Castelinho da Rua Apa, 1925, São Paulo, Brasil
São Paulo - SP
Fotografia
Em uma das esquinas da famosa Avenida São João, por muitos anos alguma coisa acontece no coração de quem passa pelo majestoso edifício que ali se ergue: o Castelinho da Rua Apa.
Recebeu esse nome graças ao seu estilo arquitetônico, derivado do francês — apesar de não ser propriamente um castelo. E dizem ser mal-assombrado graças a um infame episódio, nunca devidamente esclarecido, onde uma mãe e seus dois filhos foram encontrados mortos a tiros em 1937.
Os habitantes da peculiar residência eram uma família importante e influente na cidade à época. Donos do Broadway, um cinema na própria Avenida São João, a matriarca Maria Cândida Guimarães dos Reis tinha 73 anos e era uma socialite fervorosamente dedicada à religião desde que perdera o marido, o médico Virgílio César dos Reis, pouco tempo antes do ocorrido que chocou a São Paulo da década de 30.
Os dois filhos da abastada família também eram conhecidos pela alta sociedade paulistana. Álvaro, com 45 anos, era advogado, exímio patinador e epicuro por natureza. Gostava de festas, mulheres e viagens, chegou a ser recordista mundial nos patins. O irmão Armando, 43, também se enveredou pelos caminhos do direito, mas, em questão de personalidade, era o contraponto estoico para o estilo mais hedonista do irmão.
Essa divergência entre os dois, segundo consta, foi o gatilho para o famoso crime. Após a morte do pai e uma viagem à Europa, Álvaro queria fechar o cinema para instalar um ringue de patinação. Armando, responsável pelas finanças da família, negava, alegando que isso não seria uma garantia de retorno como era o Broadway.
A gota d’água veio em maio de 1937. Os dois irmãos teriam discutido, os ânimos se exaltaram e eles apontaram armas um para o outro. A mãe veio apartar, e esse foi o estopim.
De acordo com a versão oficial, Álvaro foi o culpado: baleou fatalmente a mãe e o irmão e, caindo em si, suicidou-se com dois tiros no peito, método pertinente a quem deixa a vida para entrar pra história. Porém, algumas provas e circunstâncias levam muitos a acreditar que não foi bem assim, inclusive Leda Kiehl, sobrinha-neta de Maria Cândida e autora do livro O Crime do Castelinho: Mitos e Verdades, de 2015.
Leda teria escrito o livro porque houve uma contestação enorme — corroborada, inclusive, pelo laudo do IML — sobre a versão oficial da polícia. A pistola de Álvaro foi encontrada na cena e, para os policiais, foi o fator incriminante. Porém, o método de seu suicídio já era incomum o suficiente e, além disso, os legistas encontraram vestígios de pólvora na mão de Armando, e, para eles, o mais novo dos irmãos tinha sido o autor.
Há, ainda, outra hipótese: segundo os médicos, a mãe teria sido assassinada com quatro tiros, e não três como constava no laudo policial. Duas das balas seriam de uma arma de calibre diferente da pistola de Álvaro, o que indicaria a presença de uma quarta pessoa e tornaria o crime uma chacina encomendada.
A polícia descobriu, também, papéis assinados pelo filho mais velho que demonstravam que sua situação financeira era mais delicada do que parecia às vistas, mas seus credores nunca foram encontrados e poderiam estar por trás de tudo.
O Castelinho da Rua Apa passou por um imbróglio judicial e, abandonado, acabou passando para as mãos do Estado. A deterioração só contribuiu para as lendas, e pessoas dizem ouvir passos, choros e lamúrias dos espíritos dos mortos no lugar.
Hoje, o Castelinho é administrado pela ONG Clube das Mães do Brasil, e foi restaurado no período de 2015 a 2017. Mesmo assim, a lenda permanece. As pessoas ainda dizem ouvir sons estranhos vindos do lugar, e alguma coisa continua acontecendo no coração de quem cruza a Rua Apa com a São João.
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