quarta-feira, 8 de julho de 2020

Copacabana, 1895, Rio de Janeiro, Brasil - Augusto Malta


Copacabana, 1895, Rio de Janeiro, Brasil - Augusto Malta
Rio de Janeiro - RJ
Fotografia


Bairro da zona sul da cidade do Rio de Janeiro, internacionalmente conhecido, com praia, opções gastronômicas, circuito cultural, boemia e palco de grandes eventos, Copacabana é um dos principais cartões – postais do Brasil. Inicialmente, a extensão da praia e seu entorno chamava-se Sacopenapã, de origem tupi e significava, "o barulho e o bater de asas dos socós", o barulho dos pássaros. A região era bem diferente, com poucos habitantes e construções e de difícil acesso.
O nome Copacabana e sua ligação com o bairro inicia-se no século XVII, com a chegada de comerciantes de prata, bolivianos e peruanos, que eram conhecidos como “peruleiros”. Os imigrantes motivados por sua fé trouxeram uma réplica da imagem de Nossa Senhora de Copacabana. A imagem foi depositada no interior de uma capela, erguida sobre um rochedo e posteriormente deu o novo nome ao bairro.
Em 1914, a igreja foi demolida, para a construção do atual Forte de Copacabana.
Sobre a origem do nome Copacabana há algumas versões: uma da língua quíchua, falada pelos Incas e que significa “lugar luminoso”, “praia azul”, “mirante azul”. Já a outra possibilidade vem da língua aimará, da Bolívia e significa “vista do lago”. Até o final do século XIX, Copacabana não era um local de fácil acesso, viviam ali alguns pescadores, existiam chácaras, sítios, a Igreja de Nossa Senhora de Copacabana e o Forte Reduto do Leme. Em 1892, um marco para a região, foi a inauguração do túnel no Morro de Vila Rica, Túnel Real Grandeza, conhecido como Túnel Velho, atual, Túnel Alaor Prata. A construção permitiu o acesso entre Copacabana e Botafogo e a integração com o restante da cidade. Outro destaque para a integração e movimentação no bairro foi a criação e ampliação das linhas do bonde.
Já no início do século XX, em 1905, na gestão do prefeito Pereira Passos, foi iniciada a obra da Avenida Atlântica, entregue no ano seguinte pelo prefeito Sousa Aguiar. Data deste período a construção do famoso calçadão de Copacabana, construído com pedras vindas de Portugal. Na década de 70 obras foram feitas para duplicar a Avenida Atlântica e facilitar o fluxo, já intenso.
Um dos grandes símbolos do bairro, o Hotel Copacabana Palace foi o primeiro grande edifício construído, inaugurado em 1923. O plano inicial era que o hotel de luxo hospedasse os visitantes que viriam a capital federal para participar da Exposição do Centenário da Independência do Brasil que ocorreu em 1922, porém, dificuldades com a obra, com materiais, não permitiram a inauguração do hotel a tempo. Nas dependências do Copacabana Palace também funcionou um cassino até 1946, quando o jogo foi proibido no país. A edificação com localização privilegiada permite uma bela vista da praia.

Escada de Emergência do Edifício Copan, São Paulo, Brasil



Escada de Emergência do Edifício Copan, São Paulo, Brasil
São Paulo - SP
Fotografia

Amor e Morte na São Paulo de 1923 - Artigo



Amor e Morte na São Paulo de 1923 - Artigo
Artigo


Entro no Cemitério da Consolação, atravesso o pórtico de entrada e percorro, em linha reta, um corredor de árvores enfileiradas. Fundado em 1858, o cemitério narra, à sua maneira, uma parte expressiva da história de São Paulo. Lá estão, gravados nos jazigos, nomes tradicionais como os Almeida Prado, os Álvares Penteado, os Pereira de Queirós. Lá estão também os traços do cruzamento de famílias brasileiras da elite com imigrantes enriquecidos – os Silva Prado e os Crespi, por exemplo. Lá estão, ainda, os mausoléus espetaculares de sírios e libaneses, os túmulos grandiosos de italianos e seus descendentes.
Tenho, porém, um destino certo. Deixo a aleia, viro à direita, passo por uma fantástica miniatura que se ergue para o alto, reproduzindo, em mármore de Carrara, a Catedral de Milão. Ultrapasso um cruzeiro onde as velas acesas lutam contra o vento e chego a uma sepultura, com localização discreta, próxima à parede dos fundos do cemitério. É um belo jazigo de granito cinza, escultura de uma mulher nua, de seios fartos, pernas longas e torneadas, cabeça baixa apoiada em um dos braços, tendo diante de si uma esfera. Há na lápide uma inscrição: Moacyr Piza 1891–192…Caiu o último número do ano de falecimento, sem que alguma mão caridosa tivesse se preocupado com a reposição. Mas quem conhece a história de Moacyr sabe que ali se inscreveu o ano de 1923.
A escultura é obra de um artista de renome em sua época, Francisco Leopoldo e Silva, que lhe deu o título de Interrogação. Esse título parece expressar a incompreensão ante a morte trágica e prematura de uma figura de destaque da sociedade paulistana. Moacyr de Toledo Piza era membro de uma família tradicional, cujos ancestrais chegaram ao Brasil ainda nos tempos da Colônia. Cursou a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e recebeu o grau de bacharel em 1915. A princípio, foi delegado de polícia em cidades do interior paulista, mas acabou fixando residência em São Paulo, onde instalou sua banca de advocacia. Ele não se limitou, porém, à rotina profissional. Logo se destacou na escrita, não tanto por seus versos, mas por uma prosa irônica e desabrida. Havia entre seus companheiros de atividade literária dois personagens muito originais. Ambos se situavam à margem da estética modernista que provocou escândalo na famosa Semana, realizada no Theatro Municipal em fevereiro de 1922. Um deles era Hilário Tácito – pseudônimo do engenheiro José Maria de Toledo Malta –, autor de um romance de costumes, Madame Pommery. Empregando os recursos da ficção-verdade, o livro traz à cena Madame Pommery, supostamente uma francesa, que instalara um bordel de luxo em São Paulo, com o nome sedutor de Au Paradis Retrouvé. Na verdade, Pommery se chamava Ida Pommerikowski, judia polonesa que veio tentar a sorte nestas plagas. O texto focaliza o bordel, frequentado por “coronéis” e políticos, retratando um momento da passagem da cidade provinciana à urbe cosmopolita, cuja elite vinha trocando as cervejadas pelo borbulhar do champanhe.
O outro amigo de Moacyr era Juó Bananére, “baolista [corruptela de paulista] de Pindamonhangaba”, um italiano que mantinha uma barbearia num local pobre do Centro da cidade, a ladeira do Piques, junto ao Largo da Memória. Bananére nasceu da imaginação do engenheiro Alexandre Ribeiro Marcondes Machado e ganhou vida própria, a ponto de se tornar mais conhecido que seu criador. Por meio de uma linguagem macarrônica, misto de português e italiano, Ribeiro Marcondes Machado deu vazão a seu personagem, crítico dos grandes políticos, analista irônico dos fatos internacionais e das relações entre italianos e brasileiros na cidade de São Paulo. Já na década de 10, ele publicava na revista satírica O Pirralho, dirigida por Oswald de Andrade, uma coluna intitulada“As cartas d’Abax’o Piques”. Como lembra Carlos Eduardo S. Capela, em Juó Bananére: Irrisor, Irrisório, Juó foi parceiro de Moacyr Piza num livrinho de poemas satíricos, intitulado Galabáro: Libro di Saniamento Suciali / Calabar. A primeira parte, em dicção macarrônica, foi escrita por Bananére; a segunda, em português, por Moacyr Piza, atrás do pseudônimo Antonio Paes. O traidor apontado no título era o cônego Valois de Castro, que supostamente teria aderido à Alemanha no período da Primeira Guerra Mundial, então em curso. Um anúncio da publicação de Galabáro proclamava: “Calabar di Juó Bananére i Antonio Paes – Estupendimo livrio di scugliambaçó co padri chi abracciô u allem! – avenda in tuttas part-! – 1$000 cada uno.”
Na grande leva da imigração em massa dos últimos anos do século XIX, desembarcou em Santos, no ano de 1899, um casal de imigrantes italianos pobres, como era a regra geral. O casal trazia em sua companhia uma filha de 2 anos, que ensaiava então suas primeiras frases. Seu nome, Romilda Machiaverni. A família foi morar no Brás, bairro separado do Centro por irritantes porteiras, que se abriam e fechavam, manualmente, em função da passagem dos trens pelos trilhos da ferrovia Santos–Jundiaí. No mundo de além-porteiras, que incluía a Mooca, o Belém e o Belenzinho, concentrava-se um grande número de imigrantes, de várias nacionalidades, com predominância de italianos e espanhóis. Se os homens eram operários ou pequenos comerciantes, as mulheres se dedicavam a múltiplas tarefas domésticas. Ou, então, empregavam-se nas fábricas de tecidos da região, costuravam para fora, tornavam-se empregadas nas casas dos bairros mais favorecidos.
Romilda cresceu e começou a trabalhar em seu meio, como costureira. Em pouco tempo, arranjou um emprego como camareira num hotel do Centro da cidade e afastou-se do Brás. Sua pobreza tornava remota a possibilidade de ascender pela via do casamento. Mas ela tinha um trunfo valioso: uma beleza incomum, um rosto iluminado por lindos olhos castanhos.
Não demorou a despertar a atenção de homens jovens e não tão jovens, integrantes da elite paulistana. Foi assim, em pouco tempo, que Romilda Machiaverni se transformou em Nenê Romano – uma nova personagem, não apenas no nome, mas também no vestuário e nos adereços que passou a usar. Deixou para trás o nome de batismo, de ressonância desagradável, e trocou, ao mesmo tempo, as roupas modestas de arrumadeira por vestidos requintados, chapéus, meias de renda, lenços, colares, luvas – enfim, todo um arsenal adequado à sua nova identidade.
Por volta de 1920, São Paulo contava com quase 600 mil habitantes. Não podia se comparar ao Rio de Janeiro, mas tinha já uma vida noturna, com seus cinemas, restaurantes, teatros e casas de prostituição, que iam das mais miseráveis às chamadas “pensões alegres”. No livro História da Prostituição em São Paulo, Guido Fonseca descreve o mundo desses estabelecimentos, frequentados pela jeunesse dorée atrás de prostitutas bonitas, numa atmosfera em que não faltava champanhe francês (ou fabricado como francês, nas fabriquetas do Brás), cocaína e até mesmo ópio. No imaginário da época, a sexualidade pecaminosa estava associada à França. Daí o nome da maioria das pensões alegres: Pension Royale, Palais Elegant, Maxim’s, Maison Dorée. Nenê certamente frequentou algumas dessas casas. Mas, à medida que sua clientela cada vez mais se concentrava em personagens que demandavam sigilo, ela passou a recebê-los em casas por ela alugadas. Quem seriam seus clientes ilustres? Falava-se, entre outros, no senador Rodrigues Alves, no deputado Rodolfo Miranda e, principalmente, em Washington Luís, àquela altura a figura política mais importante de São Paulo, como presidente (governador) do estado.
Nas primeiras décadas do século XX, o Carnaval paulistano se diferenciava conforme os bairros. Havia o Carnaval “italiano” do Brás, que combinava inspirações peninsulares com a apropriação de estilos locais; o da Barra Funda, caracterizado pelos cordões, raros em outros pontos da cidade, com predominância de negros e mulatos. O Carnaval da elite tinha, como ponto mais alto, o corso da avenida Paulista. O local se destacava pelos arbustos enfileirados simetricamente ao longo das calçadas; pelo Belvedere do Trianon, de cuja sacada era possível contemplar o Centro da cidade e a linha de montanhas no horizonte; e, sobretudo, pelos palacetes suntuosos, evidenciando o status de moradores da elite tradicional e a riqueza de um punhado de imigrantes. Eles eram, principalmente, sírios, libaneses e italianos que tinham se tornado grandes industriais ou comerciantes e ascenderam na escala social.
Assim era a avenida prestigiosa onde se fazia o corso, tido como um festejo estritamente familiar, uma confraternização entre aqueles que participavam de um universo cultural comum e possuíam um bem escasso – os automóveis de luxo. Além de representar um símbolo de riqueza, esses automóveis, abertos, eram responsáveis por boa parte da graça do corso. Nos assentos, ou sobre a capota arriada dos carros, surgiam na avenida os pierrôs, as colombinas, os apaches, os caubóis, ou, simplesmente, rapazes em traje de pijama. A moçada lançava de um carro a outro confetes, serpentinas e, mais do que isso, olhares promissores e beijos a distância.
Um filme de cerca de cinquenta minutos, exibido num cinema do Centro, registrou as imagens do corso no Carnaval de 1915. Infelizmente, o filme desapareceu e dele temos apenas a ficha técnica. Mas ela é eloquente por conter uma sinopse onde se relaciona o nome das famílias que participaram do desfile. Entre elas, as famílias de Rodrigues Alves, de Washington Luís, dos Toledo Piza, dos Sousa Queirós, de Martinho Prado etc.
O corso era “estritamente familiar”, mas nem tanto. As “meninas alegres” sempre davam um jeito de participar dos festejos, levadas pelas mãos de seus admiradores. Tanto assim que no Carnaval de 1918 vamos encontrar, entre os foliões, Nenê Romano. Em meio às brincadeiras, ocorreu algo trivial, que ganharia importância anos depois, numa visão retrospectiva.
Segundo uma versão, atraído pela beleza de Nenê um rapaz teria lhe passado um bilhetinho convidativo, numa das paradas do desfile de carros. Segundo outra, o rapaz beijara a mão da cortesã, o que significava algo além de um simples galanteio. Bilhete ou beijo na mão, qualquer que tenha sido o gesto, ele indicava a existência de relações mais íntimas entre o rapaz e Nenê. Deduz-se isso também pela fúria que aquele momento fugaz despertou em uma moça apaixonada pelo jovem, de nome Maria Eugenia Junqueira. Ela era filha de dona Iria Alves Ferreira, viúva, que fora casada com um rico membro da família Junqueira. Dona de muitas terras, era proprietária da Fazenda Pau Alto, nas cercanias de Cravinhos, cidade próxima a Ribeirão Preto. Sagrada pelos contemporâneos como “Rainha do Café”, dona Iria era mulher muito influente. Tinha poder econômico e mantinha relações com os políticos paulistas. Tinha também várias faces: de um lado, era uma empreendedora vitoriosa, dedicada a atos de benemerência; de outro, esteve envolvida em acusações de delitos cometidos com a justificativa de lavar a honra familiar. O episódio mais espetacular do lado B de dona Iria foi o chamado “Crime de Cravinhos”, que teve grande repercussão na sociedade paulista, a ponto de dar origem a um filme, lançado em 1920.
A vítima era o francês Alphonse Defforge, com quem uma filha de Iria tinha se casado na França. Como o rapaz, que se dizia “perdidamente apaixonado”, deu mostras de não passar de um caça-dotes, a jovem se separou dele e voltou para o Brasil. Defforge cometeu o erro fatal de seguir seus passos. Em maio de 1920, apareceu morto nas proximidades da Fazenda Pau Alto, em condições aterradoras: rosto descarnado, orelhas e língua cortadas, mutilações no crânio, perfurações nas costas e no ventre. No processo que se seguiu, capangas da fazenda de dona Iria foram acusados do crime, assim como ela própria, na qualidade de mandante. Graças a suas relações sociais e a seus excelentes advogados, ela conseguiu se livrar da acusação.
Na noite de 20 de setembro daquele ano de 1918, quando voltava para casa em companhia de sua criada Adelina Justo, Nenê foi atacada por três homens. Eles a imobilizaram e, a seguir, talharam seu rosto com uma navalha. O modus operandi da violência coincidiu em alguns aspectos com o Crime de Cravinhos, coincidência que ficou reforçada quando os agressores foram identificados como capangas da Fazenda Pau Alto. Detidos e processados, dois deles foram condenados. Quem recebeu a pena mais alta – seis anos de prisão celular – foi o “preto” Ignácio Alves de Carvalho, conforme enfatizou à época o noticiário da imprensa. Maria Eugenia morreu em 1919, vítima da gripe espanhola que se espalhou em São Paulo.
A intenção dos criminosos era marcar o rosto de Nenê, de tal forma que ela, envergonhada, tivesse de sumir da noite paulistana. Mas não foi bem assim. A navalhada deixou uma cicatriz em seu rosto, mas não a ponto de desfigurá-lo. E ela se recuperou, voltando a brilhar como cortesã requestada. Mais ainda, Nenê não deixou por menos a violência de que fora vítima. Entrou com uma ação indenizatória para obter a reparação dos danos sofridos. Por razões previsíveis – quem era ela diante de Maria Eugenia? –, a ação emperrou no fórum. Nessa altura, ela procurou o advogado Moacyr Piza, a quem, provavelmente, já conhecia da noite paulistana.
Não passou muito tempo para que advogado e cliente se transformassem em amantes apaixonados, protagonistas de um caso que se prolongou por cerca de dois anos. A relação, porém, se desgastou pelo lado de Nenê, enquanto Moacyr era tomado mais e mais por uma paixão possessiva, a ponto de descuidar de seu escritório e distanciar-se da roda de amigos. Nenê acabou pondo fim ao romance. Preferiu, aparentemente, a vida de cortesã à exclusividade rotineira de um amante obsessivo, que, não bastasse o resto, já não conseguia dar conta de suas muitas despesas.
Tudo terminaria assim, não fosse a insistência de Moacyr. Suas visitas antes frequentes à casa de Nenê tinham sido barradas. Em meio à crise, ele publicou um livrinho com o título de Roupa Suja, impresso “sem licença do Santo Ofício, no mês de julho do ano da graça de 1923, na mui leal, católica e governamental cidade de São Paulo”. Nessa obra panfletária, que diz muito de sua coragem, de sua agressividade e de sua verve espantosa, o alvo principal é o presidente Washington Luís. Ele é arrasado como historiador, como governante inclinado ao desperdício do dinheiro público, pela “mania” de construir estradas de rodagem, o que, aliás, lhe valeu o apelido de “presidente estradeiro”. Moacyr tomou como verdade – e tinha boas razões para isso – as façanhas amorosas do chefe do Executivo paulista. No texto, ele se refere repetidas vezes à presença de uma “senhora elegante, bela, quase divina e, mais que tudo, alegre” ao lado do presidente, nas comemorações de 7 de setembro e de 15 de novembro de 1922. Há quem afirme que a tal senhora era Nenê Romano. Naquele ano, em que as relações entre Nenê e Moacyr tinham estremecido, teria ele resolvido, num misto de ciúmes e de ressentimento, fazer alusão a ela, em seu implacável livrinho? Seria para Nenê o recado de que, em vez de se apresentar em público, “a mulher elegante, bela, quase divina e, mais que tudo, alegre deveria ter procurado Washington Luís em mais discreto sítio, para iniciarem, desde logo, o século XVII da França no século XX de São Paulo?”.
Moacyr tentou agradar Nenê com presentes, que ela devolveu, como um faqueiro e um buquê de flores, oferecidos no dia de seu aniversário. Ao mesmo tempo que tentava reconquistá-la por todos os meios, demonstrava seu desespero em versos premonitórios, nos quais a certa altura lamentava: Que hediondo crime, que mortal pecado/ Cometi, que me tens por inimigo?// Por que o bem de olvidá-la não consigo? Eu que, do seu amor ando olvidado // Por quê? Bem sinto: é que nos céus, sereno / Só podes compreender o amor divino,/ Nunca, nunca provaste o amor terreno // O amor de uma mulher que é o meu Destino / E cuja boca é a taça de veneno/ Que faz de um homem justo – um assassino!
A história teve desfecho na noite de 25 de outubro de 1923. Nenê chamara um carro de praça para buscá-la em casa quando Moacyr, que rondava a residência, surgiu de repente. Insistiu em juntar-se a ela para ter uma conversa séria. Os dois se sentaram no banco de trás do automóvel e, sem destino certo, foram percorrendo as ruas da cidade. Atravessaram a avenida São João, subiram a avenida Angélica e alcançaram a esquina da rua Sergipe, nas proximidades da Praça Buenos Aires. Nessa altura, três estampidos secos estalaram na noite. Moacyr havia sacado um revólver e disparado três tiros contra a ex-amante. Logo em seguida, disparou um tiro contra o próprio peito. Nenê morreu na hora, não sem antes soltar um gemido e uma palavra: “Ai, Moacyr.” Como este ainda vivia, o motorista conduziu, atarantado, o carro pelas ruas da cidade até chegar à Central de Polícia, situada no Pátio do Colégio, junto à Praça da Sé. Mas pouco antes da chegada Moacyr não resistiu ao ferimento e também acabou exalando o último suspiro, como se dizia nas crônicas da época.
Na esfera dos crimes passionais, o assassinato seguido de suicídio envolvendo pessoas bem conhecidas, ainda que por motivos bem diferentes, produziu um impacto que até então a cidade não conhecera. De sua parte, expressando e, ao mesmo tempo, modelando a opinião pública, a imprensa traçou a personalidade dos dois protagonistas da trágica história. De um lado, figurava a femme fatale, a jovem sedutora, ruína de muitos rapazes, que preferiam pôr fim à vida a perder o objeto de seu amor; de outro, o jovem de excelente família, dotado de muitas qualidades intelectuais, vítima de um encanto destruidor. Ninguém se lembrou de dizer que havia uma vítima real, transformada em vilã da história.
Se o cemitério em que se encontram os restos mortais de Moacyr Piza é conhecido, onde teria sido enterrada Romilda Machiaverni, que em vida se transformara em Nenê Romano? Quase sempre, escritores ou jornalistas que narraram essa história, ou parte dela, apontam o Cemitério do Araçá, localizado a apenas poucos quilômetros do Cemitério da Consolação. O sociólogo José de Souza Martins é uma voz solitária, ao afirmar que Romilda foi enterrada no Cemitério da Quarta Parada, também conhecido como Cemitério do Brás. Sem tratar de esclarecer a divergência dos dados, prefiro aceitar a última hipótese porque ela sugere que a menina vinda do bairro italiano, que se transformara em Nenê Romano, regressou ao bairro em que crescera, de onde nunca mais sairia. Texto de Boris Fausto.

Isadora Duncan - Artigo


Isadora Duncan - Artigo
Artigo


Em 27 de maio de 1877, nascia em São Francisco, EUA, a bailarina norte-americana Ângela Isadora Duncan. Isadora desde pequena despertava o interesse pela dança. Iniciou no balé clássico aos 4 anos de idade e desde muito jovem questionava a disciplina rígida do balé. Aos 11, já lecionava para crianças da vizinhança, sempre acompanhada das sessões de piano de sua mãe. Nesse momento, já desenvolvia um estilo próprio. Mais tarde, rumou para Chicago, a cidade dos espetáculos teatrais. Lá, Isadora ingressava para a companhia de Teatro de Augustin Daly em 1896, levando-a na sequência a Nova Iorque, onde sua percepção de dança conflitava com as apresentações ao público. Foi em Nova Iorque que começou a ter aulas com Marie Bonfanti, mas não demorou muito para se incomodar com a rotina extenuante, cujos parâmetros convencionais reservavam às mulheres posição coadjuvante. Defensora da liberdade e dos direitos das mulheres, percebia que seus posicionamentos políticos e estéticos não eram bem vindos. Em 1899, decidiu se mudar com a família para Londres. Conquistou um público cativo com ajuda do pianista e maestro Charles de Halle na “New Gallery”. Durante as apresentações, Isadora combinava dança, música e interpretação, desenvolvendo uma arte multidisciplinar. De Londres segue para Paris, onde conhece a artista Loie Fuller durante uma apresentação na Exposição Universal de 1900. O contato com a também dançarina norte-americana reafirmava sua crença em expressões corporais para além do balé tradicional. Em companhia de Loie Fuller, excursionou pela Europa. Na Alemanha, patrocinada pelo empresário Alexander Grosz, passou a criar espetáculos solo. Sua técnica inovadora depreendia profunda conexão com o corpo e seu movimento natural. Não se adequava a regras preestabelecidas. Sua dança era inspirada nos ícones da Grécia Antiga e no trabalho escultórico, que demandava o constante moldar do corpo. Despida de adornos: laços, meias, espartilhos, sapatilhas, propunha uma dança fluida, livre. Cabelos soltos, pés descalços. Corpo coberto somente por uma túnica de gaze. Sem maiores aparatos, seus movimentos atingiam o gestual necessário, cujo corpo sinuoso expressava afetos, sentidos e espaços cada vez mais amplos. Parte de sua arte performática guarda influência de François Delsarte (1811-1871), cantor, filósofo e teórico do movimento, que colocou em prática fundamentos corporais, cuja estética se expressava em dimensões espiritual e metafísica. Duncan foi quem disseminou sua pedagogia para as escolas de dança na Europa. Inicialmente na Alemanha, depois Paris, URSS e EUA. A criação de escolas se tornou um dos grandes projetos de Duncan, chegando inclusive a adotar algumas de suas alunas. As pupilas e, mais tarde, propagadoras de sua arte recebiam a alcunha de “Isadorables”. Com o início da grande guerra, Duncan retornou aos EUA. Em 1915, apresentou o espetáculo “A Marselhesa” no Metropolitan Opera House em Nova Iorque. A performance incluía movimentos inspirados em uma estética militar, convocando a plateia a integrar a luta pela liberdade. O espetáculo evidenciava mais uma faceta de Duncan. Ela acreditava na dança como uma elevação espiritual de comunhão entre corpo e mente, logo de sublimação da materialidade do corpo. Assim, todos alcançariam a liberdade e gozariam de princípios básicos, como a igualdade de direitos. Sua utopia política é exibida na coreografia “March Slav”, de Tchaikovsky. A associação de clássicos com performances de caráter transgressor era incomum para época e causava grande alvoroço entre a crítica especializada. Na peça, Duncan representava um camponês em posição subjugada. A canção “Deus salve o czar” era usada para marcar a queda do camponês que a seguir se rebelava. Tais temáticas alinhavam-se ao ideal comunista por ela defendido, fato comprovado pelo convite do governo soviético para administrar uma nova escola. Em 1921, encena na URSS a peça “Revolucionários”. A trajetória de Isadora Duncan é marcada por amores e tragédias, momentos dramáticos, como a perda dos 2 filhos biológicos em um acidente de carro, seguido de afogamento. De paixões e um casamento ao final da vida, que, ao que se sabe, fora arranjado para facilitar a entrada do marido, o russo Serge Essenin no retorno aos EUA após deixar a URSS. É possível, pois não acreditava na instituição do casamento. Entre algumas curiosidades, destacam-se um recital inspirado nas três graças de Botticelli no qual se apresenta grávida, sua passagem em 1916 no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e as investidas não correspondidas de Auguste Rodin e Gabriele d’Annunzio. Morreu em 14 de setembro de 1927 em um acidente insólito. Durante um passeio de carro, a echarpe que usava no pescoço se enrolou no pneu do carro, enforcando-a. Isadora Duncan deixa um legado celebrado até os nossos dias. Precursora da dança moderna, transformou o ato de dançar, experimentando a fusão entre o corpo e o espírito. Diziam que Isadora se movimentava como as águas, tamanha a delicadeza, porém sempre intensa. Com tamanha potência, Isadora Duncan, ensina e inspira, despida de preconceitos, o sentido mais caro à arte: liberdade! Na imagem matéria da edição de setembro de 1916 da Revista da Semana em homenagem à “A Divina Isadora”. Texto da Biblioteca Nacional.

Imagens Internas do Convento do Carmo, São Paulo, Brasil



Imagens Internas do Convento do Carmo, São Paulo, Brasil
São Paulo - SP
Fotografia



Poucas imagens internas do Convento do Carmo foram publicadas. Estas 2 foram tiradas do alto da torre sineira da Igreja da Ordem Primeira do Carmo. A panorâmica superior é direcionada ao bairro da Moóca e mostra o jardim do convento. Lembremo-nos que outrora esteve instalada uma senzala nos fundos. Em 2º plano, o extenso Parque Dom Pedro II que se estendia desde os arredores do Palácio das Indústrias até as proximidades da Rua da Mooca. No alto à esquerda, as instalações do Gasômetro na Rua da Figueira; mais aquém, na Frederico Alvarenga, antiga Rua do Hospício, o prédio do Gymnásio do Estado que posteriormente — no período de 1962-1981 — abrigou o Instituto Mauá de Tecnologia até este ser transferido para São Caetano do Sul. Na mesma rua, mais à direita, o Quartel do 6º Batalhão. A pequena seta indica os 3 pontos mencionados.
Na foto inferior, tomada no mesmo local, vemos além do telhado do Convento do Carmo, o Parque Dom Pedro II; o Gymnásio do Estado e à esquerda, a Rangel Pestana antes do alargamento. Sabemos que o conjunto composto pela igreja, convento e a torre citada no início, vieram ao chão em 1928 e muitos anos depois, o espaço seria ocupado pelo enorme edifício da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo. Foi poupada a agora solitária Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo e sua torre. As obras para a construção da Secretaria da Fazenda abalaram as estruturas da igreja que sofreu ligeira inclinação e rachaduras. Sua parede lateral direita foi derrubada e refeita. Por motivo óbvio, a provável data das imagens é no máximo 1928.

Largo do Carmo, São Paulo, Brasil


Largo do Carmo, São Paulo, Brasil
São Paulo - SP
Fotografia


A maioria das fotos mostra o local tendo como cenário o Parque Dom Pedro II. Nesta, vemos parte do convento, igreja e sua torre sineira. À direita, a estreita Ladeira do Carmo — atualmente o trecho inicial da Rangel Pestana. Subindo a ladeira duas opções: virar à direita em direção à Rua do Carmo ou à esquerda, entrando na Rua da Boa Morte. Repare o bonde fazendo a curva para descer/subir a ladeira. Encoberto pela imensa árvore, o quarteirão formado pelas ruas do Carmo, Santa Theresa, Anita Garibaldi e atrás do casario, a Rua Silveira Martins — tempos depois tudo desapareceria.

Os 30 Anos do Confisco da Poupança, Brasil - Artigo


Os 30 Anos do Confisco da Poupança, Brasil - Artigo
Artigo


Até hoje, a jornalista Miriam Leitão, editora de economia do Jornal do Brasil em 1990, não se esquece da coletiva de imprensa de plano econômico mais confusa de sua vida.
Foi no dia 16 de março de 1990, um dia depois da posse do presidente Fernando Collor de Mello, quando, no auditório do Ministério da Fazenda, em Brasília, ela e dezenas de repórteres participaram de uma coletiva com a equipe econômica do novo governo, o primeiro eleito pelo voto direto depois de quase 30 anos.
Naquele dia, o terceiro de um feriado bancário, a ministra da Fazenda, Zélia Cardoso de Mello, na tentativa de conter uma inflação de 84% ao mês, anunciou as medidas de um novo plano econômico, o quarto em apenas cinco anos. Os três anteriores - Cruzado, em 1986; Bresser, em 1987, e Verão, em 1989, todos no governo do presidente José Sarney - fracassaram na missão de estabilizar a economia.
"Não temos mais alternativas. O Brasil não aceita mais derrotas. Agora, é vencer ou vencer. Que Deus nos ajude", declarou Fernando Collor de Mello, em rede nacional, na manhã do dia 16.
O novo pacote econômico, batizado de Brasil Novo e popularizado como Plano Collor, incluía, entre outras medidas de estabilização, a troca da moeda (de cruzado novo para cruzeiro, sem corte de zeros), a criação de um imposto sobre operações financeiras, o congelamento de preços e salários por 45 dias, o aumento das tarifas de serviços públicos (gás, luz e telefone, entre outros), a extinção de 24 empresas estatais e a demissão de 81 mil funcionários públicos.
Nenhuma das 27 medidas anunciadas naquele dia, porém, surpreendeu tanto Miriam Leitão — e os 149,4 milhões de brasileiros que assistiram à coletiva em cadeia nacional de rádio e TV - quanto o bloqueio das cadernetas de poupança.
Cerca de 80% do dinheiro aplicado, não só em cadernetas de poupança e em contas correntes, mas, também, em aplicações financeiras, como o famoso "overnight", ficou retido no Banco Central por 18 meses. Estima-se que o governo tenha confiscado o equivalente a cerca de US$ 100 bilhões, o equivalente a 30% do Produto Interno Bruto (PIB).
"Na hora da coletiva, senti um misto de revolta e perplexidade. Sabia que aquele plano provocaria um trauma na população. No fim do dia, chorei muito. O governo cometeu uma violência econômica muito grande contra o povo brasileiro. Foi o pior dos planos econômicos já feitos no Brasil", avalia a jornalista Miriam Leitão que, no livro Saga Brasileira: A Longa Luta de Um Povo por Sua Moeda (2011), se refere ao pacote como "arbitrário", "ditatorial" e "tresloucado".
Do dia 19 de março em diante, correntistas e poupadores, pessoas físicas e jurídicas, só conseguiram sacar 50 mil cruzados novos, cerca de R$ 8,3 mil em valores atuais.
O restante seria devolvido, em 12 parcelas iguais, a partir de 16 de setembro de 1991, acrescidas de correção monetária e juros de 6% ao ano.
Na semana da posse do presidente Collor, o ministro da Fazenda do governo Sarney, Maílson da Nóbrega, decretou feriado bancário de três dias: 14, 15 e 16 de março.
Na terça, dia 13, o presidente do Banco Central, Wadico Bucchi, deu uma entrevista a Folha de S. Paulo para tranquilizar a população: "A caderneta de poupança é garantida por dois governos: o que entra e o que sai. Ninguém vai confiscá-la", garantiu. Na dúvida, correntistas e poupadores formaram longas filas nos caixas eletrônicos durante o feriado bancário.
Na segunda, 19, a situação nas agências se agravou. Dez milhões de brasileiros, segundo estimativas da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), queriam tirar dúvidas com o gerente, conferir o valor do saldo ou sacar o dinheiro da conta.
Boa parte preferiu gastar o que sobrou no supermercado ou guardá-lo em casa. Em muitas agências, faltou dinheiro para tanta retirada. Por essa razão, muitos gerentes chegaram a ser presos por não terem dinheiro suficiente em caixa para pagar os saques de seus clientes.
Em Campo Grande (MS), um agricultor teve um dia de fúria ao confirmar que seu dinheiro estava bloqueado. Ele tinha acabado de vender uma propriedade da família e, com o objetivo de pagar os estudos dos filhos, depositado o dinheiro na caderneta de poupança. Indignado com o confisco, entrou no carro, avançou na direção de uma agência do Banco Safra e estilhaçou a porta de vidro.
"O dinheiro aplicado nas cadernetas de poupança não era um dinheiro qualquer. Para muitos, era a motivação para se viver, o meio para se atingir um sonho ou a esperança de cura para uma doença grave. Era a garantia de uma velhice digna ou a chance de ajudar um ente querido em dificuldade", afirma a jornalista e historiadora Francine de Lorenzo Andozia, autora da dissertação de mestrado Passaram a Mão na Minha Poupança - Um Estudo sobre o Impacto do Plano Collor no Cotidiano da População Brasileira Urbana em 1990 (2019), da USP.
"Ao anunciar o bloqueio das poupanças, a ministra Zélia confiscou não apenas o dinheiro, mas, também, a dignidade das pessoas", disse Andozia.
No comércio, a situação não era lá muito diferente. Sem dinheiro, os consumidores mudaram seus hábitos e as lojas ficaram completamente vazias. O que não foi confiscado pelo governo era usado para fazer supermercado, pagar contas e comprar remédios.
Para não fechar as portas, donos de bares e restaurantes passaram a aceitar cheques e a vender fiado. De Norte a Sul, negócios foram desfeitos, viagens canceladas, casamentos adiados. O prejuízo, dizem os especialistas, foi incalculável. E, na maioria dos casos, irreversível.
Um empresário de Blumenau (SC), prestes a expandir seus negócios, ficou só com uma loja. Endividado, passou a tomar empréstimos e a hipotecar bens. Não aguentou. Em 1999, aos 60 anos, morreu de infarto. Não foi um caso isolado. Pelo Brasil afora, milhares de empresários não tiveram como honrar seus compromissos. Foram obrigados a suspender pagamentos e a demitir funcionários. A maioria foi à falência.
No dia 19 de março, apenas três dias depois do anúncio do pacote econômico, um dentista de Campos (RJ) tirou a própria vida, com um tiro no ouvido. Sua família relatou à polícia que ele caiu em depressão ao saber que suas economias, depositadas na caderneta de poupança, tinham sido bloqueadas. Com o dinheiro, ele planejava comprar um apartamento em Niterói (RJ) para os filhos.
"Não tenho conhecimento de aumento das taxas de suicídio, que possa ser associado às medidas econômicas. Falências podem ter havido, mas são parte da dinâmica natural de uma economia competitiva", minimiza o ex-presidente Fernando Collor de Mello.
"Não foram os eventuais erros, se os houve, mas os acertos do Plano Collor que possibilitaram a estabilização da economia brasileira. Sem ele, a contenção da escalada inflacionária e a modernização do país teriam sido adiadas talvez por anos, com consequências irreversíveis para o desenvolvimento nacional", disse Collor.
A ministra Zélia não foi a única a participar da coletiva de imprensa que anunciou o Plano Collor. Antônio Kandir, o secretário especial de Política Econômica; Eduardo Modiano, o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), e Ibrahim Eris, o presidente do Banco Central, fizeram parte da mesa.
A escolha de Ibrahim Eris para integrar a equipe econômica, aliás, se deu da maneira mais inusitada possível. Quem conta é o escritor Fernando Sabino no livro Zélia, Uma Paixão (1991): "Zélia pretendia falar com Ibrahim Elias, antigo colega seu, mas a secretária, por engano, ligou para Ibrahim Eris. - Bom, já que é você - disse ela, surpreendida -, precisamos conversar".
O livro de Sabino, escrito a partir de informações dadas pela própria Zélia, traz pelo menos mais duas revelações curiosas: a poupança só foi incluída no bloqueio no último momento - a princípio, a medida atingiria apenas as aplicações do "overnight" - e o valor a ser confiscado só foi decidido na noite anterior ao anúncio, durante uma festa-surpresa no resort Academia de Tênis, às margens do Lago Paranoá, em Brasília - os valores de 20 mil e 70 mil também foram cogitados.
"Sempre que tem um problema, Zélia gosta de dar uma trégua para se distrair, deixando o subconsciente trabalhar. Escreveu num papel os números 20, 50 e 70 e voltou à festa", escreveu Sabino. "Ao regressar, havia optado pelos 50 mil".
Hoje, será que a ex-ministra da Fazenda, Zélia Cardoso de Mello, se arrepende de algumas das medidas tomadas em 1990? Se pudesse voltar no tempo, faria algo diferente?
"Se pudesse voltar atrás com as informações que tinha naquele momento, não mudaria nada", avalia a economista. "Trinta anos depois, provavelmente, não teria tomado algumas medidas e teria tomado outras", disse a ex-ministra.
O drama de milhões de brasileiros que tiveram seus sonhos interrompidos pelo Plano Collor ganhou as telas da TV, em novelas como Rainha da Sucata (1990), de Silvio de Abreu; as salas de cinema, em filmes como Terra Estrangeira (1996), de Walter Salles e Daniela Thomas; e as prateleiras das livrarias, em romances como A Felicidade é Fácil (2011), de Edney Silvestre. Neste, Bárbara é "uma das milhares, se não milhões, de vítimas do Plano Collor". Aos 17 anos, ela resolve entrar ilegalmente nos EUA, para ganhar a vida como faxineira e manicure. Ex-correspondente internacional do jornal O Globo e da TV Globo, Silvestre garante ter conhecido muitas "Bárbaras" em Nova York, onde morou de 1991 a 2002.
"Suas histórias eram dolorosamente parecidas. Eram mulheres jovens e bonitas, ex-universitárias de diversos Estados do Brasil, que tinham abandonado seus cursos por não poderem pagá-los e se sustentavam em Nova York como call girls", relata o jornalista e escritor.
"A vida de uma pessoa expatriada numa cidade competitiva como Nova York não tem um pingo de glamour. Na maioria dos casos, elas se alimentam mal, não dormem direito e vivem com medo de deportação".
Uma pesquisa do Instituto Datafolha, divulgada no dia 23 de março de 1990, apenas uma semana depois do anúncio, revelou que 81% dos entrevistados avaliaram o Plano Collor como "bom".
Em um primeiro momento, o pacote econômico surtiu efeito. De 84%, a inflação despencou para 3%. Mas, por pouco tempo. Em junho, subiu para 9% e, no mês seguinte, voltou para a casa dos dois dígitos: 12%.
À medida que o custo de vida subia, o índice de aprovação do Plano Collor caía. Em abril de 1990, o Instituto Datafolha registrou 71% e, em janeiro de 1991, 23%.
Em um misto de raiva e desespero, os cidadãos expressavam sua insatisfação das mais diferentes maneiras: enquanto uns recorriam à Justiça, solicitando a restituição de suas perdas no Plano Collor; outros preferiam escrever cartas indignadas para as redações de jornais e revistas.
"Como eu me sinto? Como um réu que foi julgado e condenado por si mesmo. Votei no homem e ele me condenou a passar fome", escreveu um leitor da Folha de S. Paulo, na edição do dia 15 de abril de 1990.
Menos de um ano depois, no dia 31 de janeiro de 1991, a ministra Zélia Cardoso de Mello lançou um segundo plano econômico: o Collor II. De nada adiantou.
No dia 10 de maio de 1991, apenas um ano e dois meses depois de sua nomeação para o cargo, foi substituída pelo economista Marcílio Marques Moreira.
"O desgaste de Zélia foi muito grande com o bloqueio da poupança, com questões pessoais e com o fato de ser uma mulher jovem no comando da economia, mas, principalmente, com a decisão de manter a moratória da dívida externa.
A pressão dos credores externos (bancos, em especial) e do governo dos EUA foi enorme e Collor desistiu de manter Zélia", analisa o economista Carlos Eduardo Carvalho, professor da PUC-SP e autor do artigo As Origens e a Gênese do Plano Collor (2006).
Desde 1997, Zélia Cardoso de Mello mora em Nova York, onde trabalha como consultora de economia.
"Até hoje, ouço críticas ao confisco da poupança, mas isto não tem nada a ver com a minha mudança para os EUA. Na época, eu estava casada com o Chico Anysio e a decisão de se mudar para os EUA partiu dele, que sofreu um acidente e, por essa razão, se ausentou da TV por um ano", explica a economista.
O governo do presidente Collor também teve um desfecho melancólico. Acusado de liderar um esquema de corrupção, o ex-presidente sofreu um processo de impeachment e foi afastado do cargo no dia 29 de setembro de 1992. Em seu lugar, assumiu o vice, Itamar Franco.
Depois de renunciar à presidência no dia 29 de dezembro de 1992, Collor de Mello teve seus direitos políticos cassados por oito anos. Cumprida a punição, conseguiu se eleger senador por Alagoas, em 2006.
"Mais do que a imagem de um jovem idealista e visionário que assumiu a chefia do Poder Executivo aos 40 anos, gostaria de ser lembrado como um presidente à frente do seu tempo, que propôs e implementou medidas duras, corajosas e fundamentais para a modernização do país", afirma o senador.
Texto da BBC.
Nota do blog: Foi o caos, arrebentaram com o Brasil. E, até hoje, nenhum deles foi preso...

Igreja de São Pedro dos Clérigos, Circa 1860, São Paulo, Brasil


Igreja de São Pedro dos Clérigos, Circa 1860, São Paulo, Brasil
São Paulo - SP
Fotografia


A igreja foi erguida na metade do século XVIII, no Largo da Sé (atual Praça da Sé), e demolida em 1911. Atualmente, em seu lugar encontra-se o Edifício Rolim e o prédio da Caixa Econômica Federal, hoje Caixa Cultural.

terça-feira, 7 de julho de 2020

Rua 25 de Março com Rua João Alfredo, 1900-1901, São Paulo, Brasil - Guilherme Gaensly



Rua 25 de Março com Rua João Alfredo, 1900-1901, São Paulo, Brasil - Guilherme Gaensly
São Paulo - SP
Fotografia

Esquina da rua 25 de Março com a rua João Alfredo (atual rua General Carneiro) entre 1900 e 1901. À esquerda o muro do antigo mercado central, que ficava onde hoje está a praça Gal. Fernando Costa. 


Panorama Visto do Viaduto do Chá, São Paulo, Brasil


Panorama Visto do Viaduto do Chá, São Paulo, Brasil
São Paulo - SP
Fotografia - Cartão Postal


O “Panorama Visto do Viaduto do Chá”, foi tomado em direção a futura Praça da Bandeira, onde vemos ao fundo, os bairros da Bela Vista, Bexiga e a região da Avenida Paulista.
O postal foi circulado para Portugal, com votos de boas festas, no ano de 1925.