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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Escola Caetano de Campos / Avenida Ipiranga / Praça da República, Setembro de 1951, São Paulo, Brasil


Avenida Ipiranga / Escola Caetano de Campos.


Avenida Ipiranga / Praça da República / Escola Caetano de Campos.


Recorte da foto acima.


Avenida Ipiranga / Praça da República / Escola Caetano de Campos.


Recorte da foto acima.


Escola Caetano de Campos / Avenida Ipiranga / Praça da República, Setembro de 1951, São Paulo, Brasil
São Paulo - SP
Fotografia

Nota do blog: Data 13/09/1951 / Fotografias de Chico Albuquerque / Crédito da postagem para Kiyoshi Hiratsuka.

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Escola Normal / Escola Estadual Caetano de Campos, São Paulo, Brasil



 



Escola Normal / Escola Estadual Caetano de Campos, São Paulo, Brasil
São Paulo - SP
Editor V. Steidel & Cia
Fotografia - Cartão Postal

Nota do blog: Circulado em 1898.




quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Prédio do Jardim da Infância da Escola Normal, Atual Caetano de Campos, São Paulo, Brasil



 

Prédio do Jardim da Infância da Escola Normal, Atual Caetano de Campos, São Paulo, Brasil
São Paulo - SP
Fotografia



Apenas nas fotos é que podemos ver o prédio do Jardim da Infância, pois ele não está mais lá. Foi demolido no início da década de 40, na gestão do Prefeito Prestes Maia, para dar lugar à Avenida São Luís. Triste lógica de alguns administradores municipais que, no afã de realizar grandes obras, não hesitam em passar por cima dos símbolos históricos e culturais.
No Estudo de um Plano de Avenidas para a Cidade de São Paulo, elaborado por Prestes Maia em 1930, então engenheiro da Secretaria de Viação e Obras, nem se falava na existência e demolição do prédio do Jardim da Infância: lá se previa “a derrubada de toda a Escola Normal”, para em seu lugar construir outro edifício, onde funcionaria a Câmara dos Deputados, obra monumental, encimada por um capitólio, no estilo americano.
A Escola permaneceu, mas o Jardim não teve a mesma sorte. Aliás, Prestes Maia não parecia muito simpatizante com a educação infantil: em sua gestão, diminuiu-se o ritmo de construção de parques infantis(criados pelo Prefeito anterior, Fábio Prado) para apenas três, dos quarente e seis previstos.
1894. Inaugurava-se o edifício da Escola Normal Caetano de Campos. O prédio do Jardim ainda não estava lá, mas fazia parte da proposta do Partido Republicano Paulista – PRP, do projeto da Escola Normal(Decreto n° 27, de 12/3/1890) e dos planos de Gabriel Prestes, filiado ao PRP desde 1890, tendo sido eleito deputado em 1891.
Dois anos depois, o projeto foi concretizado no Decreto n° 342(2/3/1896) assinado por Bernardino de Campos, Presidente do Estado(governador), e por Alfredo Pujol, Secretário do Interior, e que dizia em seu parágrafo único:
“Fica criado um jardim da infância junto à Escola Normal da capital, como preparo à Escola Modelo; revogadas as disposições em contrário”.
A inauguração do Jardim aconteceu no dia 18 de maio de 1896, ainda em caráter provisório, em antigo prédio da Avenida Ipiranga, até a conclusão do novo edifício, mandado construir por Bernardino de Campos e concluído logo no ano seguinte.
O novo prédio, aos fundos e completamente isolado do resto da Escola Normal, era cercado por um vasto jardim. Davam acesso a ele duas escadas em fraca rampa com pequenos degraus, assim construídas para evitar que as crianças caíssem ao subir. Compunha-se de quatro salas de aula e um grande salão central em forma octogonal para reuniões gerais e solenidades infantis, de 15m x 15m, onde foram pintados a óleo, entre outros, os retratos de Froebel, Pestalozzi, Rousseau e Mme. Carpentier. O salão era coberto por uma cúpula metálica, abaixo da qual havia uma galeria sustentada por colunas de ferro, destinadas ao público por ocasião de festas. Havia mais duas salas anexas ao corpo do edifício, uma para depósito do material e outra para reunião das professoras, perfazendo uma área de 940m2. Dos lados e no meio do jardim erguiam-se dois pavilhões para recreio das crianças.
Em 1946, para as comemorações do Cinquentenário do Jardim, Antônio Paim Vieira, que havia sido seu aluno no início do século, escreveu o texto “Evocações”, buscando apresentar uma visão do Jardim da Infância como conheceu:
“[Um lugar] todo palpitante de cânticos, de cores e de frêmitos. (…) [O prédio,] de altas paredes de cristal, parecia uma descomunal lanterna em que o sol acendia rutilações multiespelhando-se em seus vitrais esmerilhados multicolores e junto e dentro dela agitava-se o bando inquieto de seus pequeninos alunos, como borboletas e mariposas tontas de luz”.
Se a Escola Normal e o Jardim da Infância representavam a República, representavam também os limites em que este regime constituiu em nosso país, relutante em trazer de fato a democracia ara o povo brasileiro. O elitismo do Jardim já foi identificado por Kishimoto em seu estudo sobre a pré-escola paulista, no qual ressalta que dentre as finalidades de caráter social apresentadas por Gabriel prestes para a instalação daquela escola infantil destacava-se a necessidade de atender ao grande número de crianças confiadas a governantas.
Desde a primeira turma de crianças e por um longo período, o caráter de instituição pública modelo irá atrair as “melhores famílias” paulistas.
A cúpula do PRP foi um dos setores presentes na primeira turma. Bernardino de Campos – que foi presidente do Estado por duas vezes (1892-1896 e 1902-1904) e membro da Comissão Executiva do partido, por várias vezes, entre 1892 e 1914- matriculou dois filhos. Havia também dois filhos de Júlio de Mesquita, advogado, que foi deputado estadual, proprietário do jornal O Estado de São Paulo e membro da Comissão Executiva do PRP, em 1892-94 e 1896 (Júlio de Mesquita Filho, após cursar o Jardim da Infância e o Primário no Caetano de Campos, continuou os seus estudos em Portugal e na Suíça). Francisco de Assis Peixoto Gomide, que veio a ser membro da Comissão Executiva do PRP em 1903, matriculou um filho. Vários representantes da elite paulistana também estavam presentes, como por exemplo Ignácio Pereira da Rocha, Barão de Bocaina, Emilio Ribas, José Cardoso de Almeida.
Durante muito tempo, o Jardim contou com esse tipo de clientela, tendo entre seus alunos: Guiomar Novaes (1897-1900); Theodoro Sampaio Filho, Maria R. Matarazzo, Francisco Matarazzo, Cincinato C. Braga, Mário de Andrade, Cecília Meireles, Maria da Glória Capote Valente, Euzébio de Queiroz Mattoso Filho (1901-1910); Francisco Peixoto Gomide, Oscar Americano, Clibas de Almeida Prado, Maria Eugênia de Abreu Sodré,, Carmem Montoro, Genoveva Toledo Piza, Helena do Valle Amaral Gurgel (1911-1920); André Franco Montoro, Ruth Monteiro Lobato, Palmyra Carvalho Pinto, Fausto Eiras Garcia, Marina Mesquita, Ricardo Capote Valente (1921-1930); Nelson Amaral Gurgel, Paulo Eiró Gonçalves, Júlio Cerqueira César Netto, Luciano Gomes Cardim, Paulo Sérgio Milliet da Costa e Silva, Renato Consorte, Lucia Ulhoa Cintra, Maria de Lourdes Abreu Sodré, Maria Helena Gomes Cardim (1931-1940).
Como Escola Modelo, a Caetano de Campos acabava por reservar o privilégio de seu espaço e materiais à elite. Mesmo sem um estudo da demanda de vagas e da distribuição sócio-econômica dos alunos, é de supor que aquela elite deve ter sido favorecida nas matrículas. Por outro lado, observa-se a escola pública sendo capaz de atrair esses setores sociais, o que dificilmente aconteceria nos dias atuais.
Já no ano da inauguração, 1896, Gabriel Prestes editava a Revista do Jardim da Infância, visando “tornar conhecidos os processos empregados em tais instituições de ensino e reunir os elementos artísticos necessários à organização do ensino infantil pelo sistema froebeliano”, constituindo-se em um instrumento para aperfeiçoar a instituição aberta na Capital e facilitar a criação de outras, tanto públicas quanto particulares. Cada um dos dois números publicados, o segundo deles em 1897, tem em torno de trezentas páginas, com artigos voltados para a prática docente.
Havia uma equipe trabalhando na elaboração e implantação das propostas. A coordenação dos trabalhos de instalação do Jardim coube à inspetora(nome dado à função de diretora) Maria Ernestina Varella (de 18/5/1896 a 1°/6/1909). Como auxiliares, a poetisa Zalina Rolim, vice-inspetora, e Regina Soares, inspetora da Escola Normal. Estas traduziram – a primeira do alemão, e a segunda do inglês – obras para exercícios de linguagem, de ginástica, brinquedos, cantos e hinos. Zalina Rolim cumpriu um importante papel na adaptação de histórias, poesias e cânticos.
A influência norte-americana era marcante. Foi daquele país que Gabriel Prestes trouxe todo o material froebeliano, inclusive um harmônio para as aulas de marchas e cantos. O diretor da Escola Normal desejava que o sistema viesse se adaptar aos nossos costumes, devendo as professoras conhecer os processos gerais para poder selecionar o que fosse aplicável e criar elementos artísticos de que carecêssemos.
O Jardim dividia-se em três turmas de alunos(chamados períodos), dos quatro aos seis anos. Como professoras, foram selecionadas três normalistas da Caetano de Campos: Joann Grassi, Anna de Barros e Izabel Prado. Para cada classe havia também uma auxiliar, aluna da Escola Normal. Maria Ernestina e Zalina Rolim também desenvolviam atividades diretamente com as crianças.
O Decreto n° 397, de 9/10/1896, que regulamentava a Escola Normal da Capital e as demais escolas-modelo, previa que o jardim da infância seria voltado para o preparo dos alunos de ambos os sexos, que se destinavam às escolas-modelo, “pela educação dos sentidos, segundo os processos de Froebel”.
Gabriel Prestes traduziu com modificações, para publivar na Revista do Jardim da Infância, o Guia para Jardineiras (Paradise of Childhood) de Edward Wiebé, que apresentava os princípios do método Froebel, proposta que considera que toda educação deve começar pelo desenvolvimento do desejo de atividade. Os materiais empregados nos jogos ou ocupações do jardim de infância eram chamados de dons ou dádivas:
“São ao todo vinte dons segundo a definição geral de Froebel. Entretanto, só os seis primeiros são geralmente designados pela denominação de dons. Preferimos, porém, seguir a classificação e a nomenclatura do grande criador do sistema:
1- seis bolas de borracha, cobertas com tecidos de retrós ou de lã de várias cores;
2- esfera, cubo e cilindro de madeira;
3- cubo dividido em oito cubozinhos;
4- cubo divisível em oito partes oblongas;
5- cubo divisível em metade e quartas partes;
6- cubo, consistindo de partes oblongas, duplamente divididas; [todos esses servem para construções]
7- tabuinhas quadradas e triangulares para compor figuras;
8- varinhas para traçar figuras;
9- anéis e meios anéis para compor figuras;
10- material para desenho;
11- material para pcagem;
12- material para alinhavo;
13- material para recorte em papel e combinações;
14- material para tecelagem em papel;
15- veretas para entrelaçamento;
16- réguas com dobradiças, gonígrafo;
17- fitas para entrelaçamento;
18- material para dobradura;
19- material para construção com ervilhas;
20- material para modelagem.”
Maria Ernestina Varella preparou uma programação para ser desenvolvida com as crianças dos três períodos, que permaneceu de 1896 até 1926, quando a professora Alice Meirelles Reis, após assistir às aulas de Lourenço Filho, na Escola Normal, cogitou de introduzir em sua classe a reforma trazida pela Escola Nova. Alice contou com o apoio da inspetora do Jardim, Irene Branco da Silva, que, procurando “ transfundir um pouco de seiva nova” na tradição antiquada dos jogos froebelianos, propôs a possibilidade de organizar-se algo baseado no método Decroly (seção para crianças normais), encontrando bastante entusiasmo pela inovação.
Fala-se muito de uma dimensão pedagógica do sistema froebeliano, em oposição às correntes assistencialistas da educação infantil, às quais se atribui a educação moral e religiosa. Na verdade, a preocupação com a formação de bons hábitos, com o cultivo da obediência, perpassava toda a sociedade: as crianças, ricas ou pobres, eram alvo, cada qual a seu modo, da intervenção e vigilância dos adultos; a educação moral, voltada para a disciplina e obediência, era o núcleo da formação, mesmo que as crianças do Jardim tivessem um ambiente bastante rico e diversificado. Isso pode ser observado não só na divisão de seus horários, mas também no conteúdo mesmo de suas atividades.
Estavam previstos exercícios de linguagem, dons froebelianos, trabalhos manuais, modelagem, desenho, números, cores, música, ginástica e “brinquedos”.
Os brinquedos eram brincadeiras de roda, de movimento, de imitações, geralmente em marcha e acompanhados de melodias fáceis. Em uma das fotos das crianças, exposta no álbum da Escola Normal elaborado em 1908, com o título “Um brinquedo das crianças do Jardim da Infância”, elas estão com duas professoras ao redor de um canteiro circular; há duas crianças com tambores e uma com pandeiro, o que sugere o tipo de atividade desenvolvido.
Quanto aos exercícios de linguagem, consistiam, para os menores, em conversações que giravam em torno da criança na família e no Jardim da Infância, das partes principais de seu corpo, de seres ou objetos que lhes seriam úteis e que mais frequentemente atraiam sua atenção, de seus pais e parentes próximos, de animais domésticos. Depois, os temas iam-se ampliando: o lar, o amor para com os pais e benfeitores, sentidos físicos, dias da semana, meses do ano, as estações, plantas úteis, cenas campestres(como argumento para considerações morais ou de utilidade prática e para exercícios de nomenclatura, diálogos em prosa ou em verso), animais, alimentos, vestimentas, habitações, móveis e utensílios domésticos, meios de transporte, a Pátria, formação de sentenças sobre objetos comuns, formação de palavras com letras impressas, etc..
A programação das atividades diárias para os três períodos evidencia um estrito controle do tempo. Para um horário de quatro horas(240 minutos) estavam previstos vinte momentos diferentes, nenhum deles acima de quinze minutos. Ou seja, além da vigilância dos adultos, a própria divisão do tempo acabava por controlar as crianças.
Horário do terceiro período (crianças de seis anos)
11:00-11:10 – canto, revisão, chamada;
11/10-11:25 – ensaio de canto geral com a professora;
11:25-11:40 – conversação
11:40-11:50 – recreio
11:50-12:00 – marcha
12:00-12:15 – desenho nas lousas com varetas;
12:15-12:25 – música; ginástica;
12:25-12:30 – preparação para o lunch;
12:30-12:45 – lunch em classe;
12:45-13:00 – recreio no jardim;
13:00-13:15 – revisão, canto, chamada;
13:15-13:30 – primeira seção, bola; segunda seção, formação de palavras com letras impressas; anéis;
13:50-14:05 – trabalho manual, modelagem, segunda; ervilhas, terça; dobradura quarta e sexta; entrelaçamento, quinta; alinhavo sábado;
14:05-14:15 – recreio
14:15-14:25 – brinquedo;
14:25-14:40 – exercício de cálculo com cubinhos;
14:40-14:55 – pensamentos, mérito, despedida;
14:55-15:00 – saída.
Aos sábados o horário era mais livre, com a programação de exercícios de linguagem, jogos, cantos e passeios.
Embora se possa supor que havia certa flexibilidade e autonomia das professoras para adaptar os horários, o grau de detalhamento da programação evidencia seus limites. Maria Ernestina se refere a essa divisão em pequenos intervalos dos exercícios para argumentar que o trabalho das professoras não era menor que o das suas colegas das escolas primárias, embora ficassem quatro horas com as crianças, e não cinco.
Froebel, contudo, não deixou de lado a dimensão religiosa em sua concepção educacional. A inspiração não é católica, mas protestante, religião predominante nas terras alemãs e também nas norte-americanas. Há todo um sentido de espiritualidade nos dons froebelianos, como é o caso da bola, da esfera, símbolo universal da unidade vital existente em todos os seres da natureza.
Embora Gabriel Prestes considerasse a Educação republicana como laica e o ensino moderno como nascido da decadência da autoridade régia e da autoridade clerical, a religião não ficou de fora do Jardim da Infância. Não mais, é claro, o ensino religioso dos tempos do Império, que nas escolas primárias dominava o conjunto das atividades.
O próprio Prestes traduziu, com adaptação dos versos por Zalna Rolim, o programa de Anna W. Devereaux, inspetora dos jardins de infância de Massachusetts(EUA), apresentado como um modelo de distribuição do ensino. Na programação para o mês de setembro, que tinha como pensamento dirigente a colheita, estava previsto o hino Graças ao Criador e, nas conversações da manhã, a comparação da vida da família e da criança com a vida em geral, “remontando-se à origem de toda a vida”, em que se recomendava mostrar à criança uma imagem da Virgem.
Se a dimensão religiosa ficava difusa na programação, o mesmo não acontecia com a formação moral, que era muito mais explícita. Todos os cânticos, histórias e roteiros utilizados nas aulas de linguagem, traduzidos e adaptados do inglês, francês e alemão, apresentavam um fundo moral;
Era a história do “Dedinho Vaidoso”, por exemplo, visando promover o sentimento de união e afeto na família, que terminava assim:
“O médio e o mínimo foram encarregados de ir buscá-lo para o meio dos companheiros e irmãos, e o dedinho anular fez um protesto muito vivo de nunca mais ser vaidoso – pois tinha compreendido por experiência que nada vale tanto como a amizade e o auxílio mútuo em uma família.”
Ou então o conto “Esperas e Verás”, “para ser narrado singelamente”, sobre a arvorezinha de faia que descobre que serve para produzir avelãs, e que termina “convencida do quanto as mães conhecem a vida melhor que as filhas”.
Até nos cantos da hora da entrada cultivava-se a disciplina das crianças, como pode ser visto nestes versos elaborados por Zalina Rolim:
O nosso jardim da infância
É bonito e grato e ledo!
Doce é toda vigilância
Todo trabalho é folguedo.
Vivamos todos contentes,
Sejamos obedientes.
Duas mamães eu tenho
Sei que ambas me têm amor sem fim
Uma lá em casa hoje deixei,
Outra me espera no Jardim.
E a tanto amor corresponder
Sabe com força o coração:
Amar é ouvir e obedecer
Amar também é gratidão.
Na perspectiva de se obter a obediência a partir do carinho, atribuía-se à professora o papel de substituta materna. Joana Grassi escreveu para a Revista do Jardim da Infância o artigo “O Brinquedo no Jardim da Infância”, onde considera:
É preciso que o jardim da infância traia as criancinhas com o olhar benigno de uma mãe, o sorriso melífluo duma amiga. Quanto amor, quanta ternura deve haver então! (…)
Que alegria não se lê na fisionomia angélica das criancinhas ao dar o sinal para o brinquedo? E disso quanta vantagem? Quanta atividade se desenvolve?
Nesses brinquedos além do hábito da ordem que sempre infundem, conduzem também a fins morais úteis(…) .”
Havia também uma concepção da criança como ser passivo, embora a proposta froebeliana entendesse que a criança se educa não apenas pelas impressões, mas pelas ocupações . As lições de linguagem previam diálogos em que as perguntas e respostas já estavam predeterminadas.
Assim, mesmo que as professoras agissem carinhosamente, percebe-se que as crianças estavam sujeitas a um esquema definido de antemão, em que a linguagem aprisionava o diálogo, gerando insegurança.
Mas não havia apenas controle mora. Dentre as atividades propostas pela inspetora de Massachussetts, ainda no século passado (XIX- nota da copista), pode-se observar um tipo de preocupação que se poderia imaginar ter surgido apenas após a teoria piagentina, voltada para a classificação.
Segundo Paim Vieira, a fantasia encontrava no Jardim da Infância- naquele ambiente de sonho, no palácio mágico tantas vezes entrevisto – meio próprio para expandir-se, embora o rigor pedagógico não permitisse o uso de histórias da carochinha.:
“Pássaros, frutas, flores, árvores, vento, sol, fontes, regatos e ervinhas – os seres mais íntimos da criança- vinham dialogar em sua presença, ensinando-a a amar o trabalho e o estudo, a ser amiga do lar, amorosa com os pais, dócil com os amigos, obediente aos mestres, útil a todos, caridosa, patriota, sincera, e tão galante no aspecto externo quanto no moral. (…).
Tudo isto era dito e repetido insistentemente em recitativos, cânticos, hinos e “brinquedos”, modalidades várias das Artes, estimada como elemento didático de primeira grandeza, de tal forma conquista os corações.”
A música desempenhava um papel de grande importância no cotidiano do Jardim. Havia o piano na sala de aula, os cânticos nos mais variados momentos e também a “orquestra do jardim”. Sobre esta há uma foto de 1908 que mostra vários instrumentos musicais: duas harpas, muitas flautas, guitarras (ou alaúdes) e violinos. Quase todas as atividades eram acompanhadas de cantigas “apropriadas”; para difundi-las, cada número da Revista do Jardim da Infância era publicado com um volume anexo, somando mais de cem partituras para as músicas propostas. Guiomar Novaes, que tinha seu professor particular de piano, chegou a compor, aos cinco anos de idade, uma valsinha para o Jardim.
Paim dá ênfase a um projeto que pretendia educar para o estético, para a sensibilidade artística, criticando a “obsessão esportiva” que, segundo ele, passou a tomar conta da educação infantil na década de 1940. Sem chegar ao exagero de desprezar a importância da cultura física de a criança poder correr com liberdade, a dimensão artística e estética – que, por exemplo, apresenta à criança instrumentos musicais e não de brinquedo- merece a nossa admiração. Assim, comparado ao conservadorismo das escolas tradicionais, mesmo limitado por uma perspectiva disciplinadora e moralista, o Jardim provia às crianças um ambiente muito mais rico e estimulante.