O Que D. Pedro Viu em São Paulo, Além das Curvas da Domitila? - Paulo Rezzutti
Artigo
Dom Pedro e a sua comitiva, depois de passarem pela a colina da Penha avistaram
uma outra, ao longe que ostentava as torres de oito igrejas, dois conventos e
três mosteiros. Passando pela Várzea do Carmo, um verdadeiro pântano onde hoje
encontra-se o Parque D. Pedro II, Pedro I subiu pela atual Rangel Pestana em
direção ao então núcleo urbano da cidade,
desenvolvido ao redor do Colégio dos Jesuítas e confinado entre os rios Anhangabaú
e Tamanduateí.
Uma das primeiras coisas que D. Pedro deve ter
notado foi a taipa paulista. Diferente dos nossos atuais arranha-céus, a morada
paulista da época era feita de barro, socado com o pilão ou espalmado em
treliças de madeira. As casas eram pintadas com uma espécie de cal, tirado da
região da ladeira da Tabatinguera, o “Barro Branco” que dava o nome indígena ao
local. Raras eram as casas de pedra ou tijolos. As construções eram,
geralmente, de dois andares, dotadas de balcões onde os paulistas “tomavam a
fresca”, de manhã e de noite e assistiam às passagens das procissões, que não
eram poucas. Aliás, o povo paulista era bastante devoto: a cidade inteira
parava para rezar o terço à hora da Ave-Maria. Em 1822 existiam três oratórios
públicos, um deles nos famosos “Quatro Cantos”, a antiga encruzilhada formada
pela Rua Direita e a de São Bento. A multidão tomava toda a calçada e parte da
largura da rua, onde rezavam por 25 minutos. Atropelamentos não existiam,
afinal, só havia um coche na cidade inteira em 1822, o do Bispo de São Paulo.
Os outros meios de transporte eram as cadeirinhas, onde escravos faziam o papel
de motor, e os milenares carros de boi com seu gemer característico.
O povo paulista abastecia-se das água das fontes,
geralmente próximas das igrejas, que, pela época da vinda de D. Pedro I, deviam
estar, como aconteceria por mais cinquenta anos até a implantação da Companhia
Cantareira, secas.
Quando os paulistas não estavam rezando ou
procurando água, poderiam ser encontrados matando tempo jogando em família a
bisca, a douradinha e o “vive l´amour”; exercitando suas primeiras tacadas no
bilhar do Antônio José Pereira dos Santos, na rua do Comércio; trocando dedos
de prosa na Botica do Lúcio ou na do Mota, tio do futuro poeta Álvares de
Azevedo, que tão bem deixou ilustrado em “Macário” o hábito paulista de comer
couves cozidas, além das famosas compotas de figos paulistas. Falando em
comida, não podia faltar na mesa do paulista a excelente mostarda que vinha da
fazenda dos padres beneditinos em São Bernardo. Também o doce de figo, um dos
maiores quitutes da cozinha paulista, estava sempre presente.
Jornal só existiria no próximo ano, em 1823.
Escrito a mão, servia cinco assinantes. Era confeccionado pelo “Mestrinho”,
apelido do genial Antônio Mariano de Azevedo Marques, que, aos onze anos,
lecionava latim na Sé.
Além das prosas, o paulista também tinha diversões
noturnas, como os bailes, sendo os mais concorridos o do Palácio do Governo,
então localizado no Pátio do Colégio após a desapropriação dos bens dos
jesuítas. A vinte passos da sede do governo ficava o teatro em que D. Pedro,
com a sociedade paulista, comemorou na noite de 7 de setembro de 1822 o “Grito”
que deu no Ipiranga, sendo aclamado pelo padre Idelfonso Xavier o “Primeiro Rei
do Brasil”. Na época, a sociedade teatral começava a se organizar. Os escravos
e prostitutas colocados no palco anteriormente, já davam lugar a artistas mais
experientes. Sim, eu falei em prostitutas; se é a mais antiga das profissões,
não podia deixar de falar sobre as que a praticavam na São Paulo de
Piratininga.
As prostitutas paulistas do começo dos 1800 só
apareciam à noite atrás de tropeiros. Cobertas por amplos capotes de lã,
deixavam somente parte do rosto à mostra. Vindas, geralmente, de muito longe,
davam um toque oriental à noite paulista mal iluminada. O viajante francês
Saint-Hilaire afirmava que elas passeavam lentamente pelos caminhos ermos da
cidade, jamais abordando ninguém. Não conversavam nem entre elas, e
Saint-Hilaire atestava que nada tinham do cinismo e descaramento das suas
colegas de profissão francesas.
A peça que foi apresentada à D. Pedro na noite de 7
de setembro de 1822 no teatro, e que ele não ficou até o fim para assistir,
chamava-se “O Cavaleiro de Pedra”, uma história a respeito do célebre amante
Don Juan. A peça foi imortalizada por Mozart na ópera “Dom Giovani”, na qual
Leporello, empregado de Giovanni, conta que seu mestre tinha, só na Espanha,
“Mille e Tre” amantes. D. Pedro, que ficaria famoso pelas suas, sendo a mais
famosa a nossa Titília, tinha bem mais o que fazer naquela noite além de ouvir
sobre o caso amoroso dos outros. Segundo alguns relatos, tinha pressa em ver
Domitila, com quem já tinha “ficado” em 29 de agosto, dias depois de ter
entrado na cidade.
Do Palácio, no Pátio do Colégio, ele governou São
Paulo por 15 dias, apaziguou os ânimos políticos dos bernardistas x
andradistas, convocou novas eleições. Mas o que levou mesmo daqui foi a
lembrança de um grande amor que duraria sete longos e escandalosos anos. Como
não assistiu à peça até o final, não aprendeu o mais importante segredo de Don
Juan: nunca se apaixonar por suas amantes.
Nota do blog: As duas
fotos do artigo (detalhe e principal) são do quadro “Panorama
da Cidade de São Paulo”, de Arnaud Julien Pallière, Coleção Brasiliana
Itaú, OST - 36x96 – 1821. É uma das obras mais importantes da iconografia
paulistana do século XIX. É o primeiro panorama completo da cidade e uma das
poucas representações de São Paulo anteriores à criação da fotografia.