semana de Caxias — acrescentou o senador Caiado de Castro (PTB-DF), um militar da reserva.
Consumada a renúncia, alguns aliados de Jânio chegaram a defender a ideia de que ele deveria novamente se candidatar à Presidência da República para enfim derrotar as tais “forças terríveis”. O senador Argemiro de Figueiredo riu da ideia:
— Direi apenas que uma nova experiência com o senhor Jânio Quadros na chefia do governo seria o mais deplorável atestado de insanidade mental da nação brasileira.
O efeito mais traumático da renúncia seria sentido três anos depois. Os mesmos militares que em 1961 não quiseram Jango na Presidência da República conseguiriam derrubá-lo em 1964 e instaurar uma ditadura que duraria 21 anos.
No ano seguinte à renúncia, Jânio Quadros se candidatou ao governo de São Paulo, mas por poucos votos não se elegeu. Ele teve depois seus direitos políticos cassados pela ditadura militar e só voltou à vida política em 1986, após vencer nas urnas o adversário Fernando Henrique Cardoso e assumir a prefeitura de São Paulo.
Jânio morreu em 1992, aos 75 anos de idade, sem nunca ter dado uma explicação convincente para a renúncia de 1961.
— Nunca se encontrou nenhuma evidência da existência de "forças terríveis" contra o governo. Ele jamais deu uma justificativa satisfatória simplesmente porque significaria descortinar o seu lado autoritário e antidemocrático. Como personalidade que ainda tinha planos eleitorais, sabia que não poderia fazer isso — explica o historiador Felipe Loureiro.

Os Soldados da Borracha - Artigo

 






Os Soldados da Borracha - Artigo
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Entre 1943 e 1945 cerca de 60 mil pessoas foram recrutadas para trabalharem nos seringais da região amazônica, onde extrairiam borracha imprescindível para o esforço de guerra empreendido então pelos Estados Unidos e seus aliados, contra o avanço dos regimes fascistas. Era a Segunda Guerra Mundial, e o Brasil, alinhado com os Estados Unidos, fornecia insumos necessários para fabricação de pneus, botes, calçados, material isolante e outros itens derivados da borracha.
Os homens foram, de fato, recrutados para este trabalho, e acabaram se tornando conhecidos por soldados da borracha. Este alistamento compulsório foi realizado pelo S.E.M.T.A (Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia), sediado em Fortaleza, o que fazia sentido em função de o nordeste brasileiro ter sido a região escolhida para o alistamento: a seca devastadora mais uma vez ameaçava expulsar famílias inteiras dos campos e leva-las à recorrente peregrinação pelas vilas e cidades em busca de alimento e trabalho.
Intermediado pelo SEMTA, o engajamento na extração da borracha transformou milhares de brasileiros em semi-escravos, submetidos a contratos fraudulentos por “coronéis” dos seringais, sobrevivendo e trabalhando em condições extremas (uma floresta tropical infestada de doenças que lhes eram desconhecidas e contra as quais seus corpos já combalidos pela subnutrição não apresentavam quaisquer defesas).
Em geral as famílias dos soldados permaneceram na sua terra natal e acabaram desamparadas. A grande maioria do contingente total dos alistados jamais voltou para casa, vítima da insalubridade geral nos seringais, de animais, da violência das relações de trabalho ou presos aos contratos e às dívidas criadas pelos senhores das terras. O governo tampouco cumpriu o prometido: levar os soldados para casa como heróis de guerra e com tratamento igual aos combatentes, inclusive com aposentadoria. Calcula-se que apenas seis mil tenham conseguido voltar para casa por sua própria conta.
Em 2014, o Congresso Nacional aprovou a concessão de indenização no valor de vinte e cinco mil reais aos soldados da borracha ainda vivos, e modifica a base de cálculo do reajuste da pensão vitalícia para seus dependentes, de um e meio para dois salários mínimos mensais.
O SEMTA, criado em 1942, teve como diretor Paulo de Assis Ribeiro, e era financiado por um fundo especial da Rubber Development Corporation, criado no contexto dos Acordos de Washington, que nortearam a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Foi extinto no ano seguinte e a Comissão Administrativa de Encaminhamento de Trabalhadores para a Amazônia (CAETA) assumiu suas funções.

Eleições Eletrônicas - Artigo

 


Eleições Eletrônicas - Artigo
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O feriado de 15 de novembro de 1989 foi marcado por um acontecimento épico que mobilizou milhões de brasileiros. Depois de quase três décadas, um novo presidente seria escolhido pelo voto popular. Realizada em dois turnos (15 de novembro e 17 de dezembro), o pleito ocorreu sob a nova Constituição, promulgada no ano anterior, e apresentava diferenças marcantes em relação às eleições realizadas em 1960, as últimas antes da ditadura militar do período 1964-1985.
Além da inédita organização em dois turnos, as eleições também diferiam das anteriores por determinar o voto para vice vinculado ao voto para presidente, permitir o voto dos analfabetos e jovens entre 16 e 18 anos (ampliando o eleitorado de 17% para 45% da população), contar com propaganda obrigatória gratuita no rádio e TV e pela organização de debates televisivos entre os candidatos. A importância da mídia eletrônica aliás, mostrou-se fundamental para todo o pleito e tornou evidente a influência que as organizações de mídia exercem na política nacional, intensificada desde a introdução maciça da TV nos lares brasileiros nos anos 1970.
Se no primeiro turno 22 partidos lançaram candidatos próprios apenas para testar sua influência junto ao eleitorado e como forma de auto-promoção, no segundo turno viu-se uma aglutinação da maioria das legendas em torno dos dois candidatos. A disputa pelo segundo lugar esteve acirrada ao longo da campanha, com Lula (PT) e Brizola (PDT) na corrida para disputar o segundo turno com Collor de Mello (governador de Alagoas filiado ao PRN e até então um político sem nenhuma expressão nacional), sendo que o candidato petista venceu o antigo aliado de Jango por uma diferença de apenas 400 mil votos.
Collor defendia uma agenda liberal e de desmonte do estado, enquanto Lula, oriundo dos movimentos populares (no caso, sindical) apresentava uma agenda que priorizava a diminuição da desigualdade no país e uma maior intervenção estatal nos rumos da vida econômica. Aglutinando partidos de direita e praticamente todo o empresariado nacional, que se reuniu em peso em torno do seu nome (muito mais em uma campanha anti-Lula do que de fato, pró-Collor), o governador de Alagoas venceu o candidato do PT, que reuniu a seu lado partidos de centro e de esquerda (PT, PDT, PSDB, entre outros) no segundo turno. Marcou a campanha a influência da mídia eletrônica (a própria Rede Globo, 20 anos depois das eleições, reconheceu sua nefasta influência ao editar os debates em favor de Collor de Mello) e os ataques pessoais que visavam destruir a imagem do candidato da esquerda, assim como as bravatas do eleito em relação ao combate a corrupção, apresentada por ele como um problema principalmente entre agentes públicos.
Seu governo não chegou ao fim. Atuando de forma autoritária, às turras com o Congresso Nacional, incapaz de debelar a crise econômica, impotente diante do aumento da miséria do povo brasileiro, isolado politicamente, Collor sofreu impeachment em 1992.
O Brasil realiza a maior eleição eletrônica do mundo, com mais de meio milhão de urnas eletrônicas. A partir da consolidação do cadastro nacional único e automatizado de eleitores na década de 1980, abriu-se caminho para a informatização do processo eleitoral. No início dos anos 1990, o Superior Tribunal Eleitoral criou uma infra-estrutura que permitiria o uso da urna eletrônica, através de uma rede nacional que transmitia a alguns centros regionais as apurações de cada município, agilizando enormemente o trabalho de apuração. Já em 1994 o resultado das eleições foi anunciado no mesmo dia do pleito. No ano seguinte, a alta cúpula do TSE passou a promover uma campanha em prol da urna eletrônica, para vencer as resistências inclusive dentro da própria instituição. O equipamento foi desenvolvido no âmbito do próprio TSE em parceria com a Serviço Federal de Processamento de Dados (SERPRO), Comando-Geral de Tecnologia Aeroespacial (CTA) e com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Em 1996 32 milhões de votos (quase um terço do eleitorado da época) foram coletados e totalizados por meio das mais de 70 mil urnas eletrônicas produzidas para aquelas eleições, realizadas eletronicamente nas cidades com mais de 200 mil habitantes. O número de municípios cobertos pelo sistema informatizado aumentou nos anos seguintes e atualmente as cédulas são usadas apenas em casos excepcionais.
As cédulas de papel foram utilizadas pela última vez em 2002. Apesar de algumas críticas (como a não impressão do espelho do voto para conferência do eleitor, falta de testes livres contra hacking) a urna eletrônica não foi alvo de ataques ou falhas comprovadas.
Nota do blog: De qualquer forma, com urna eletrônica ou não, o sistema eleitoral brasileiro continua não permitindo a eleição de ninguém fora dos grupos (bandidos) políticos de sempre. Para ser candidato a um cargo que realmente importa, é preciso "vender a alma" a eles. Não é você quem escolhe em quem vai votar, você vota em quem já foi previamente escolhido pelos políticos de sempre. E assim o ciclo de corrupção, tráfico de influência e todas as demais maldades, continua idefinidamente. O Brasil só vai ter alguma chance quando for permitido candidatar-se sem ser filiado a nenhum partido político. Como isso nunca vai acontecer, nada vai mudar...

Esplanada do Theatro, Vale do Anhangabaú, Centro, Década de 1900, São Paulo, Brasil

 


Esplanada do Theatro, Vale do Anhangabaú, Centro, Década de 1900, São Paulo, Brasil
São Paulo - SP
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Destaque para o Viaduto do Chá e as casas de aluguel do Barão de Itapetininga na Rua Formosa.
Podemos identificar a torre da Igreja de Santo Antônio no início da Rua Direita, ainda não existia a Praça do Patriarca. Os Palacetes Prates só em 1911. Ainda existiam muitas casas e algumas chácaras no Vale.

Propaganda " A Penha Diz com Quem Anda Para Dizer Quem é", Empresa de Ônibus Nossa Senhora da Penha, Brasil


 

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domingo, 26 de dezembro de 2021

Travessa de Santa Catarina, 1946, Lisboa, Portugal


 

Travessa de Santa Catarina, 1946, Lisboa, Portugal
Lisboa - Portugal
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Ao fundo, a Calçada do Combro notando-se o Palácio Marim Olhão (ou do Correio Velho).
Vendedora de couve-portuguesa, produto essencial no Bacalhau da Consoada.
Este topônimo deve a designação à circunstância de que neste sítio — exatamente onde está esse Palacete n.º 2 [Palacete Alfredo da Silva] — ter existido a Igreja paroquial de Santa Catarina do Monte Sinai.

Antiga Rotatória das Avenidas Meira Júnior, Treze de Maio e Rua Capitão Salomão, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil

 



Antiga Rotatória das Avenidas Meira Júnior, Treze de Maio e Rua Capitão Salomão, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil
Ribeirão Preto - SP
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A imagem mostra o local antes das obras do Complexo Viário Dr. Manoel Ferreira Leão Netto.
Nota do blog: Data e autoria não obtidas.

Chácara Bela Vista, 1900, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil


 



Chácara Bela Vista, 1900, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil
Ribeirão Preto - SP
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Vista de duas edificações e grupos de pessoas. Presença de crianças e adultos, cavalos e um homem trabalhando, ao que parece, um sapateiro.

Pedreira, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil


 

Pedreira, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil
Ribeirão Preto - SP
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Pedreira (possivelmente) localizada entre a Avenida Caramuru e a Avenida Santa Luzia.
Era utilizada pela Câmara Municipal para extração de pedras para fabricação de paralelépípedos. Presença de operários (ao fundo) e, no canto esquerdo, paralelepípedos utilizados para calçamento das ruas.