A "Seleção" do América de Cali nos Anos 1982-1987, Colômbia - Artigo
Futebol
Artigo
A quantidade de
astros sul-americanos reunidos pelo América de Cali em seus elencos luxuosos ao
longo dos anos 1980 realmente impressiona. Embora seja difícil dissociá-la da
presença de figurões do narcotráfico garantindo sua sustentação financeira
(algo, diga-se, muito disseminado pelo futebol colombiano naquele período), a
era de ouro vivida pelos Escarlatas levou o clube a uma hegemonia nacional que
se traduziu num inédito pentacampeonato consecutivo, ainda que o sonho do
título continental tenha batido na trave por três vezes seguidas.
No fim dos anos 1970, os irmãos
Gilberto e Miguel Rodríguez Orejuela, chefes do Cartel de Cali e acionistas de
vários empreendimentos, almejaram entrar para o mundo do futebol. Inicialmente,
tentaram comprar ações do Deportivo Cali (clube do qual, segundo algumas
fontes, Miguel era torcedor), mas se viram impedidos pelo presidente Álex
Gorayeb, uma vez que a agremiação já contava com uma forte base de associados
que garantiam sua sustentação financeira. O próprio estatuto não permitia
acionistas majoritários, como queriam os Orejuela.
A saída foi bater à porta do rival
América, de torcida expressiva, mas que, até aquele momento (1977), nunca havia
conquistado o Campeonato Colombiano. Fundado oficialmente em 1927, mas com
origens remontando a 1918, o clube nasceu com as cores azul celeste e branco,
inspiradas no Racing argentino. Mas tempos depois já mudaria para o marcante
vermelho que lhe renderia o apelido de “Diablos Rojos”, dado por um cronista
argentino.
No fim dos anos 1940, o clube deixou
seu status de amador ao se filiar à Dimayor, liga profissional colombiana, o
que teria provocado, segundo uma das versões da história, a suposta “maldição
de Garabato”: Benjamín Urrea, apelidado “Garabato”, fora um dos
sócios-fundadores do clube e, em represália à inscrição, havia amaldiçoado
todos os jogadores e dirigentes do América. Dizia-se, ainda no fim dos anos
1970, que esse era o motivo do jejum de títulos.
Mas isso mudaria radicalmente com a
chegada dos irmãos Rodríguez Orejuela ao quadro de associados, incorporando-se
também à junta diretiva do clube presidido pelo atuante Giuseppe “Pepe”
Sangiovanni. A comissão também incluía nomes insuspeitados como o advogado
Manuel Francisco Becerra, assessor jurídico, e a gerente de futebol Beatriz
Uribe de Borrero, primeira mulher a ocupar um cargo administrativo de uma
agremiação do esporte no país.
A presença de chefões do
narcotráfico na direção de clubes colombianos, em geral com o objetivo de
lavagem de dinheiro, se tornaria algo corriqueiro a partir da década seguinte.
Em Bogotá, José Gonzalo Rodríguez Gacha, conhecido como “El Mexicano”, tinha
forte influência no Millonarios. Já Pablo Escobar, o líder do cartel de
Medellín, também era apontado como nome poderoso junto ao Atlético Nacional e
ao Independiente Medellín – este, seu verdadeiro clube do coração. Fernando
Carrillo Vallejo se tornou o primeiro narco a controlar o Independiente Santa
Fe, antes de outros o substituírem. Até clubes menores contavam com seus
“padrinhos”.
Em 1980, os irmãos Rodríguez
Orejuela se tornaram acionistas majoritários do América depois de, no ano
anterior, terem chegado muito perto de contratar um certo jovem meia argentino
chamado Diego Armando Maradona. Também em 1979, os Diablos Rojos exorcizariam a
maldição de Garabato, levantando pela primeira vez o título colombiano ao
vencerem o Unión Magdalena em casa por 2 a 0 no dia 19 de dezembro, data que
ficaria marcada.
A conquista teve também a marca de
um grande vencedor do futebol colombiano. Considerado um dos maiores
preparadores e estrategistas do país em todos os tempos, o técnico Gabriel
Ochoa Uribe voltava ao clube onde iniciara a carreira como jogador: havia sido
goleiro do América em sua temporada de estreia na Dimayor, passando logo depois
ao Millonarios, onde jogaria ao lado de Alfredo Di Stéfano e levantaria quatro
títulos da liga e um da Copa Colômbia.
No intervalo de dois anos entre suas
duas passagens pelos Albiazules, Ochoa Uribe veio jogar no Brasil, defendendo
outro America, o do Rio de Janeiro, chegando ao vice-campeonato carioca nas
duas temporadas. E aproveitou a passagem para, por sugestão do técnico Martim
Francisco, começar a cursar Medicina. O diploma renderia a ele o apelido de
“Doutor Uribe” ao longo de sua vitoriosa carreira como treinador, iniciada no
próprio clube de Bogotá.
Ao todo, Ochoa Uribe teria quatro
passagens pelo comando do Millonarios entre 1957 (quando ainda jogava) e 1977,
levantando duas vezes a Copa Colômbia e cinco vezes a liga (quatro delas num
período de cinco anos). Em passagem de quatro temporadas pelo rival
Independiente Santa Fe, venceu outro título da liga em 1966. A conquista do
campeonato de 1979 pelo América seria a primeira de suas sete pelos
vallecaucanos.
Depois de enfim encerrar o jejum de
títulos nacionais, o objetivo do América era agora marcar seu nome no futebol
sul-americano. Em 1980, ele disputaria a Copa Libertadores da América apenas
pela segunda vez em sua história (a primeira havia sido dez anos antes) e
tentaria ao menos igualar o feito do arquirrival Deportivo Cali, única equipe
do país a chegar a uma final da competição, em 1978, quando foi derrotado pelo
Boca Juniors.
Além de somar mais títulos nacionais
que os Diablos Rojos, os Azucareros também contavam com histórico bem superior
no torneio continental, do qual haviam participado nove vezes: antes do vice em
1978, já haviam chegado às semifinais em 1977 e às quartas em 1969. E
sustentavam desde 1970 uma invencibilidade como mandante no Estádio Pascual
Guerrero que chegaria a 25 partidas e só seria encerrada pelo Flamengo em 1981.
Com uma equipe ponteada pelo
veterano e renomado goleiro uruguaio Ladislao Mazurkiewicz, o América passou
sem problemas pela primeira fase na Libertadores de 1980, superando o
Independiente Santa Fe e os equatorianos Emelec e Universidad Católica de
Quito. Nas semifinais, o clube enfrentou o Internacional de Falcão e o Vélez
Sarsfield, terminando em segundo lugar no triangular após, bizarramente,
empatar seus quatro jogos em 0 a 0.
Mas os vallecaucanos ainda teriam de
esperar um pouco por uma nova chance na competição. Em 1981, o país seria
representado no torneio pelo Deportivo Cali (que conquistaria um resultado
histórico ao eliminar o River Plate vencendo dentro do Monumental de Núñez) e
pelo Atlético Junior. Já em 1982, seria a vez do Deportes Tolima (que chegaria
às semifinais, caindo para o Cobreloa) e do Atlético Nacional participarem da
competição.
Nesse ínterim, o América se
reestruturou e montou um time forte, que logo rendeu frutos. O primeiro deles
foi o seu segundo título colombiano, levantado ainda no fim de 1982. A equipe
já contava então com nomes que marcariam aquela década no clube, como o goleiro
argentino Julio César Falcioni, contratado após brilhar pelo Vélez contra os
Diablos Rojos na Libertadores de 1980, e os paraguaios Jorge Battaglia e
Gerardo González Aquino.
O campeonato de 1982 foi dividido em
dois torneios, Apertura e Finalización, mais um octogonal final. No Apertura,
os 14 times se enfrentavam no sistema de pontos corridos em turno e returno. No
Finalización, os clubes eram divididos em dois grupos: o A, reunindo os sete
primeiros colocados do Apertura, e o B, com os sete piores. Para o octogonal
decisivo, em turno e returno, classificariam-se os cinco melhores do Grupo A e
os três melhores do B.
O América de Cali, que já havia
terminado como líder do Apertura e do Grupo A do Finalización, levou o título
no octogonal com uma rodada de antecipação, ao bater o Millonarios por 1 a 0 em
pleno El Campín, em Bogotá, com gol do meia Juan Caicedo. Na etapa decisiva, o
clube acumulou oito vitórias, quatro empates e apenas duas derrotas. Humberto
“Beto” Sierra foi o artilheiro do time, com 22 gols, enquanto o argentino Roque
Alfaro anotou outros 16.
De volta à Libertadores, o time
conseguiu um reforço de peso para tentar chegar longe – ou mesmo conquistar o
título inédito – ao tirar do rival Deportivo Cali o meia-atacante Willington
Ortiz, considerado um dos maiores jogadores colombianos da história. Revelado
pelo Millonarios, era um ponta-de-lança muito veloz, driblador e criativo, que
brilhara na já citada vitória dos Azucareros sobre o River Plate em Buenos
Aires em 1981.
Na mesma época, despontava nos
Escarlatas um atacante igualmente veloz e habilidoso que marcaria época no
clube: o pequeno Antony de Ávila, apelidado “El Pitufo” (nome em espanhol dado
aos Smurfs). Era mais uma arma ofensiva numa equipe de defesa firme, comandada
pelos sólidos Victor Espinoza e Luís Eduardo Reyes, e de rápidos
contra-ataques, também puxados do lado esquerdo pelo ponteiro argentino Daniel
Teglia.
Essa equipe fez ótima campanha na
primeira fase da Libertadores, enfrentando o Tolima e os peruanos Universitario
e Alianza Lima. Empatou seus dois primeiros jogos (contra o Tolima em Cali e o
Universitario em Lima), mas deslanchou em seguida, vencendo os outros quatro e
garantindo a classificação às semifinais com uma rodada de antecipação. Na fase
seguinte, no entanto, duelos mais complicados aguardavam pela equipe dirigida
por Ochoa Uribe.
O Grêmio e o
Estudiantes eram os adversários no triangular, e abriram o grupo com vitória
dos gaúchos por 2 a 1 em Porto Alegre. O América estreou na segunda rodada
derrotando o Tricolor por 1 a 0 em Cali, gol de Battaglia. Porém, duas derrotas
fora de casa deixaram o time quase sem chances. Com o empate em 3 a 3 no
jogo da volta entre os dois adversários, na famosa Batalha de La Plata, os
Escarlatas estavam eliminados, fechando a campanha com um 0 a 0 contra os
pincharratas em Cali – que, por tabela, tirou os argentinos da competição e
botou os gaúchos em sua primeira final.
O bicampeonato nacional, no fim do
ano, fez nascer uma nova esperança. E com Willington Ortiz em grande forma,
anotando 22 gols e se sagrando o goleador da equipe na campanha, o América
superou até mesmo um regulamento bastante confuso, de fazer inveja a muitos
campeonatos estaduais brasileiros, num ano em que as etapas do torneio mudaram
de nome: o Apertura virou Copa de la Paz e o Finalización passou a se chamar
Torneo Nacional.
Para começar, na primeira parte do
campeonato, a Copa de la Paz, as 14 equipes foram divididas em dois grupos de
sete com jogos dentro das chaves em turno e returno, e com os rivais locais
colocados em grupos separados. Porém, a cada rodada, dois desses rivais se
enfrentavam no clássico intergrupal da rodada, fazendo com que os times, ao fim
daquela etapa, disputassem 14 partidas em vez de 12.
Em seguida, os campeões dos grupos A
e B se enfrentavam disputando uma pontuação bônus: o vencedor levava um ponto,
e o perdedor ficava com 0,75. O mesmo acontecia entre os segundos das duas
chaves, só que o ganhador do confronto acrescentava 0,5 e o perdedor, 0,25.
Nesta confusa primeira etapa, o América terminou apenas em terceiro no Grupo B
e não avançou para as disputas de pontos extras.
Já o Torneo Nacional era bem mais
simples, com as 14 equipes se enfrentando no tradicional sistema de pontos
corridos, em turno e returno. Mas ao final dele, também havia a distribuição de
pontos bônus, cabendo aos quatro primeiros colocados, na ordem, as mesmas
frações acrescentadas na Copa de la Paz. Neste Torneo Nacional, o América
terminou em segundo, ganhando 0,75 pontos extras.
No octogonal, embora tivesse feito a
melhor campanha descontando as bonificações, o América levou o título
justamente por essa diferença. Mas não sem dramas: na penúltima rodada, uma
derrota em Medellín para o Atlético Nacional por 1 a 0 fez com que não só os
Verdolagas, como também o Atlético Junior, que haviam carregado um ponto extra
das fases prévias, encostassem na liderança e também chegassem com chance de
levantar a taça.
O título, então, foi decidido
somente na última rodada. O América recebeu o Millonarios no Pascual Guerrero,
abriu o placar com gol do ponta Victor Lugo, mas sofreu o empate em 1 a 1, resultado
que o deixava sem outra opção a não ser torcer por um empate entre os outros
dois postulantes ao título, que se enfrentavam em Barranquilla. Deu certo:
Junior e Nacional também ficaram no 1 a 1, dando de bandeja o bicampeonato aos
Escarlatas.
Roque Alfaro e Daniel Teglia
deixaram o clube e retornaram ao futebol argentino assinando com o River Plate
no início de 1984. Para suprir as lacunas, o clube trouxe uma dupla peruana
ainda mais experiente: o habilidoso meia César Cueto e o corpulento centroavante
Guillermo La Rosa, ambos com participações nas Copas de 1978 e 1982 pela
seleção inca. La Rosa também havia se sagrado artilheiro em uma Libertadores,
marcando oito gols pelo Alianza em 1978.
Além deles, o clube também trouxera
o meia Henry Viáfara, do Deportivo Pereira. Outros nomes que ganhavam mais
espaço no time eram o zagueiro Jorge Porras (trazido do Atlético Nacional no
ano anterior), o versátil volante Juan Penagos e o habilidoso ponteiro esquerdo
Armando “El Pollo” Díaz, outra figura que se destacava na base. No entanto,
aquela foi a temporada menos exitosa na Libertadores, com a eliminação ainda na
primeira fase.
O América teve a companhia do
Atlético Junior e dos brasileiros Flamengo e Santos. E estreou bem, derrotando
os Tiburones por 2 a 0 em Cali. Em seguida, recebeu os brasileiros, empatando
em 1 a 1 com os cariocas e vencendo os paulistas por 1 a 0, gol de Battaglia.
Porém, uma goleada de 4 a 1 para o Junior em Barranquilla começou a complicar a
situação dos Diablos Rojos, que veriam o Fla disparar na liderança ao triturar
o Peixe no Morumbi por 5 a 0.
Chegava então a vez de jogar no
Brasil. E o primeiro resultado foi mais que animador: uma vitória histórica de
1 a 0 sobre o Santos, também no Morumbi – a primeira do futebol colombiano sobre
uma equipe brasileira na casa do adversário. Difícil seria repetir o milagre no
Maracanã contra um Flamengo embalado. E o sonho terminou com uma derrota por 4
a 2. Cueto marcou duas vezes, mas Adílio, Bebeto, Élder e Edmar selaram a
eliminação escarlata.
O jeito foi mais uma vez juntar os
cacos e tentar o tricampeonato nacional, num torneio que manteve integralmente
o confuso regulamento de 1983. Desta vez, o América foi o melhor em todas as
etapas. Na Copa de la Paz, venceu o Grupo B e derrotou o Junior na decisão do
ponto extra. No Torneo Nacional, terminou na liderança, um ponto à frente do
Atlético Nacional. No octogonal, porém, as dificuldades aumentaram.
Na última rodada, os Escarlatas
venceram o Atlético Nacional por 1 a 0 no Pascual Guerrero com gol do zagueiro
Luis Eduardo Reyes, apelidado “El Hombre de Hierro”, escorando cruzamento na
pequena área. Mas não era o suficiente: era preciso que o Millonarios não
vencesse o Junior em Barranquilla. Foi o que aconteceu: os Tiburones bateram os
visitantes e entregaram de bandeja a taça aos Diablos Rojos, que levaram o
tricampeonato graças aos pontos extras.
Aquela campanha
também ficou marcada pela quebra de um recorde histórico que já durava 17 anos:
durante o torneio, o América chegou a ficar 23 jogos seguidos sem perder,
superando os 22 alcançados pelo próprio clube em 1967. A sequência só seria
encerrada com uma derrota para o Once Caldas por 1 a 0 em Manizales. No futebol
colombiano, a marca seria batida pelo Millonarios de 1999, que ficaria 29 jogos
invicto.
O ano de 1985 marca a intensificação
sem precedentes nos investimentos para reforçar o elenco. Se o clube já contava
com a equipe mais forte do país, passaria a ter uma das mais qualificadas do
continente – e também uma das folhas salariais mais altas do futebol
sul-americano. Para se ter uma ideia do poderio financeiro do clube, o América
tirou do rival Deportivo Cali o veterano goleiro Pedro Zape, titular da
seleção, apenas para ficar na reserva de Falcioni.
Mas mais impactantes foram os
reforços para o ataque. Primeiro, o clube aproveitou o fim das atividades da
North American Soccer League (NASL), no fim do ano anterior, para assinar com o
atacante paraguaio Roberto Cabañas, que vinha defendendo com destaque o New
York Cosmos desde 1980. Depois, em meados de 1985, buscou na Argentina o
goleador Ricardo Gareca, que havia recentemente se transferido de maneira
polêmica do Boca Juniors para o River Plate.
Os dois atacantes eram nomes
regulares nas seleções de seus países. Gareca, ainda naquele ano de 1985,
marcaria inclusive o gol agônico diante do Peru que daria à Albiceleste a
classificação para a Copa do Mundo do México, torneio ao qual Cabañas também
havia levado o Paraguai. Agora toda esta tarimba internacional, municiada por
Willington Ortiz, César Cueto, Jorge Battaglia e outros, estava a serviço dos
Escarlatas.
Naqueles tempos, o clube ainda se
dava ao luxo de disputar parte do campeonato nacional com uma equipe reserva
formada por jovens oriundos da base, como Antony de Ávila (que emprestava seu
apelido a “Los Pitufos”, como aquele “expressinho” passou a ser conhecido),
Armando Díaz e Álex Escobar, ou pescados em outros clubes, como o meia Hernán
Darío Herrera, vindo do Atlético Nacional, e o atacante John Castaño, trazido
do Deportivo Pereira.
A maior sequência de títulos
nacionais do futebol colombiano até então era o tetracampeonato levantado pelo
Millonarios entre 1961 e 1964, curiosamente sob o comando de Gabriel Ochoa
Uribe nos três primeiros. Em 1985, enquanto mais uma vez tentaria chegar longe
na Libertadores, o América buscaria também igualar essa marca. E conseguiria,
mesmo desfalcado de Falcioni e Zape por lesão na reta final, com o terceiro
goleiro Reynel Ruiz dando conta do recado.
Na Copa de la Paz, o América
terminou em segundo no Grupo B e derrotou o Deportivo para ficar com os 0,5
pontos de bonificação. Já no Torneo Nacional terminou em primeiro, dois pontos
à frente dos Azucareros. Veio então o octogonal, e o clube voltaria a registrar
um importante resultado sobre o rival na penúltima rodada – 1 a 0, gol de
Gareca – antes de confirmar o título batendo o Junior com gol de cabeça de
Battaglia no dia 22 de dezembro.
Naquele ano, além de igualar o tetra
do Millonarios, o clube também alcançaria enfim a decisão da Libertadores.
Porém, assim como o rival Deportivo em 1978, ficaria sem o título. Esteve, no
entanto, bem mais perto do caneco. Na primeira fase, teve como adversários os
Millos, o Cerro Porteño e o Guaraní do Paraguai. Após empatar seus quatro
primeiros jogos (três deles por 0 a 0), engrenou nos dois últimos, quando
recebeu os paraguaios.
No dia 31 de março, os vallecaucanos
derrotaram o Cerro Porteño por 2 a 0. E três dias depois, foi a vez de bater o
Guaraní por 2 a 1. Em ambos os jogos, os gols foram marcados pelo zagueirão
Luís “El Hombre de Hierro” Reyes e por Willington Ortiz. Os dois triunfos de
última hora serviram para que o América terminasse em primeiro num grupo bem
equilibrado e passasse às semifinais, nas quais enfrentaria o Peñarol e o El
Nacional de Quito.
A etapa seguinte só começaria cinco
meses depois, com o América abrindo o triangular diante do Peñarol em
Montevidéu e arrancando um empate em 1 a 1 no dia 19 de setembro. Três dias
depois, em Quito, a equipe sucumbiu ao El Nacional, perdendo por 2 a 0. Os uruguaios
bateram os equatorianos no terceiro jogo e embolaram o grupo. Mas os Escarlatas
teriam suas duas partidas restantes em casa. Empurrados pela torcida, fariam
jogos memoráveis.
Os carboneros contavam com alguns
nomes da Celeste, como Fernando Alvez, José Herrera, Miguel Bossio e José
Perdomo. E seguraram o empate sem gols no primeiro tempo. Mas quando Gareca
abriu o placar aos 11 minutos da etapa final, não houve mais como conter um
Pascual Guerrero em ebulição: Cabañas anotou o segundo aos 19, Battaglia
ampliou aos 27 e de novo Cabañas fechou a goleada de 4 a 0 a dois minutos do
fim.
Em seguida, o El Nacional bateu o
Peñarol por 2 a 0 e manteve suas chances de ir à final. Precisava, porém,
superar os Diablos Rojos em seu caldeirão. Ficou na tentativa: com três gols de
Gareca, um de Cabañas e outro de Willington Ortiz, o América enfiou implacáveis
5 a 0, segundo confiante para sua primeira final diante do surpreendente
Argentinos Juniors – um clube pequeno, mas ascendente de Buenos Aires, que
estreava na competição naquele ano.
O Bicho, como era conhecido, havia
superado os brasileiros Fluminense e Vasco e derrotado o Ferro Carril Oeste num
jogo extra para avançar na primeira fase. Depois, carimbara a vaga na final
batendo o Independiente, atual campeão do torneio, em Avellaneda. Combinava a
experiência do goleiro Enrique Vidallé e do zagueiro Jorge Olguín a revelações
como o meia Sergio Batista e o atacante Claudio Borghi, dois nomes que logo
estariam na Albiceleste.
O primeiro jogo foi disputado no
Monumental de Núñez e terminou com vitória do Argentinos Juniors por 1 a 0, gol
de cabeça de Emilio Comisso. Mas no Pascual Guerrero, o América devolveu o
placar com um belo gol de Willington Ortiz. Um terceiro jogo foi marcado para
24 de outubro, no Defensores del Chaco. E Comisso colocou de novo o Bicho em
vantagem, mas uma testada forte de Gareca deixou tudo igual para os colombianos
ainda no primeiro tempo.
A decisão foi para os pênaltis, com
as duas equipes convertendo as quatro primeiras cobranças. Na última da série
regular, o batedor escalado pelo América era o goleiro Falcioni, que se negou a
cobrar. A responsabilidade recaiu então sobre os ombros do “Pitufo” De Ávila,
então com 21 anos. E seu chute fraco, no meio do gol, foi defendido sem
problemas por Vidallé. Em seguida, Mario Videla converteu seu chute, e o
Argentinos sagrou-se campeão.
Coincidentemente, a principal
contratação para 1986 seria a de um argentino, o volante Carlos Ischia, que
atuava há alguns anos no país, defendendo o Junior. Por outro lado, os peruanos
Cueto e La Rosa deixaram o clube seguindo para o pequeno Deportivo Pereira.
Enquanto isso, outros nomes surgiam na base e reforçavam “Los Pitufos” no
campeonato nacional, como o defensor Enrique Esterilla e o rápido atacante
Albeiro Usuriaga.
O torneio daquele ano havia sofrido
apenas mudanças de nomenclatura nas fases: a Copa de la Paz passara a se chamar
Torneo José Eduardo Gnecco (nome de um jurista da Suprema Corte assassinado em
novembro de 1985 por guerrilheiros do grupo M-19), enquanto a segunda parte
recebeu o nome de Torneo Edmer Tamayo Marín, em homenagem ao ex-presidente do
Millonarios, vitimado por uma embolia em fevereiro de 1986.
Aliás, a perspectiva de conquistar o
pentacampeonato, inédito no futebol do país, enchia tanto ou até mais os olhos
dos jogadores e do técnico Ochoa Uribe do que a Libertadores. No torneio
continental, o América superou a primeira fase de forma invicta, à frente do
rival Deportivo Cali e dos chilenos Cobresal e Universidad Católica. Uma
vitória por 3 a 1 diante deste último em Santiago, com dois gols de Willington
Ortiz, confirmou a passagem às semifinais.
No triangular, o time fez os dois
primeiros jogos fora de casa e somou só um ponto, ao empatar com Olimpia em
Assunção. Uma derrota para o Bolívar em La Paz chegou a complicar a situação da
equipe. Mas, diante do equilíbrio entre as três equipes, duas vitórias no
Pascual Guerrero nos jogos de volta, com Gareca sendo mais uma vez decisivo,
fizeram a diferença para que os vallecaucanos chegassem a outra decisão, agora
contra o River Plate.
Foi a final menos sofrida das três
para o América, uma vez que o gigante argentino – buscando a todo custo seu
primeiro título na competição – não deu a menor chance. O destaque das finais
foi o atacante Juan Gilberto Funes, que por coincidência atuara no futebol
colombiano até o meio daquele ano. O River chegou a abrir 2 a 0 no primeiro
jogo em Cali, antes de Cabañas diminuir. Na volta, no Monumental de Nuñez, um
gol de Funes confirmou o título portenho.
A nova derrota na decisão do torneio
continental foi plenamente compensada com o sonhado penta. Para isso, porém,
foi necessária uma campanha de recuperação, depois de os Escarlatas terminarem
apenas em quarto no torneio inicial e em segundo no posterior, levando só um
ponto de bonificação para o octogonal decisivo. Mesmo assim, o time embalou na
reta final e levantou a taça com uma rodada de antecipação no clássico local.
O Deportivo Cali era o mandante
daquela partida de 17 de dezembro de 1986, o que significava ter maioria nas
arquibancadas. Os Azucareros também contavam com uma boa equipe, na qual se destacavam
o experiente goleiro paraguaio Roberto “Gato” Fernández, o ascendente meia
Carlos “El Pibe” Valderrama e uma dupla de jovens atacantes que logo chegariam
à seleção colombiana: Bernardo Redín e Sérgio “Checho” Angulo.
Mas o América tinha talento de sobra,
como ficou evidenciado pelo golaço de Roberto Cabañas que abriu a contagem, já
no segundo tempo: o paraguaio recebeu a bola na intermediária, livrou-se de
três defensores de uma só vez, arrancou para a área, evitou uma falta, driblou
“Gato” Fernández e, mesmo desequilibrado e sem ângulo, tocou para as redes. O
Deportivo Cali, porém, empatou pouco depois num chutaço de fora da área do
defensor Gumercindo Riascos.
Os Escarlatas passariam novamente à
frente aos 22 minutos, quando Willington Ortiz acertou a trave em cobrança
colocada de falta frontal e Ricardo Gareca, com muito oportunismo, emendou um
peixinho no rebote para mandar a bola à meta vazia. E confirmariam a vitória –
e a conquista – aos 36, com gol de Carlos Ischia em grande jogada individual,
após interceptar um passe na lateral direita e arrancar por aquele setor até
vencer “Gato” Fernández.
Assim, mesmo com a
derrota para o Atlético Nacional por 3 a 2 na última rodada, num jogo em que
pouparam vários titulares, os Diablos Rojos terminaram 1,75 ponto à frente do
rival local. Nas comemorações, o nome mais festejado era o do técnico Ochoa
Uribe – que no ano anterior acumulara o cargo com o de técnico da seleção
colombiana nas Eliminatórias. Com o penta à frente do América, ele chegava ao
seu 12º título colombiano.
Aquela conquista marcaria ainda a
despedida de alguns nomes do elenco. O volante paraguaio Gerardo González
Aquino e o zagueirão Luis Eduardo Reyes se aposentaram, com este passando a
dirigir as categorias de base do clube. Carlos Ischia retornou ao Atlético
Junior após disputar apenas uma temporada com os Escarlatas. Porém, além de
outros nomes jovens que surgiam na base, o elenco ganhou novas estrelas
internacionais.
Para 1987 chegaram o meia uruguaio
Sergio Santín, que disputara a Copa do Mundo do México pela Celeste e defendera
o Santos no ano anterior, e o ponta-de-lança peruano Julio César Uribe, grande
promessa de seu país no início da década e que chegara a ser eleito o terceiro
melhor jogador sul-americano em 1981 (atrás de Zico e Maradona), mas que
passara sem muito sucesso pelo futebol italiano defendendo o Cagliari e agora
era trazido do Atlético Junior.
A campanha na Libertadores de 1987
foi repleta de momentos épicos, do começo ao fim. Na fase inicial, o clube
enfrentou Deportivo Cali, The Strongest e Oriente Petrolero no Grupo 2, que só
se definiu com as visitas da dupla boliviana à Colômbia, em junho. Os placares
dilatados das vitórias dos Azucareros sobre os visitantes colocaram o América
na obrigação de vencer o aurinegro de La Paz por pelo menos seis gols de
diferença no último jogo.
E a vitória veio exatamente pelo
placar de 6 a 0, com dois de Gareca, dois de Battaglia e outros dois de
Santiago Escobar. O resultado forçava um jogo extra entre os rivais
vallecaucanos pela definição da vaga. A partida aconteceu num Pascual Guerrero
pulsante, mas terminou sem gols após tempo normal e prorrogação. Na decisão por
pênaltis, Falcioni pegou as cobranças de Armando Osma e Alfredo Mendoza,
classificando os Escarlatas.
Na fase semifinal, os adversários
seriam o perigoso Cobreloa (que despachara em seu grupo o São Paulo de Careca e
Müller e o Guarani de Evair e João Paulo, além do Colo-Colo) e o Barcelona de
Guayaquil (que eliminara o Olimpia). Logo de saída, o América conseguiu um ótimo
resultado ao empatar com os chilenos em Calama por 2 a 2. Em seguida, venceu os
equatorianos também fora de casa por 2 a 0, deixando a vaga para ser confirmada
em Cali.
Porém, o Cobreloa deu o troco no
confronto da volta, fazendo os Escarlatas pararem no 1 a 1 em casa, com gols de
Battaglia e Letelier. A classificação direta só viria agora com uma vitória por
pelo menos quatro gols de diferença sobre o Barcelona, que se transformara no
fiel da balança da chave. E, assim como na primeira fase, ela veio justamente
desse jeito: 4 a 0 América (dois de Gareca, um de Battaglia e um de Willington
Ortiz), selando a passagem à final.
O Peñarol, adversário da final,
chegava para tentar sua quinta conquista da Libertadores com uma equipe
totalmente reformulada com relação àquela que disputara as decisões de 1982 e
1983, levando o título na primeira. No time do técnico Óscar Tabárez, o
destaque era a firme defesa liderada pelo lateral José Herrera e pelo zagueiro
Obdulio Trasante e auxiliada pelos volantes José Perdomo e Gustavo Matosas. Na
frente, havia o goleador Diego Aguirre.
Os carboneros vinham de duas
vitórias categóricas sobre o Independiente nas semifinais (3 a 0 em Montevidéu
e 4 a 2 em Avellaneda), resultado que os permitiu até mesmo perder para o River
Plate em Nuñez no último jogo do triangular (1 a 0) sem comprometer a
classificação. Mas no primeiro jogo da decisão, em Cali, quem deu as cartas foi
o América. Um gol de falta de Battaglia e belo chute da intermediária de
Cabañas decretaram a vitória por 2 a 0.
O título continental esteve ainda
mais perto quando Battaglia descolou ótimo lançamento para Cabañas, que
cabeceou tirando do alcance de Eduardo Pereira, abrindo o placar do segundo
jogo, no Estádio Centenário, em Montevidéu, aos 19 minutos de partida. Mas uma
cabeçada de Diego Aguirre após escanteio deixou tudo igual aos 23 minutos da
etapa final. E uma cobrança perfeita de falta de Jorge Villar decretou a virada
dos carboneros a três minutos do fim.
Mesmo assim ainda haveria o terceiro
jogo em Santiago. E em caso de empate no tempo normal, a decisão seguiria para
a prorrogação com o América (que levava a melhor no saldo de gols das duas
partidas anteriores) podendo jogar pela igualdade para levantar a taça. Numa
partida tensa, os Escarlatas tiveram Cabañas expulso junto com o uruguaio José
Herrera e viram Gareca ter de ser substituído ainda no tempo normal, mas
resistiam.
Até que, aos 14 minutos e 58
segundos do segundo tempo da prorrogação, após um insistente bate-e-rebate na
intermediária do América, a bola chegou aos pés de Jorge Villar, que esticou na
frente para Diego Aguirre, que entrava na área em velocidade. O chute saiu
forte e cruzado, sem chances para Falcioni. Por sobre a linha, ao ver a bola
entrar, o lateral Jairo Ampudia colocava as mãos no rosto e chorava
desconsolado e mergulhado em profunda incredulidade.
Como se não bastasse mais uma
decepção na Libertadores, aquele ano marcaria também a perda da hegemonia
nacional: o título colombiano ficaria com o Millonarios, que terminaria o
octogonal não só com a melhor campanha em sentido absoluto, como também com
mais pontuação extra. Mas o América ainda seria capaz de salvar a temporada com
um vice-campeonato (e uma nova vaga no torneio continental) obtido em condições
adversas.
Na última rodada do octogonal o time
visitaria o Atlético Nacional, que precisava apenas de um empate para garantir
o segundo lugar e a classificação para a Libertadores. Após um primeiro tempo
sem gols, os donos da casa tiveram a chance de abrir a contagem quando Hugo Valencia
cometeu pênalti ao salvar um gol certo com a mão, em cima da linha. Juan Jairo
Galeano foi para a cobrança, mas Falcioni saltou no canto certo e defendeu o
chute.
Na metade da etapa final, para
aumentar o drama dos Verdolagas, o América marcou. Battaglia foi acionado após
um escanteio curto e cruzou para a área. Willington Ortiz apareceu para desviar
e silenciar o estádio Atanasio Girardot. Que, no entanto, voltou a se incendiar
no último minuto, quando o árbitro apitou pênalti duvidoso para a equipe da
casa. Era a chance do empate. Mas Falcioni voltou a ser o herói dos Escarlatas,
pegando a cobrança de Humberto Sierra.
O América chegaria longe novamente
na Libertadores de 1988, mas não tanto quanto nos anos anteriores. Cairia nas
semifinais diante do futuro campeão Nacional de Montevidéu – de quem ficara à
frente no Grupo 3 da primeira fase. Enquanto isso, sua hegemonia nacional se
tornava cada vez mais pertencente ao passado: o clube terminaria o octogonal
final apenas em terceiro lugar e estaria fora do torneio continental de 1989.
Assim, assistiria – sem ter como
impedir – à conquista da Libertadores pelo Atlético Nacional, que se tornava o
primeiro clube do país a faturar o caneco. Aquele triunfo também simbolizava a
afirmação de uma nova geração de jogadores, que elevariam o futebol colombiano
de patamar no contexto sul-americano. Algo para o qual a seleção já contribuía
desde 1987, quando Francisco Maturana – homem ligado aos Verdolagas –
assumiu o comando.
Naquele momento, os grandes astros
do América aos poucos já ensaiavam sua saída. Roberto Cabañas trocara o clube
pelo futebol francês no início de 1988. Willington Ortiz penduraria as
chuteiras ao fim da mesma temporada, aos 36 anos. Ricardo Gareca retornaria à
sua Argentina para defender o Vélez Sarsfield em meados de 1989. E este seria
ainda o último ano de Julio César Falcioni, Juan Manuel Battaglia e Sergio
Santín nas fileiras escarlatas.
Com um time bem
modificado, os Diablos Rojos voltariam a ser campeões nacionais em 1990, na 13ª
e última conquista de Gabriel Ochoa Uribe como treinador. Mais adiante,
revelariam novos craques, levantariam outros títulos colombianos e chegariam a
mais uma final da Libertadores, novamente perdida para o River Plate em 1996.
Mas o timaço dos anos 80 segue sendo o ápice dos Escarlatas dentro da história
do futebol local e continental. Texto do Trivela.
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