Fachada do Clube dos Vinte, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, Brasil
Santa Cruz do Rio Pardo - SP
Foto Postal Colombo N. 16
Fotografia - Cartão Postal
O clube que foi considerado um dos melhores e mais animados do interior do Brasil hoje é uma mera lembrança dos “anos dourados” e cuja história está se perdendo. Ninguém sabe o paradeiro dos enormes álbuns de fotografias que o clube guardava a sete chaves, o imponente prédio foi cedido à Associação Comercial e Empresarial (ACE) e até o piano de cauda desapareceu. Mas quem conheceu a alegria de seus bailes e eventos não esquece a magia do Clube dos Vinte de Santa Cruz do Rio Pardo.
A agremiação era uma das mais antigas da cidade, fundada em julho de 1929 por um grupo de 20 nomes considerados ilustres na sociedade, liderados por Leônidas do Amaral Vieira. Aliás, a data de inauguração foi escolhida por ser o aniversário do principal nome entre seus fundadores, que era o prefeito da cidade no ano anterior.
A primeira sede foi na rua Conselheiro Antônio Prado, num prédio alugado que mais tarde seria a rádio Difusora. É por isso que a emissora aproveitou um palco que existia no imóvel para promover eventos durante muitos anos.
Em 1954, o clube recebeu auxílio do governo do Estado para construir sua sede própria. O terreno escolhido ficava na antiga Praça da República (atual Leônidas Camarinha) e a construção ficou pronta em 1958.
“Foi um clarão de cultura, lazer, bom gosto e entretenimento em toda a Média Sorocabana no final da década de 1950 e nos anos 1960. Não havia apenas grandes orquestras e cantores ou um restaurante fabuloso, mas todo um movimento cultural”, conta o economista Miguel Moyses Abeche Neto, que morava em Santa Cruz do Rio Pardo naquela época e frequentava o Clube dos Vinte.
De fato, o Clube dos Vinte mantinha uma programação cultural invejável, com brincadeiras dançantes, cinema, teatro e outras atividades. Foi a agremiação que trouxe para Santa Cruz, por exemplo, o matemático José Cesar de Mello e Souza, que adotou o nome de “Malba Tahan” e cuja data de nascimento foi instituído como o “Dia da Matemática” no Brasil.
Havia, ainda, o “Programa do Estudante” nas noites de sextas-feiras e o “Rádio Clube Mirim”, apresentado pelo animador José Eduardo Catalano nas manhãs de domingo. Estes eventos chegaram a revelar talentos, como a atriz de teatro e televisão Cléo Ventura.
Após o cinema ou o Programa do Estudante, a juventude tinha um encontro marcado com Mário Nelli e seu conjunto. Naquele tempo, a dança era frequente entre os casais.
Os bailes das debutantes marcaram época, com a presença de artistas famosos da televisão ou cadetes da Academia das Agulhas Negras. Miguel Abeche conta que, certo dia, conheceu um músico e, durante a conversa, descobriu que ele havia tocado em Santa Cruz do Rio Pardo. “Segundo ele, o baile do Clube dos Vinte era o sonho de todo artista da época. Eram eventos reconhecidos no Brasil todo”, disse.
Havia também promoções beneficentes, como o “Natal das Crianças Pobres”, que o clube fazia para arrecadar recursos para, no final do ano, comprar brinquedos para crianças de vilas carentes.
Os carnavais do clube passaram a fazer história logo que a sede própria foi inaugurada. Claro que no ano seguinte, 1959, uma outra ala política de Santa Cruz inaugurou o Icaiçara Clube e durante anos houve uma rivalidade intensa. Mas nada desbancou a hegemonia do Clube dos Vinte durante quase uma década. Afinal, era o clube popular, o lugar da classe média.
O equilíbrio entre Icaiçara e Clube dos Vinte só começou a partir de 1964, quando Geraldo Vieira Martins assumiu a presidência do Ica e iniciou um trabalho de popularização da agremiação ligada ao grupo político dos “azuis”.
Mas até 1964, o melhor carnaval de toda a região estava no Clube dos Vinte, cujo salão ficava lotado nas quatro ou cinco noites de folia. Vinha gente de toda a região para acompanhar as brincadeiras.
A agremiação teve até uma orquestra exclusiva, comandada por Sérgio Ribeiro, que animou carnavais durante quase uma década. Além disso, havia bailes “pré-carnavalescos”, promovidos a partir de janeiro e até a véspera da folia. Na semana da folia, havia o “Carnaval dos Brotinhos”, das 19h às 22h.
Em 1963, por exemplo, pularam no piso do clube nada menos do que a atriz norte-americana Rhonda Fleming — chamada na época de “Vênus Platinada de Hollywood” — e o astro italiano Rossano Brazzi. A dupla estava rodando o filme “Pão de Açúcar” em Jacarezinho/PR e veio passear em Santa Cruz.
O carnaval no clube era tão importante que em 1966, logo após a cassação do governador Ademar de Barros em plena ditadura militar, o substituto Laudo Natel resolveu passar uma noite em Santa Cruz do Rio Pardo. E foi ao carnaval do Clube dos Vinte, acompanhado do usineiro Luizito Quagliato.
Terminado o carnaval, as atividades continuavam na Quaresma, com campeonatos de pingue-pongue, xadrez, dama, baralho e até futebol de botão. A juventude, enfim, tinha o que fazer em praticamente todas as noites.
Segundo Miguel Abeche, o segredo do sucesso era a direção do clube sob comando de “pessoas diferenciadas”, citando, entre outros, Teófilo Queiroz, Leônidas Camarinha, Carlos Queiroz, Paulo Suzuki e Ângelo Aloe.
Até 1964, apesar do apelo popular, o clube seguia as regras sociais da época. Só entrava quem vestisse paletó e, logo na recepção, havia um porta-chapéus e cabideiros para guardar os acessórios dos homens e os casacos — de pele ou mais simples — das mulheres.
O restaurante era o mais equipado da região, com um balcão de luxo fabricado com aço inox, e oferecia aperitivos e amendoim nas manhãs de domingo, enquanto a criançada se divertia no programa “Rádio Clube Mirim”. Durante anos houve também a “Festa Junina”, com quentão e o tradicional “correio elegante”.
Na primeira metade dos anos 1960, o clube chegou a sortear um automóvel zero quilômetro entre seus associados. O reluzente Dauphine, fabricado pela Willys do Brasil sob licença da francesa Renault, saiu para o advogado santa-cruzense Osmar Gonzaga de Oliveira.
Era comum a presença de artistas em bailes do Clube dos Vinte, como o cantor Dick Farney ou a vedete Virgínia Lane, além de astros como Carlos Zara, Paulo Figueiredo e outros.
Alguns nem eram contratados, mas apareciam para se divertir, como Pery Ribeiro — o primeiro cantor que gravou a música “Garota de Ipanema” de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Na verdade, Pery havia se apaixonado por uma mulher de Santa Cruz do Rio Pardo.
Mas nada foi tão marcante quanto um baile cujo cantor não compareceu. O contratado era nada menos do que Cauby Peixoto, uma das grandes estrelas da MPB na época. No sábado à noite, o cantor não apareceu, frustrando centenas de fãs e a direção do clube. Numa época em que não havia internet e nem celular, ninguém imaginava o que havia acontecido.
Porém, na tarde de domingo eis que um sorridente Cauby aparece na porta do Clube dos Vinte. “Mas o baile não é hoje?”, perguntou. Na verdade, o cantor se confundiu com as datas e ficou muito irritado ao descobrir o erro e saber que não iria mais se apresentar no salão.
Uma multidão começou a se formar em frente ao clube. Cauby percebeu e logo disse às pessoas que estavam no bar: “Venham comigo”. Em seguida, dirigiu-se ao coreto da praça central, cantou uma música e mais a consagrada “Conceição” antes de entrar no carro e deixar a cidade. Nunca mais Cauby Peixoto pisou em Santa Cruz do Rio Pardo.
Nos “anos dourados”, a rádio Bandeirantes transmitiu ao vivo, diretamente do Clube dos Vinte, o programa “Os Brotos Comandam”, comandado por Luiz Aguiar. Era um sábado e à noite houve um baile com a banda “The Bells”, famosa na “Jovem Guarda”, e a presença de astros como Jerry Adriani, Wanderlei Cardoso, Dalva Aguiar, Meire Pavão e outros. Horas antes, todos participaram de um show no cinema.
Claro que ainda houve uma outra geração que se divertiu no Clube dos Vinte a partir dos anos 1970 até o final da década de 1980, quando começou o declínio da agremiação. Em meados dos anos 1990, o clube fechou as portas. Algum tempo depois, o prédio foi entregue à Associação Comercial e Empresarial, que instalou sua sede no local sob o compromisso de manter e zelar por suas instalações.
Ficaram, contudo, as lembranças daquele que foi um dos maiores clubes do interior do Brasil e cuja história não pode se perder. Texto de Sérgio Fleury Moraes.