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segunda-feira, 21 de dezembro de 2020
A Grande Trapaça das Padarias - Marcos Nogueira
A Grande Trapaça das Padarias - Marcos Nogueira
Artigo
Cacetinho é seu nome no Rio Grande do Sul. Em Sergipe, chamam-no de pão jacó. O cearense pede pão carioquinha, o paraense come pão careca, o capixaba e o mineiro compram pão de sal. Em São Paulo, ele é simplesmente pãozinho.
Circula nas redes sociais um mapa do Brasil dividido de acordo com a denominação regional do pão francês. Se é preciso na cartografia, não sei, mas diverte.
O que não é divertido: esses pães, apesar dos nomes diferentes, são todos iguais. Porque todos são feitos com fórmulas prontas vendidas pelos moinhos e por conglomerados transnacionais. Como os bolos de caixinha do supermercado.
Ontem (16) foi o Dia Mundial da Alimentação, que celebra a fundação da FAO, braço das Nações Unidas responsável por programas de combate à fome. O pão, mais básico dos alimentos, pegou carona na homenagem. Assim, 16 de outubro também é o Dia Mundial do Pão.
Minha caixa de e-mail foi inundada com lembretes da data, de remetentes ligados à indústria da panificação. Setor que não se limita aos pães industriais prontos; ele atua sem alarde, longe da atenção do consumidor, no fornecimento de insumos para padarias de qualquer tamanho.
Até o final do século passado, a qualidade média dos pães era lamentável no Brasil, é forçoso admitir. No lado positivo, cada padeiro tinha sua receita. Um cacetinho não era um careca, ainda que a diferença fosse sutil.
Mataram um problema com outro problema maior. Vieram a profissionalização e as pré-misturas que aniquilaram a diversidade regional. Todas as padocas as usam –exceção feita aos padeiros artesanais, que recorrem ao adjetivo para anunciar que preparam a própria massa.
Entro na padaria do meu bairro para checar as opções. Multigrãos, australiano, semi-italiano… “Ma che cazzo” é um semi-italiano? Um pão da Mooca, que fala com sotaque meio calabrês?
Errado: esse é o nome que vem na caixa da mistura. No meu bairro, em Sorocaba, em João Pessoa. O fenômeno da massa pronta é global. Não escapam dele nem as baguetes que viajam sob o sovaco dos parisienses.
Pão, na sua forma mais simples, é farinha e água. A maioria leva fermento e sal. Pode ter também açúcar, ovos, manteiga, banha, azeite, leite… tudo isso faz parte do receituário clássico.
As misturas vêm com “melhoradores” de farinha e um rol de ingredientes que você só viu antes na apostila de química do cursinho. Isso não é bom, mas tem coisa pior na utilização desses preparados.
“Os processos tradicionais requerem um cuidado excessivo com a massa, (…) um maior conhecimento técnico do padeiro”, diz um texto de 2017, sem assinatura, da revista “IPC”, publicação para empresários da panificação.
Em outras palavras: não fossem as misturas, as padarias precisariam contratar padeiros que soubessem fazer pão. Ou investir em treinamento. Isso soa um tanto revolucionário, quase subversivo.
Você frequentaria uma cantina que usa molho de tomate enlatado? Pagaria para comer miojo num restaurante japonês? Esse tipo de ardil se chama trapaça.
Churrasqueiros Hipsters Compram Acém por Preço de Picanha - Marcos Nogueira
Churrasqueiros Hipsters Compram Acém por Preço de Picanha - Marcos Nogueira
Artigo
Conheci um corte novo outro dia, quando pesquisava preço de carne. Chuck eye roll. Seria algum rolo com o olho do Chucky, o boneco assassino? Algo a ver com o Chuck Norris?
Nada de tão emocionante. Era acém, informavam as letras menores da embalagem.
E, olha, o tar de chuck eye roll deve ser bom, porque não é barato. Custava uns 50 reais o quilo na minha primeira pesquisa, mas encontrei por até R$ 84 o quilo –em um supermercado de Goiânia. No mesmo lugar, os bifes de picanha saíam por R$ 78 o quilo.
Sei muito bem que existem bois e bois, picanhas e picanhas, acéns e acéns, açougueiros e açougueiros. A genética e o manejo dos rebanhos evoluíram muito: há cortes do dianteiro que fazem bonito no churrasco.
No geral, porém, essas carnes dianteiras –acém, paleta e peito, notadamente– são mais duras e mais baratas do que os cortes tradicionais do churrasco, como picanha, maminha e fraldinha.
Eram chamadas de “carne de segunda” até pouco tempo atrás. Difícil vendê-las a preço de picanha.
A não ser que você os venda numa língua estrangeira. Esse truque não falha nunca.
Funciona até com as tristonhas ervilhas em lata, que vetustos restaurantes do Rio de Janeiro ainda descrevem no cardápio como “petit pois”.
Nas carnes, a prática não é recente. Começou com o contrafilé, o lombo do boi, que faturou prestígio status quando seus cortes ganharam nomes em francês (entrecôte, noix), inglês (ribeye, prime rib) e espanhol (bife de chorizo, bife ancho, ojo de bife).
A nova onda gourmetizadora das carnes tem a ver com a modinha hipster de fazer churrasco à moda americana. Vem a calhar também o fato de que carnes realmente boas do traseiro estão pela hora da morte. Assim, os barbudinhos de orelha alargada compram contentões os cortes da lista abaixo:
Brisket = peito
Denver steak = acém
Shoulder steak = raquete = paleta = braço
Flat iron steak = paleta
Short rib = acém com osso
Pulled pork = copa-lombo de porco
Repito: todas essas carnes podem ser deliciosas, a depender da procedência e da habilidade do churrasqueiro. Mas saiba o que está levando pelo seu rico dinheirinho. Saiba também que comprar em português costuma sair mais em conta.
Como o Delivery de Lanches "Assassinou" a Batata Frita - Marcos Nogueira
Como o Delivery de Lanches "Assassinou" a Batata Frita - Marcos Nogueira
Fotografia
A catástrofe da pandemia na gastronomia nos ensinou muito, acho que já falei disso. Vou me alongar em uma dessas lições: batata frita, possivelmente a comida mais perfeita do mundo, não sobrevive fora de um restaurante. Ou bar. Ou lanchonete. A batatinha nasceu para ser comida fora de casa.
É um problema comum a todas as frituras de imersão –feitas em muito óleo quente, que cria uma crosta externa e cozinha o interior do alimento no vapor que fica lá represado. A batata, por ser a mais popular das frituras (e um acompanhamento quase universal), simboliza esse problema alimentar tão 2020.
Frituras devem ser comidas quentes, recém-saídas do óleo. Fazê-las em casa é uma bagunça que preferimos (eu prefiro, tá legal) evitar. Em situações normais, não faz grande diferença: você deixa para comer batatinha no PF do boteco, no x-salada da lanchonete ou, em situações mais bestas, com entrecôte e molho béarnaise.
A gente continua querendo comer isso, muita gente já tem saído e tal, mas ainda tem outro tanto de gente que só cozinha ou pede refeições para entregar em casa. No decorrer da pandemia, descobrimos que delivery de batata frita não funciona de jeito nenhum.
Meio que já sabíamos disso, mas antes só comíamos batata para viagem para encerrar uma noite de manguaça ou como quebra-galho para alimentar com sanduíche uma galera grande –muitas vezes, composta por pirralhos.
O delivery obrigatório me vez provar batata frita algumas vezes. Não importa a qualidade do restaurante ou dos outros pratos que ele entrega: as fritas são sempre lamentáveis, murchas, molengas, meio frias. Aquecer só piora.
Os donos de restaurante, evidentemente, perceberam o problema. Em especial quem toca negócios especializados em lanches. Não valia a pena descascar e fritar batatas palito para depois receber avaliação negativa do cliente.
Muitos optaram pela solução mais fácil: trocaram a batata fresca pelos produtos congelados e pré-fritos, de qualidade inferior, porém mais práticos. Se é para ser qualquer coisa, que pelo menos não dê trabalho… postura questionável.
Outros quebraram um pouco a cabeça e substituíram as fritas palitos pelos chips de batata, rodelas bem fininhas que ficam crocantes por inteiro. Essas até que viajam bem.
Antes que me venham falar em air fryer: esse troço é um forninho de convecção. Assa, não frita.
Nota do blog: Baita verdade!
O Limão de R$ 2.392 do Supermercado Santa Luzia - Marcos Nogueira
O Limão de R$ 2.392 do Supermercado Santa Luzia - Marcos Nogueira
Artigo
Você sabe o que é limão-caviar?
Eu também só ouvia falar. Nunca comi e, até ontem, não tinha visto.
Limão-caviar é um cítrico australiano, também chamado de “finger lime” –“limão-dedo” em inglês, devido à forma longilínea da fruta. O “caviar” se deve às esferas cheias de suco dentro do limão, que se parecem com ovas de peixe.
Preço é outra semelhança.
Postaram no Twitter uma foto de limão-caviar à venda na Casa Santa Luzia, em São Paulo. O preço da coisa: R$ 2.392 por quilo. Uma bandeja com dois frutinhos, míseros 30 gramas, custava R$ 71,76.
Eu precisava ver com meus próprios olhos.
Peguei um Uber para o Santa Luzia e fui direto à seção de frutas e verduras, mas não achei o tal limão. Perguntei para um funcionário, que sabia de cor o quadrante de geladeira da tão preciosa fruta. Deve ser atração turística do local.
Meninos, eu vi! E, olha, ninguém dá nada por aquela mixaria mirrada, com jeito de pimenta ardida, no meio de tantas outras coisas verdes mais apetitosas. Mas a etiqueta estava lá e atestava: 38 gramas por majestosos R$ 90,90. Limão.
A Casa Santa Luzia, supermercado no miolo dos Jardins, é referência nacional em comidas especiais, importadas e, por assim dizer, gourmet. Se eles não têm determinado ingrediente, vai ser difícil encontrá-lo em qualquer outro lugar de São Paulo.
É também o playground dos super-ricos metidos a chef. Seus corredores são povoados por motoristas e domésticas de uniforme, famílias de diplomatas estrangeiros na xepa do real nanico, senhoras da sociedade e desocupados em camisa polo.
O Santa Luzia –apesar de ser “casa”, os paulistanos usam artigo masculino por se tratar de um mercado– costumava ser também onde a classe média ia para compras especiais. Quando o Enzo queria impressionar a Valentina com risoto e cordeiro.
Não mais. Esses dias acabaram. Porque, meninos, eu vi!
Eu vi e fotografei, mas comprar, que é bom, quase nada. Eu vi castanhas portuguesas a R$ 217 o quilo. Eu vi um pão de forma de R$ 52. Eu vi um vidro de atum que custava R$ 189 e uma caixa de biscoitos de R$ 224. Eu vi uma granola de R$ 41. Eu vi um panetone de R$ 1.122!
Meninos, eu vi com estes olhos que a terra há de comer: uma mulher de alguma idade jogou no carrinho uma conserva de alcachofra de R$ 157. Sem nem olhar a etiqueta.
Sempre houve artigos caríssimos no Santa Luzia. Eles eram uma espécie de alívio cômico para nós –que deliberadamente arrombávamos o limite do cartão por um jantarzinho. “Hahaha, olha lá, Valentina: cogumelos morilles por R$ 200!”, dizia Enzo enquanto pegava os cogumelos porcini de R$ 30.
Enzo e Valentina agora comem carne dianteira de boi porque a traseira não dá mais para comprar. Ainda mantêm a pose: só levam denver steak, que é acém chique.
A inflação de alimentos e a explosão do câmbio destruíram a utopia gourmet da classe média. E deve piorar. Não vai sobrar uma lasquinha de grana padano para contar essa história.
Cheddar de Fast-Food Não é Queijo, é Requeijão Tingido de Laranja - Marcos Nogueira
Cheddar de Fast-Food Não é Queijo, é Requeijão Tingido de Laranja - Marcos Nogueira
Artigo
A moda do hambúrguer é algo tão forte quanto monótono. Dentro dela, há uma coleção de modinhas dentro da modinha. Tivemos o hambúrguer de picanha, de wagyu, dry-aged, a febre do bacon assim ou assado. O smash burger, como pude me esquecer? Agora emerge (ou submerge, se você preferir), uma onde capitaneada por um império da fast-food: a tal piscina de cheddar.
Trata-se de um pote cheio de substância pastosa alaranjada, comprada à parte para que o freguês mergulhe o sanduíche à medida que come. Melhor não comer tudo, pois um único pote tem 42% do sódio recomendado para o dia todo.
Velho, que desperdício. Do dinheiro de quem compra, é claro, pois aquela coisa não merece ser chamada de alimento. Muito menos de cheddar. A gosma laranja não é cheddar, sequer é queijo.
Cheddar é num queijo tradicional da Inglaterra, que se espalhou por grande parte dos países de língua inglesa –universo que contém os Estados Unidos. O cheddar original sequer é cor-de-laranja. Ele é feito de leite de vaca, firme, de cor amarela clara e sabor que vai do doce ao picante, dependendo do tempo de maturação.
A cor laranja vem de um corante à base de urucum e é mais comum nos queijos feitos nos EUA. Foram também os norte-americanos que inventaram o cheddar processado, que vem na forma sólida ou na pasta que enche a piscininha da fast-food. Trata-se, grosso modo, de um requeijão tingido de laranja, com conservantes, estabilizantes, aromatizantes etc. etc. Queijo é só um dos muitos ingredientes.
Essa matéria pastosa é o que você leva quando compra cheddar em quase todos os lugares do Brasil. Algumas hamburguerias têm também o cheddar inglês, de verdade, mas ele está cada vez mais impraticável por causa do preço.
Figueira no Rio Tamanduateí, Circa 1900, São Paulo, Brasil - Vincenzo Pastore
Figueira no Rio Tamanduateí, Circa 1900, São Paulo, Brasil - Vincenzo Pastore
São Paulo - SP
Fotografia
Pedra do Arpoador e Trilhos de Bonde, 1902, Rio de Janeiro, Brasil
Pedra do Arpoador e Trilhos de Bonde, 1902, Rio de Janeiro, Brasil
Rio de Janeiro - RJ
Fotografia
Nota do blog: Pedra do Arpoador e trilhos de bonde, tomados das cercanias da residência da família Barreira Vianna em Ipanema, na esquina da Avenida Vieira Souto e Rua Francisco Otaviano.
Obelisco da Praça Sete de Setembro / Vista Parcial de Belo Horizonte, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil
Obelisco da Praça Sete de Setembro / Vista Parcial de Belo Horizonte, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil
Belo Horizonte - MG
Fotografia - Cartão Postal
Nota do blog: A cidade ainda não tinha os arranha-céus que atualmente caracterizam o centro.
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