sexta-feira, 12 de julho de 2024

American Marietta S/A Tintas e Lacas, Santo Amaro, São Paulo, Brasil










American Marietta S/A Tintas e Lacas, Santo Amaro, São Paulo, Brasil
São Paulo - SP
Fotografia


A imagem acima é de um antigo slide de 35 mm, com a data de revelação impressa na moldura (outubro de 1960), mas sem nenhuma indicação de local. Mesmo assim, desde que a vi, eu cismei que era de São Paulo.
Para confirmar, fui pesquisar os jornais da época. Não foi difícil descobrir que a American Marietta S/A de fato teve uma fábrica em São Paulo, inaugurada por volta de 1955. O endereço, citado em vários anúncios, era em Santo Amaro: rua Piratininga 84, esquina com o número 3504 da avenida João Dias.
Para ter certeza mesmo, fui atrás da imagem aérea de São Paulo em 1958, disponível na internet. E, de fato, pude ver que o que existia nessa esquina (local assinalado pela seta) era muito compatível com o slide. Dá para distinguir tanto o galpão da fábrica como a torre de concreto à sua direita. A partir daí, já não tive mais dúvidas.
É claro que, de 1960 pra cá, muita coisa mudou na esquina em questão. A rua Piratininga mudou de nome, e hoje se chama Dr. Rubens Gomes Bueno. A avenida João Dias teve alterada a numeração, e o antigo 3504 corresponde ao atual 1800. A fábrica da American Marietta foi demolida e seu lugar foi ocupado por outra indústria, muito mais poderosa. Hoje existe lá um templo da Igreja Universal do Reino de Deus.
(O slide de 1960 é de autoria desconhecida; os dois anúncios são, respectivamente, da Folha da Manhã de 29 de novembro de 1959 e do Correio da Manhã de 4 de maio de 1955; a imagem aérea é do site geoportal.com.br; a imagem atual é do Google.)
Atualização do post: Descubro hoje mais duas fotos da fábrica. Não são a cores, como a primeira, e a intenção do fotógrafo parece ter sido mostrar os veículos da empresa, e não o local. De qualquer forma, achei as imagens interessantes e resolvi colocá-las aqui, como registro.
Texto de M. Jayo.




 

Casa de Meus Avós, 1976, Votuporanga, São Paulo, Brasil


 

Casa de Meus Avós, 1976, Votuporanga, São Paulo, Brasil
Votuporanga - SP
Fotografia

E lá vamos nós com outro post de lembranças familiares, desta vez da família Carvalho.
Eu gosto muito dessa imagem, especialmente por causa do frango que, sem ninguém perceber, se intrometeu na cena e acabou saindo (e bem!) na fotografia. 
Inclusive, em tom de brincadeira, a chamo de "foto da galinha".
Introdução e piadas feitas, vamos a descrição da cena: a imagem mostra meu pai Jesus e sua mãe Otávia (minha avó e madrinha de batismo) abraçados em maio de 1976. 
O lugar era a casa de meus avós, no sítio do tio Abraão (irmão de meu avô), na zona rural da cidade de Votuporanga/SP.
Meu avô, na época, trabalhava de meeiro rural para seu irmão, morando com minha avó e a filha Aparecida Tereza em uma das casas do sítio (a casa mostrada à direita).
Na época meu pai morava em São Paulo/SP e trabalhava na Metalúrgica Scai, na rua Visconde de Parnaíba, bairro do Brás, e sempre que podia pegava um ônibus ou um carro próprio ou emprestado para visitar seus pais (não era fácil, especialmente quando tinha que encarar a viagem de ônibus, além da distância ser de cerca de 520 quilômetros, não havia ônibus direto e as estradas não tinham a qualidade de hoje).
Pelo que observei em outras fotografias deste dia, além de meu pai, também estavam no local meu tio Zico (provavelmente veio com meu pai, haja vista que também morava em São Paulo/SP), minha tia Aparecida Tereza e meus avós João e Otávia.
Na imagem meu pai tinha 22 anos, já estava um pouco acima do peso e, provavelmente, com calor (destaques para sua calça boca de sino, camisa em tom rosado e um relógio prateado).
Já minha avó estava com sua roupa "padrão" (nunca a vi com outro tipo de vestido) e o conhecido óculos que sempre usava.
A casa do sítio era bem simples, e embora já tivesse energia elétrica (poste ao fundo), não possuía grandes comodidades, inclusive nem tinha encanamento completo (notem a mangueira preta na parede). Outro fato interessante é o madeiramento do telhado, provavelmente feito a mão no próprio local com os recursos disponíveis no sítio. Também é possível observar parte de uma talha de barro, local onde armazenavam água em temperatura agradável para beber e cozinhar, além de uma bacia ou peneira (não consegui definir).
Ao lado da casa dos meus avós é possível ver outra (não sei dizer de quem) e, ao fundo, a casa de meu tio João (que segundo contam, largou um excelente e bem pago emprego de supervisor na Wapsa em Santo Amaro, São Paulo, para voltar a morar e trabalhar na roça; embora não tenho lembranças dele, sempre escutei de vários parentes que tio João era um cara legal, porém extremamente sistemático, se pegasse bronca de você, te matava em vida; não sei o que o levou a ser assim, talvez algum trauma ou, quem sabe, seja esse nome "João", parece que todos que o tem são meio complicados...rs).
Continuando, acho que seria interessante contar um pouco à respeito de meus avós (mesmo tendo poucas lembranças deles, e ainda da época que era criança, penso ser válido registrar como eu os enxergava e o que os parentes me contaram durante os anos) e sua história de vida.
Vou começar pela minha avó Otávia, e a primeira coisa que posso dizer a respeito dela, é que sempre a achei meio "brava", especialmente em relação ao meu avô. Ela sempre reclamava dele para as pessoas, falando que ele era isso, que era aquilo, que era um velho sem vergonha que saía de casa para ficar olhando outras mulheres na rua, etc. Não dava sossego, pegava no pé dele!
E, ao menos na minha visão, meu avô era um cara quieto, tranquilo, não brigava e nem discutia com ela, limitava-se a negar as acusações e reclamações.
Outro fato que lembro é que ela tinha um papagaio que tratava como filho, ela adorava o bicho, conversava e servia café na xícara para ele (para desespero de minha mãe, que fazia de tudo para não tomar café na casa dela por este motivo).
Eu e outros primos achávamos (na verdade tinhámos certeza) que minha avó gostava mais dos filhos da tia Elisa (Luciano e Cléia). Era algo que não tinhámos dúvida, mas, para dizer a verdade, não nos importávamos muito com isso, era apenas conversa de criança. De verdade, foram poucas vezes que minha avó chamou minha atenção (até porque eu não dormia lá, ficava na casa de outros parentes, especialmente tia Nair). Não tenho nenhuma lembrança ruim com ela. Inclusive, lembro que ganhei dois presentes: o primeiro foi uma "fruta de plástico" da fruteira (foi na hora, ela disse que não tinha nada ou um presente melhor para me dar, e pegou uma fruta de plástico da fruteira da casa dela e me deu; minha mãe, em tom de reprovação, fala disso até hoje...rs); o segundo foi uma nota de 50, não lembro que dinheiro era (acho que deu para comprar alguns gibis, um baita presente levando-se em conta sua situação financeira).
Também gostaria de mencionar que ela era minha madrinha de batismo, junto com meu avô, e tinha um quadro grande com uma fotografia minha bebê na casa dela (provavelmente dado por meu pai, quadro esse que hoje está comigo).
Vendo com os olhos de hoje, acho que ela foi uma mulher que passou por diversos sofrimentos e dificuldades na vida, vivendo sem dinheiro, tendo doze filhos e pouco conforto, inclusive passando por períodos de doença que quase a mataram, ficando internada em hospitais por grandes períodos, gerando situações que a forçaram a tomar decisões muito difíceis envolvendo sua própria família. Tais situações devem ter tornado "Dona Otávia" (o jeito que meu pai chamava ela) uma rocha, uma mulher que teve que se virar com o pouco que tinha para dar conta de criar sua enorme prole e mantê-los no caminho correto. E nesse particular ela não era boazinha ou amorosa, se o filho merecesse o corretivo chegava sem dó! E se aos olhos de hoje tais métodos pareçam errados, naquela época não eram assim considerados. Inclusive, era o "método" que ela conhecia, que a vida lhe ensinou. É um erro julgar atitudes de ontem com os olhos de hoje, são contextos e realidades diferentes.
Mas, mais importante, ela conseguiu criá-los, mesmo passando grandes dificuldades, nenhum deles se envolveu com coisas erradas; não são exatamente uma família amorosa (longe disso), mas ao modo deles, todos seguiram em frente e fizeram suas escolhas.
Feitas essas considerações, chegou a hora de falar um pouco sobre meu avô João (conhecido como "João Pedrinho"), que é a inspiração de meu primeiro nome.
Penso que a primeira coisa que tenho que falar, é que não tenho nada de ruim ou estranho para falar dele. Sempre estava bem vestido (para o padrão dele) e com seu chapéu, cumpria suas obrigações e, junto com minha avó, conseguiu criar 12 filhos com o pouco que tinha (em verdade, não consigo imaginar como conseguiu, talvez devesse ter investido em uma televisão, teria feito menos filhos...rs).
Era trabalhador e, acho que deve ser mencionado, perdeu um dedo em um acidente em uma máquina beneficiadora de arroz (era algo que eu notava na posição de sua mão quando estava conversando). Inclusive, corroborando o fato de ser trabalhador, a própria fotografia é uma prova inconteste dessa qualidade, na época dela (1976) meu avô tinha 70 anos ou quase (ele nasceu entre 1906-1908) e ainda estava trabalhando na roça! Se um homem desse não é trabalhador, quem é que é? Eu? Você? 
Gostava de conversar com os amigos, jogar cartas (especialmente "bisca") e, no fim da vida, se tornou evangélico (lia muito à respeito e chegava até a um certo radicalismo sobre o tema).
Herdou um sítio de seu pai, que acabou vendendo, passando a trabalhar de empregado na propriedade, fato que sofreu recriminação de parte dos filhos durante toda vida. Uma vez confrontado sobre tema, deu sua explicação: "Eu não tinha dinheiro para tocar o sítio e também não tinha como meus filhos estudarem na roça".
Não sei quanto a meu pai, tios e tias, a mim sua explicação soa verdadeira. Deve ter sido uma decisão difícil, não tenho dúvida que acertou. No seu lugar, a maioria das pessoas teria feito o mesmo, a diferença é que alguns não tem coragem de dizer ou assumir. 
Quase esqueci: quando criança, uma vez tomei uns tapas de meu avô, estavam asfaltando uma rua próxima da casa em que eles moravam em Américo de Campos e fui "acompanhar a obra". Como eu era "engenheiro", resolvi pisar no piche asfáltico. O resultado foi que estraguei o chinelo (Havaianas "legítimo") e ainda sujei a casa dele com o piche. Mas nunca tive bronca por causa disso, tirei a calma do velho naquele dia, mereci o corretivo...rs.
Concluindo esse texto, acho que já escrevi bastante, inclusive muitas coisas sem relação com a fotografia, vou registrar uma divertida passagem com meus avós e pai que nunca vou esquecer: 
"Meu pai estava há um bom tempo sem ir na casa de meus avós (morávamos em São Paulo, eles em Américo de Campos) e resolveu ir sem avisar ninguém (eu e ele de Volkswagen Fusca).
Chegamos à noite, acredito que entre 19:00-20:00 hrs, meu pai abriu o portão da casa, entrou no alpendre e parou na porta da sala, sem entrar e ficou olhando para eles, eu ao seu lado.
Meus avós estavam sentados no sofá, assistindo novela ou jornal, não lembro direito. 
Ficamos nos olhando mutuamente sem ninguém falar nada, meus avós não estavam nos reconhecendo (estava de noite e fazia tempo que meu pai não aparecia por lá). 
Continuamos nisso por uns 40 segundos até que meu pai não aguentou e disse:
- Mãe, sou eu!
Ao passo que minha avó respondeu:
- Ah, Otávio!, confundindo meu pai com um de seus irmãos.
Meio decepcionado, meu pai retrucou:
- Não, mãe, é o Zuza!, dizendo seu apelido de infância.
Minha avó não perdeu o rebolado e arrumou a situação:
- Ah, Zuza!, e levantou para dar um abraço."
Eu nunca vou esquecer disso, é 100% verdade, eu estava lá...rs.
Nota do blog: Data 05/1976 / Crédito da imagem para Jesus Fernandes Carvalho.





Capelinha / Capela dos Noivos / Capela de São Sebastião, Distrito de Bonfim Paulista, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil




 



Capelinha / Capela dos Noivos / Capela de São Sebastião, Distrito de Bonfim Paulista, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil
Distrito de Bonfim Paulista - Ribeirão Preto - SP
Fotografia


No dia 29 de setembro de 2011, Aureliano Borges foi entrevistado pela pesquisadora Mônica Jaqueline de Oliveira, membro da Rede de Cooperação Identidades Culturais.
O propósito inicial da entrevista era falar sobre o Clube Esportivo Atlético Bonfinense.
Contudo, no decorrer da entrevista Aureliano relatou à pesquisadora o seu envolvimento afetivo com a Capelinha, também conhecida como Capela dos Noivos, Capela de São Sebastião, entre outras denominações.
A partir das informações coletadas no encontro com Aureliano, o grupo realizou outras quatro entrevistas com moradores de Bonfim Paulista sobre esta edificação religiosa que se localizava no meio do caminho da Estrada Municipal que liga Bonfim Paulista às fazendas da região.
A Capelinha foi erguida no local onde anteriormente havia um Cruzeiro. De acordo com os relatos, trata-se do local de sepultamento de um casal de noivos mortos pelo pai da noiva.
Dona Terezinha Greggio Coli lembra emocionada das procissões que aconteciam na época de estiagem. Os pequenos agricultores que corriam o risco de perder sua safra por causa da seca passavam nove dias em procissão das fazendas à Capela, carregando baldes e garrafões de água. No local rezavam missas e terços em louvor a São Sebastião para que a chuva voltasse a cair e salvasse as plantações.
“Nós nunca chegamos ao nono dia sem chuva, no quarto ou no sexto dia nossas preces eram atendidas e a chuva caia [...]. Era um povo de muita fé”, relembra Terezinha com os olhos marejados.
As entrevistas levaram os pesquisadores a inventariarem a Capelinha na categoria de Lugar.
Na metodologia do INRC (INRC - Inventário Nacional de Referências Culturais), usada pela equipe da Rede de Cooperação, essa categoria diz respeito aos bens que possuem sentido cultural diferenciado para a população local. São espaços demarcados geograficamente e apropriados por práticas e atividades de naturezas variadas (trabalho, comércio, lazer, religião, política).
Nesse caso, o valor do bem cultural Capelinha não é estético ou arquitetônico, mas um valor simbólico, marcado pela religiosidade local.
Entre o final de 2011 e o início de 2012, o local da Capelinha recebeu um empreendimento imobiliário. De início a pequena capela foi poupada, ficou evidente a forte relação afetiva entre a população da região e a edificação. Contudo, como a construção ficava bem em frente a portaria principal de um dos futuros condomínios, a empresa demoliu a Capela e construiu uma nova edificação em outro local. Sobre essa questão o Sr Aureliano fez a seguinte observação: “Quem morreu ali não sai dali para acompanhar a Capela”.
Atualmente a equipe de pesquisadores trabalha para medir qual foi o impacto da demolição e da construção da nova Capelinha para a população local. Texto de Lilian Rosa.
Na imagem 1, vemos Aureliano Borges na antiga capela.
Na imagem 2, vemos a réplica construída.
Nota do blog: Imagem 1, data 2011 / Imagem 2, data 2012 / crédito de ambas para Rede de Cooperação Identidades Culturais.

Fiat Topolino que Homenageia a Itália é Proibido no País por Não Ser Italiano - Artigo

 








Fiat Topolino que Homenageia a Itália é Proibido no País por Não Ser Italiano - Artigo



O Fiat Topolino é um “carrinho” feito para deslocamentos urbanos que, na verdade, é um Citroën Ami adaptado ao estilo italiano. Não bastasse isso, o Topolino é fabricado em Marrocos e, por ser um “italiano fake”, foi impedido de entrar no país europeu que deu origem à sua própria fabricante.
Na Itália, a lei em relação ao que é produzido dentro ou fora do país é levada muito a sério. Portanto, se o carro ou qualquer tipo de produto é feito fora da Itália, é proibido de carregar o nome, bandeira ou qualquer símbolo ao ser vendido no país. A Stellantis passou recentemente por um problema parecido com a Alfa Romeo, tendo que alterar o nome do seu primeiro carro elétrico de Milano para Junior, devido ele ser produzido na Polônia.
No total, foram apreendidos 134 Topolino no porto de Livorno, na Toscana, segundo o jornal La Repubblica. O periódico ainda cita certo descaso das autoridades italianas quanto à homenagem feita pela própria Fiat, que inseriu elementos das praias locais em diversos itens de design: “eles não são italianos, não podem exibir o tricolor (bandeira da Itália) do seu lado, violam a lei”.
O pequeno Fiat Topolino é produzido do outro lado do Mediterrâneo, em solo marroquino, como estratégia financeira da Stellantis, pensando na redução de gastos. A montadora já afirmou que essa ação reduz em milhares de euros o preço dos seus carros, principalmente por conta dos menores salários pagos aos africanos.
O CEO da Stellantis, Carlos Tavares, tem sido inflexível em relação a produção de carros fora da Itália ou outro país do qual o modelo em questão será vendido. Ele afirma que esta estratégia evita os riscos de perda de mercado para os modelos elétricos chineses. O governo italiano, é claro, se opôs a essa estratégia. A Itália guarda zelosamente a marca “Made in Italy”, que é concebida apenas para produtos desenvolvidos, fabricados e embalados no país.
Essa marca, por assim dizer, é levada tão a sério que existe até uma área específica do governo que supervisiona às infrações contra o país, bem como um feriado nacional celebrado no aniversário de Leonardo da Vinci, no dia 15 de abril. Além disso, um motivo bem menos simbólico, é o fato do governo italiano ter investido milhões de euros na Stellantis em forma de renúncias de receita a fim da montadora manter a produção no país e evitar demitir trabalhadores.
A Stellantis nega ter violado qualquer lei e afirma que irá retirar os adesivos tricolores dos pequenos Topolinos para que eles possam entrar no país de forma legal. Talvez essa estratégia do governo italiano não seja muito eficaz, já que, provavelmente, os italianos que adquirirem os modelos colocarão novamente os adesivos no carro. Texto Lucas Parente / Quatro Rodas.

A Volta do Manto Tupinambá - Artigo

 





A Volta do Manto Tupinambá - Artigo
Artigo

Um dos mais bem preservados entre os onze mantos tupinambás remanescentes do século XVII voltará definitivamente da Europa para o Brasil. Até o fim de 2023, o tesouro confeccionado com as penas vermelhas do guará deixará para trás a coleção etnográfica do Nationalmuseet, o museu nacional da Dinamarca, e integrará o acervo do Museu Nacional no Rio de Janeiro. A instituição dinamarquesa anunciou a doação nesta terça-feira. A peça, que os indígenas consideram sagrada, está em Copenhague desde 1689, segundo registros oficiais.
“É uma grande honra para nós receber um dos principais artefatos etnográficos do Brasil, que se encontra no exterior há tanto tempo. A devolução mostra a confiança do Nationalmuseet no nosso trabalho, depois de tudo o que aconteceu”, disse Alexander Kellner, diretor do Museu Nacional. Na noite de 2 de setembro de 2018, um curto-circuito desencadeado pelo superaquecimento de um ar-condicionado provocou um incêndio que destruiu boa parte da instituição brasileira.
Kellner se reuniu com a direção do Nationalmuseet em abril, na capital dinamarquesa, e viu o manto pela primeira vez. “A relíquia desperta em nós um enorme senso de responsabilidade. Vamos falar a verdade: se o manto estivesse conosco antes, teria queimado. O Brasil precisa entender a importância de cuidar do próprio patrimônio cultural. Ainda estamos aguardando ações do governo federal que possibilitem o repasse de 180 milhões de reais por empresas privadas e estatais para concluirmos a reconstrução do museu até 2026.”
Em nota oficial, o Nationalmuseet destacou que a doação do manto é uma “contribuição única e significativa” para a recuperação do acervo brasileiro. “As heranças culturais têm um papel decisivo nas narrativas das nações sobre si mesmas. É assim no mundo inteiro. Por isso, é importante para nós ajudar a reconstruir o Museu Nacional do Brasil depois do incêndio devastador de alguns anos atrás”, afirmou na nota o antropólogo Rane Willerslev, diretor do Nationalmuseet.
O manto em questão mede 1,2 metro de altura por 60 cm de largura. Possui um gorro e uma capa, que constituem um único traje. As penas de guará se encaixam sobre uma base de fibra natural, parecida com uma rede de pesca. Os tupinambás usavam vestimentas do gênero em ocasiões formais, como as assembleias, os enterros de pessoas queridas e os rituais antropofágicos, a celebração mais imponente promovida por eles no período colonial. O museu de Copenhague não sabe informar quem trouxe a peça sagrada para a Dinamarca nem por quê.
A instituição do Rio pretende exibir o manto a partir de 6 de junho de 2024, quando o museu completará 206 anos. Na ocasião, será reaberta apenas uma pequena sala, e nela estará a relíquia. A cenografia deve ser planejada pela equipe da entidade em parceria com os indígenas. “O Museu Nacional e os tupinambás mantêm uma relação próxima há mais de duas décadas”, lembra João Pacheco de Oliveira, antropólogo e curador das coleções etnográficas da instituição. Ele explica que a devolução de objetos ritualísticos é complexa e implica o envolvimento de intelectuais indígenas e dos conhecedores da tradição, inclusive daqueles que sabem trabalhar com arte, sonhos e xamanismo. “Estamos preparando os profissionais do museu para receber de maneira adequada uma peça tão rara.”
Ao longo dos últimos dois anos, o embaixador do Brasil na Dinamarca, Rodrigo de Azeredo Santos, costurou discretamente o processo de doação. Ele assumiu o posto durante a pandemia, em dezembro de 2020, depois de servir no Irã. Quando os dinamarqueses encerraram a quarentena, na primavera de 2021, Santos visitou o Nationalmuseet com a família, se encantou pelo manto e teve a sensação de que a relíquia estava no lugar errado. Meses depois, em novembro de 2021, leu a reportagem "Longe de Casa", na Piauí número 182, que discorria sobre a peça. O embaixador soube, então, que o Brasil nunca havia reivindicado oficialmente a devolução do artefato. A partir daí, Santos tratou de reunir as cartas necessárias para formalizar o pedido.
“Os sonhos dos nossos ancestrais, que são também os nossos, seguem vivos. Amotara preservou em sua memória a lembrança da existência de um Manto Sagrado para o nosso povo. Nossos Mantos são ícones da nossa espiritualidade e, por isso, acreditamos que devem estar de pé e vivos, próximos ao seu povo de origem”, escreveu a cacica Maria Valdelice Amaral de Jesus em correspondência endereçada à direção do Nationalmuseet, no dia 29 de julho de 2022. Ela é uma das líderes das 23 aldeias que compõem a Terra Indígena Tupinambá de Olivença, localizada nos municípios baianos de Ilhéus, Buerarema e Una.
Na carta, a cacica se refere à própria mãe, Nivalda Amaral de Jesus, a Amotara, que travou o primeiro contato com a relíquia em maio de 2000, quando o Nationalmuseet a emprestou para a Brasil + 500 Mostra do Redescobrimento, em São Paulo. Depois de visitar a exposição na companhia de um repórter da Folha, Amotara declarou ao jornal: “Somos tupinambás. Queremos o manto de volta.”
Além da cacica, enviaram cartas o cacique Rosivaldo Ferreira da Silva, o Babau, outro líder dos tupinambás de Olivença, e a direção do Museu Nacional do Rio. Os três documentos foram entregues pelo embaixador a Willerslev. O diretor do Nationalmuseet se sensibilizou com as correspondências e preparou um parecer favorável à devolução da peça. Em seguida, levou a reivindicação dos brasileiros aos seis membros do conselho do museu dinamarquês. Os conselheiros, por sua vez, recomendaram que a relíquia fosse doada ao ministério da Cultura da Dinamarca. No último dia 31 de maio, o ministro Jakob Engel-Schmidt finalmente autorizou a volta definitiva do manto.
A Embaixada do Brasil trabalhou o tempo todo para que a negociação acontecesse exclusivamente entre os museus e a comunidade tupinambá. “Nosso objetivo era que a sociedade dinamarquesa encarasse a devolução como uma cooperação cultural dos dois países para ajudar a reconstruir a instituição brasileira. Queríamos evitar debates sensíveis na Europa sobre a repatriação de artigos que pertencem aos povos originários de outros continentes. Por isso, todo o processo transcorreu em sigilo”, conta Santos. “Para mim, é uma honra participar da devolução. Sou carioca. Me lembro de visitar o Museu Nacional com meu pai e meu avô. Mais tarde, eu mesmo levei minha filha até lá. Quando o museu pegou fogo, eu ainda estava em Teerã e fiquei muito tocado. Ao chegar a Copenhague, vi que poderia contribuir para recuperar o acervo da instituição.”
Mal recebeu a notícia de que a peça regressará ao Brasil, a cacica se emocionou. “Minha avó dizia que a perda do manto enfraqueceu o povo tupinambá. Espero que a relíquia volte logo para nos revigorar. Não importa se chegará à Bahia ou ao Rio. O fundamental é que retorne. Até hoje, não saiu nenhuma portaria reconhecendo o nosso território. O governo federal já identificou a terra como sendo dos tupinambás, mas ainda não a homologou. Enquanto isso, o território é invadido por grandes hotéis e mineradoras de areia. Sem a portaria, a gente não consegue fazer nada. Que o manto traga força aos tupinambás de Olivença! Nós precisamos que nossa terra seja demarcada.”
Enquanto os trâmites se desembaraçavam nos gabinetes da Dinamarca, o Nationalmuseet convidou a artista Glicéria Tupinambá, irmã do cacique Babau, para visitar o país em setembro do ano passado. Ela adota em suas criações os mesmos métodos que seus antepassados utilizavam para confeccionar as vestimentas sagradas.
Glicéria ficou uma semana em Copenhague e passeou pelo Nationalmuseet, no Centro da cidade. Lá conheceu a relíquia que voltará para o Brasil. Depois, fez três visitas à reserva técnica da instituição, no Norte da capital dinamarquesa, onde foi apresentada a outras quatro peças identificadas pelo museu como mantos tupinambás. Os artefatos estão trancados há décadas nas caixas metalizadas do acervo.
A artista também participou do seminário Different Pasts – Sustainable Futures (Passados diferentes, futuros sustentáveis). O evento integrava o projeto Taking Care, concebido por museus nacionais europeus para discutir periodicamente o futuro de suas coleções etnográficas. Glicéria falou na mesa Histórias de Revitalização, em 16 de setembro, uma sexta-feira. Dividiu as atenções com os antropólogos Mille Gabriel e Matthew Walsh (do Nationalmuseet) e Renata Curcio Valente (do Museu Nacional do Rio), além de Shgendootan George, artesã do povo Tlingit, de origem canadense, e Te Arikirangi, coordenador de repatriação do museu Te Papa Tongarewa, na Nova Zelândia.
Antes de a mesa começar, Glicéria descreveu o sonho que tivera na noite anterior. “Uma mão carregava algodão e uma pena num tom entre o amarelo e o vermelho.” No domingo, dia 18 de setembro, por volta das 14 horas, enquanto o então presidente Jair Bolsonaro discursava para apoiadores em Londres, onde iria assistir ao funeral da rainha Elizabeth II, a artista cantava em Copenhague. Ela marcava o ritmo batendo o pé direito no chão: He! He!/Tupinambá desceu a serra todo coberto de penas/Ele foi, mas ele é/É o rei da Jurema. A indígena estava iniciando a oficina Manto Fora da Caixa, aberta aos frequentadores do Nationalmuseet. Ali seria exibida pela primeira vez ao público uma das quatro capas guardadas na reserva técnica. Com luvas de borracha, um funcionário retirou o artefato cuidadosamente da caixa de metal e o mostrou por alguns minutos para cerca de trinta pessoas que se aglomeravam na sala dedicada ao Brasil.
Glicéria usava um cocar de penas azuis de arara e um vestido amarelo. Ela falava em português, com tradução simultânea para o inglês e o dinamarquês. À sua esquerda, o manto que será devolvido repousava em pé, dentro de uma vitrine de vidro. “No ano 2000, a peça que está nesta sala nos visitou no Brasil e foi reconhecida pela mãe de Valdelice Tupinambá, a dona Nivalda. Esse encontro ajudou nossa luta, ajudou as pessoas a saberem que a gente nunca saiu do nosso território. Vivemos lá tradicionalmente até agora. Hoje, me encontro aqui pelo chamado do manto. A ligação do passado com o presente não se quebra. Os fios do manto me trouxeram à Dinamarca e nos possibilitaram estar juntos neste momento.”
Os participantes da oficina aprenderam a fazer vestes sagradas com a técnica tupinambá. Para tanto, cada um deles pagou 100 coroas (70 reais) ao Nationalmuseet. Glicéria lhes forneceu cera de abelha, barbante e uma agulha artesanal de madeira. No fim da atividade, um dos presentes perguntou à indígena: “Como você se sente ao ver o manto num museu da Dinamarca?” A artista respondeu com diplomacia: “Eu agradeço às pessoas daqui por terem cuidado do patrimônio de meu povo.”
A doação acontece num momento em que diversas instituições europeias têm de lidar com pedidos de devolução de artefatos culturais e arqueológicos pelas nações de origem. Este mês, por exemplo, a Alemanha enviou o fóssil do dinossauro Ubirajara jubatus ao Brasil. Retirada em 1995 do sítio paleontológico do Cariri, no Ceará, por pesquisadores alemães, a peça ficará exposta num museu da região. Texto de Elisangela Roxo / Revista Piauí / Ano 2023.
Nota do blog: Fotografia de Roberto Fortuna / Museu Nacional da Dinamarca / Data não obtida.


Ladrilhos Hidráulicos Antigos, Rua São Sebastião, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil


 

Ladrilhos Hidráulicos Antigos, Rua São Sebastião, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil
Ribeirão Preto - SP
Fotografia

Piso de ladrilhos hidráulicos na calçada do Monreale Hotel (antigo Hotel Umuarama).
Localizados na rua São Sebastião, 509, Centro.
Nota do blog: Imagem de 2024. Crédito para Jaf.

Aspecto da Fachada do Monreale Hotel, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil


 

Aspecto da Fachada do Monreale Hotel, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil
Ribeirão Preto - SP
Fotografia


Antigo Hotel Umuarama. 
Nota do blog: Imagem de 2024. Crédito para Jaf.

Biblioteca Sinhá Junqueira, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil

 





Biblioteca Sinhá Junqueira, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil
Ribeirão Preto - SP
Fotografia


A instalação da Biblioteca Cultural de Ribeirão Preto foi pensada por Sinhá Junqueira que deixou sua vontade expressa, bem como os recursos, em seu testamento: “Deixo a importância de seis milhões de cruzeiros, para o fim especial de ser fundada e instalada, na cidade de Ribeirão Preto, uma biblioteca pública, a qual será instalada no prédio da rua Duque de Caxias”.
Em 15/03/1960 a Biblioteca Cultural de Ribeirão Preto abriu em um local provisório na rua São Sebastião e em 01/08/1961 foi transferida para a rua Duque de Caxias, momento em que teve seu nome alterado por meio de reunião do conselho da fundação cujo presidente era o Dr. Altino Arantes, pessoa de confiança, sobrinho e principal testamenteiro de Dona Sinhá Junqueira, passando a denominar-se “Biblioteca Cultural Altino Arantes”.
Em 2014 iniciaram-se as discussões para a revitalização da Biblioteca, sendo escolhido Dante Della Manna para liderar esse projeto, com a restauração a cargo da arquiteta Maria Luiza Dutra. O projeto da revitalização foi autorizado pelos órgãos de proteção do patrimônio das instâncias municipal Conppac e estadual Condephaat.
O edifício ficou interditado por um ano, sendo que além da restauração do imóvel de 1932, foram construídos mais de 900 m² de uma área moderna ao redor do casarão.
O investimento foi de R$ 11 milhões, sendo R$ 5,5 milhões na reforma do casarão e R$ 5,5 milhões na construção da nova área de 900 m², financiado pela Fundação Educandário “Coronel Quito Junqueira".
Em 06/02/2020 a biblioteca foi inaugurada com a denominação “Biblioteca Sinhá Junqueira” em homenagem a sua idealizadora. Texto da Biblioteca Sinhá Junqueira.
Localizada na rua Duque de Caxias, 547, Centro.
Nota do blog: Imagens de 2024 / Crédito para Jaf.

Imóvel Antigo, Rua Mariana Junqueira, Centro, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil

 








Imóvel Antigo, Rua Mariana Junqueira, Centro, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil
Ribeirão Preto - SP
Fotografia

Imóvel antigo em boas condições. Atualmente (2024) é ocupado pela empresa Medset.
Localizado na rua Mariana Junqueira, 636, Centro.
Nota do blog: Imagens de 2024 / Crédito para Jaf.


Imóvel Antigo, Rua Duque de Caxias, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil

 













Imóvel Antigo, Rua Duque de Caxias, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil
Ribeirão Preto - SP
Fotografia

Localizada na rua Duque de Caxias, 1570, Centro.
Nota do blog: Imagens de 2024 / Crédito para Jaf.