quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Fila Para Embarque em Ônibus, Vale do Anhangabaú, São Paulo, Brasil - Werner Haberkorn

 


Fila Para Embarque em Ônibus, Vale do Anhangabaú, São Paulo, Brasil - Werner Haberkorn
São Paulo - SP
Fotografia

A organização da fila (melhor que durante a atual pandemia do COVID-19), a elegância das pessoas, mostra como regredimos em educação e cidadania. Uma pena...

SAPS Serviço de Alimentação da Previdência Social / Restaurante Popular do Anhangabaú, São Paulo, Brasil

 



SAPS Serviço de Alimentação da Previdência Social / Restaurante Popular do Anhangabaú, São Paulo, Brasil
São Paulo - SP
Fotografia


Vista interna do Restaurante Popular do SAPS - o Serviço de Alimentação da Previdência Social foi criado para, além de fornecer alimentação barata à população, mudar os hábitos alimentares do trabalhador brasileiro, introduzindo, por exemplo, o consumo de verduras. A "cabine de rádio", à esquerda, transmitia receitas, conselhos culinários e a indigesta propaganda política do ditador.
Outro texto sobre o SAPS:
Esse texto intenciona mostrar ações engendradas através da política estatuída pelo governo Vargas, em 1940, traduzida como Serviço de Alimentação da Previdência Social, (SAPS). Essa autarquia desenvolveu uma política de combate a fome e à desnutrição no Brasil, que se travestiu por um lado, na criação de restaurantes populares, aos quais se agregava um projeto cultural composto de bibliotecas e discotecas populares. Por outro lado, o SAPS introduziu no país os cursos de nutrólogos e visitadoras de alimentação, tendo em vista, a educação nutricional das camadas menos favorecidas. O problema da fome no Brasil tem suas raízes no próprio processo histórico de formação do povo brasileiro. Tal assertiva pode ser confirmada a partir das conclusões obtidas pelos “primeiros estudos sistematizados sobre os hábitos alimentares e as doenças carenciais relacionadas à alimentação da população brasileira”, realizados ainda no século XIX, através de teses defendidas nas faculdades de Medicina da Bahia e do Rio de Janeiro. No período pós 30, sobretudo, no interstício 1937-1945, o problema da fome no Brasil ganha vigor científico, através dos estudos do médico Josué de Castro. O Serviço de Alimentação da Previdência Social, bem como, a instituição do salário mínimo nascem no contexto desses estudos de Josué, portanto, no transcurso do Estado Novo. As reflexões desse texto pretendem rememorar ações do SAPS, que visavam a melhorar os hábitos e as condições alimentares das camadas populares brasileiras, a partir de sua história, mas também, pelas vozes de funcionários e frequentadores da instituição.
O Brasil de Vargas, de Josué de Castro e dos Restaurantes Populares:
“Enquanto dois terços não comem, um terço não dorme, com medo dos que não comem.” Josué de Castro.
Os caminhos da historiografia brasileira em muito percorreram o período do governo Vargas, especialmente, o chamado Estado Novo (1937-45). A motivação para a ênfase no estudo dessa etapa da História do Brasil parece residir na tentativa de compreender, de forma mais apurada, as nuances do autoritarismo, “ignorado pelos autores que, no passado” enalteceram o país como “cordial e pacífico”. Tratar desse período esmiuçado por expoentes da historiografia brasileira torna-se, portanto, tarefa complexa. Por outro lado, o fascínio que tal época exerce sobre pesquisadores transmutou-se em profícuas pesquisas, já realizadas, ou em andamento. Tais investigações revelam-se como fontes preciosas e, de certa maneira, instigam novos estudos sobre temas relativos a esse período tão rico da História do Brasil. Penso, entretanto, que o Serviço de Alimentação da Previdência Social/SAPS, não foi suficientemente explorado pelas pesquisas historiográficas. Para além de seu papel de fornecedor de alimentos para as camadas populares através dos bandejões, o SAPS cumpria, ainda, a tarefa de educador nutricional implantando no país os cursos de Nutrição, das Visitadoras de Alimentação. A autarquia também cuidava da organização de palestras e de publicações variadas, visando a implementar uma política de esclarecimento às camadas mais diversas da população, quanto aos valores nutricionais dos alimentos. Henrique Veltman, um dos entrevistados dessa pesquisa, afirma que o SAPS mudou o cardápio do brasileiro introduzindo o hábito de comer verduras, saladas e soja. Segundo Henrique Veltman, o SAPS desempenhou importante papel como aglutinador de alimentação e cultura na vida de garotos, que como ele, moravam em uma vila operária de São Cristóvão (Beco da Mãe), Rio de Janeiro: “O SAPS da Praça da Bandeira, além de fornecer refeições boas e baratas, por 10 centavos, tinha uma ótima biblioteca e uma razoável discoteca. Era um barato, almoçar no SAPS. Filho de judeus da Bessarabia, a comida que o SAPS nos oferecia era um sonho: feijão, arroz, bifes bem passados e, sobretudo, saladas! A culinária de minha mãe não contemplava folhas verdes, apenas legumes cozidos. Era uma alegria carregar o bandejão. Além disso, havia o alimento para o espírito. Pois é, no nosso SAPS da Praça da Bandeira, Fraim Hechtman e eu (naquela época ele era simplesmente o Felipe), Jacó Gandelman e meu irmão Moysés, moradores do Beco da Mãe, e José Lipes, vizinho da vila, íamos quase que diariamente ouvir música clássica e pegar livros. No início, a gente até selecionava títulos e autores; mais adiante, por preguiça, decidimos explorar os livros por prateleira. E foi assim, numa confusão danada, mas muito proveitosa, que misturamos autores, temas, épocas. Devoramos de Emilio Salgari a Emmanuel Kant, sem traumas”. O fechamento do SAPS no Brasil se fez de forma abruta e deixou lacunas nas políticas públicas destinadas às camadas populares. Durante alguns anos, as políticas de combate a fome se desenharam de forma tímida podendo-se afirmar que só voltaram com força ao cenário nacional, a partir da Campanha de Combate a Fome iniciada pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho.
Um projeto de alimentação e educação nutricional para todo o Brasil:
A trajetória de profissional de Anita Aline Albuquerque Costa, como assistente social iniciou-se quando cursou o pedagógico normal na década de 1940, em Recife. Em seguida, fez “o curso de nutrição, embora, na época, não soubesse muito bem o que era nutrição. Mas me candidatei a uma bolsa, passei por uma seleção e fui encaminhada. Logo depois, a minha vida se iniciou com uma vida de trabalho”. Em sua fala Anita ressalta que, em 1949, como “não tínhamos o curso de nutrição”, teve que cursar “a Escola Agnes Junes Leith, uma escola americana montada pelo Plano Marshall no Ceará”. Também se lembra que havia outra escola nesse gênero “implantada em Minas”. A escola era feminina e visava à formação das visitadoras de alimentação. Depois de cursar essa Escola as moças que quisessem seguir a carreira de Nutricionista, deveriam fazer mais um ano de estudos no “SAPS” que “funcionava na Praça da Bandeira, no Rio de Janeiro”. Anita veio para o Rio de Janeiro e formou-se dietista, pois “na época, não havia nutricionista no Brasil”. Tendo feito o curso, Anita foi nomeada para trabalhar no SAPS. Formadas em Minas, no Ceará ou no Rio de Janeiro a função das dietistas e das visitadoras de alimentação era organizar os cardápios dos restaurantes populares de acordo com as necessidades nutricionais do trabalhador brasileiro. Para além dessas tarefas estava a missão de educar trabalhadores e suas famílias no que tange a formação de bons hábitos alimentares. A trajetória de Anita como visitadora de alimentação e depois dietista, pode ser cotejada com a de Oswladina Nole do Nascimento que também se formou como dietista no SAPS, no início da década de 50 do século XX, guardadas as devidas especificidades.
Em 1949 em Salvador, Bahia, enquanto se preparava para prestar o vestibular de medicina, também procurava algum emprego que pudesse ajudar em sua subsistência e de sua família. Lendo um dos jornais locais tomou conta da noticia da chegada de “um rapaz aqui do Rio, que estava procurando moças para fazer... era uma carreira nova, de nutricionista”. A nota esclarecia “que era um curso muito bom sobre alimentação, que o povo brasileiro estava precisando” de profissionais desse tipo. Oswaldina disse que a mensagem a instigou a participar da seleção composta de entrevista e teste. Após ter passado pela bateria de exames, Oswaldina ficou sabendo que havia apenas uma vaga e ela fora a primeira colocada. Assim, Oswaldina deu início a sua carreira profissional que culminou na formação de médica nutróloga e pediatra. Ela veio de Salvador para o Rio de Janeiro para fazer um curso de nutróloga no Serviço de Alimentação da Previdência Social. Alguns fatos facilitaram a transferência domiciliar de Oswaldina para o Rio de Janeiro, ousada para uma moça da época: o SAPS fornecia uma bolsa de estudos para que custeasse suas despesas; ela possuía uma irmã já fixada na cidade e foi morar com ela. Oswaldina conta que se formou nutricionista “(à época eram chamadas dietistas) com o compromisso de terminar o curso e voltar, porque eles estavam abrindo restaurantes em todo o Brasil. Meu compromisso era voltar para trabalhar no restaurante de Salvador. Aí eu me formei em julho de 1950, em agosto eles já me mandaram passagem para eu ir trabalhar”. Sobre o curso de dietista feito no SAPS/Rio, que ficava na Praça da Bandeira, Bairro da Tijuca, Oswaldina fala com entusiasmo: Era um curso com horário integral, só para moças. Na minha turma havia 10 moças de várias partes do Brasil. Todas com o compromisso de retornar ao seu estado de origem, a não ser que fossem do Rio de Janeiro. O curso era ministrado por professores médicos que tinham noção de nutrição e por nutricionistas que tinham se formado em Buenos Aires. Sim, porque o curso de nutricionista existia em Buenos Aires, mas não havia no Rio de Janeiro.
As nutricionistas que ministravam o curso para nós, aqui, haviam se formado na Argentina. Depois de feito o curso, Oswaldina retornou a Salvador onde comandou o Restaurante Popular do SAPS recém inaugurado na capital baiana. O trabalho era instigante porque, “eu nunca tinha tido um tipo de trabalho desse jeito. Era maravilhoso comandar aquele grupo. Isto é, comandar um restaurante para mais de mil pessoas. Preparar aqueles cardápios e cuidar para que tudo saísse de acordo com as técnicas aprendidas no curso. O nosso trabalho era orientar o pessoal, preparar os cardápios, passar orientações para a cozinha. Os cardápios eram todos de 1400 calorias, porque era cardápio para o trabalhador. O SAPS foi feito mais para o trabalhador, então era um cardápio bem calórico. Nós tínhamos arroz, feijão, sempre um prato de carne, um prato de legumes, um copo de leite, sobremesa frutas ou doce... quase não dava doce, dava mais frutas. O que mais? Arroz, feijão... pão com manteiga”. Importante forma de ação educativa, relacionada aos hábitos alimentares dos frequentadores do SAPS, consistia na divulgação de conselhos alimentares. Isso ocorria, quer através de publicações de livros e revistas editadas pela autarquia, quer pelo trabalho das visitadoras de alimentação, quer pela voz de locutores que falavam nos horários de almoço e jantar, ou ainda, pela ação dos consultórios de alimentação. Sobre as publicações do SAPS destacam-se estudos sobre o teor e o valor nutricional de determinados alimentos. Muitas dessas publicações encontram-se arquivadas na Biblioteca do Senado Federal, em Brasília e representam verdadeiros tratados no campo da nutrição. No dizer de Oswaldina, o trabalho de educação nutricional era realizado tanto pelos locutores, quanto pela ação dos consultórios alimentares. Sua fala ressalta esse trabalho feito pelos “locutores, que através do serviço de rádio, falavam a classe trabalhadora durante o horário das refeições acerca de conselhos alimentares. E, além disso, nós tínhamos também o serviço dietético, para pessoas que tivesse problemas cardíacos ou de diabetes. O SAPS tinha a alimentação normal e tinha a comida especial para pessoas com problemas de saúde. Assim, havia um consultório onde um médico nutrólogo dizia o tipo de dieta, que o paciente tinha que fazer. O médico encaminhava para nós nutricionistas, programarmos a alimentação deles. E as pessoas que se incluíam nesses perfis tinham direito aquela alimentação dietética pelo mesmo preço da refeição servida aos demais”.
Finalizando:
Os narradores se valem da experiência que passa de pessoa a pessoa, segundo Benjamin. “E, entre as narrativas escritas as melhores são as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos”. Em sua acepção existem dois grupos de narradores que se interpenetram. Um deles é representado por quem viaja muito e pode ser identificado como o marinheiro, comerciante. O outro é traduzido pelo homem que ganhou a vida honestamente sem sair do país e pode ser representado pelo camponês sedentário. Procurei encontrar esses dois grupos nas vozes das pessoas que formaram esse intertexto de reminiscências acerca do SAPS. Através desse exercício dialético entre o lembrar e o esquecer, busquei através das “lembranças de outras pessoas” um passado que “é crucial para o nosso sentido de identidade”. As reflexões desse estudo, ainda que provisórias, apontam para algumas direções. A criação do SAPS que foi, sem duvida, fruto da ampliação do escopo intervencionista do Estado que procurava atingir “as causas mais profundas da pobreza” e promover “a satisfação das necessidades básicas do homem: alimentação, habitação e educação”. Também pode ser analisada como uma das ações empreendidas pela campanha civilizatória desencadeada pelo governo Vargas para controlar os sindicatos. Porém, os textos historiográficos não contemplam analises que, observem ou valorizem, o sentido que a classe trabalhadora e as camadas populares deram a existência do SAPS. Segundo Ferreira, “os historiadores etnográficos, há bastante tempo nos ensinam que se a cultura erudita tem o objetivo de subjugar os povos” devemos, ao contrário, “postular que existe um espaço entre a norma e o vivido, entre a injunção e a prática, entre o sentido visado e o produzido, um espaço onde podem insinuar-se reformulações e deturpações”. A existência das políticas públicas representadas pelas ações desenvolvidas no Serviço de Alimentação da Previdência Social foi compreendida como parte de “processos com os quais se constrói um sentido” e se procura romper “com a antiga ideia que dotava os textos de um sentido intrínseco, absoluto, único”. Sob esse prisma, essa reflexão se guiou pelas “práticas que pluralmente, contraditoriamente, dão significado ao mundo”. O SAPS beneficiou as camadas populares com um projeto nacional de educação nutricional e cultura, que foi abortado em 1967. Hoje, esse projeto inexiste, a despeito da reedição dos restaurantes populares. Esse abortamento deixou saudades, como nos conta Eladir, filha de trabalhadores, que aos nove anos de idade ia com os pais no SAPS, da Praça da Bandeira/Rio: “Era um almoço farto, bom. Eu me lembro que o meu pai falava com muito orgulho que o SAPS era uma coisa nossa, dos trabalhadores”.

Vivendas do Alvorada - Artigo

 


Vivendas do Alvorada - Artigo
Artigo

Não é trivial que a Nova República tenha florescido no Brasil junto a um modelo de cidade marcado pela exclusão territorial murada. No país já predominantemente urbano, a reconstrução da democracia a partir dos anos 1980 ocorreu em paralelo ao processo crescente de abandono, por parte das elites, dos espaços públicos e do compartilhamento da vida nas cidades. O imaginário de sucesso e bem-estar das classes média e alta fixou-se de vez em opções privadas: da casa no condomínio às compras nos shopping centers, do isolamento nos automóveis à contratação de serviços essenciais particulares tratou-se de buscar soluções não universalizáveis, que pressupunham a exclusão de amplos setores da população.
Quando as questões que envolvem a vida cotidiana, como segurança, lazer, transporte, educação e saúde, são resolvidas na esfera privada, uma parcela da população reduz, ou deixa inteiramente de lado, sua atuação na esfera pública. Por isso, a disseminação dos enclaves fortificados – condomínios residenciais, shopping centers e outros espaços controlados – tem relação direta com a democracia, se a entendemos como forma de vida. As democracias modernas foram fundadas ao mesmo tempo que um modelo de cidade que permitia, ao menos em tese, o acesso igualitário a seus espaços e o compartilhamento de seus ônus e bônus. Com a exclusão murada e o esvaziamento dos espaços públicos, esses princípios tornam-se inalcançáveis, resultando numa retração da vida democrática, o que nem sempre é examinado em seus impactos sociais e políticos.
É verdade que os muros dos condomínios e shoppings foram antecedidos por outros mecanismos. No artigo A dupla exclusão, apontei como “a segregação social assumiu diferentes formas nas cidades brasileiras ao longo do tempo”. Viver o mais distante possível dos pobres – o suficiente para seguir usufruindo dos serviços que eles prestam – foi uma meta levada a cabo com afinco pelas elites, variando apenas a forma e os instrumentos da segregação ao longo do tempo. Mesmo nas cidades compactas da Primeira República, quando a elite ainda tinha nas mãos o sangue da violenta escravização de três séculos, a convivência com a população majoritária, que vivia de modo bastante precário em áreas urbanas limitadas, era regida por uma série de códigos e preconceitos relacionados desde a cor da pele até as vestimentas, que definiam quem podia e quem não podia frequentar certos espaços.
Das reformas higienistas do início do século XX às obras para a Copa do Mundo em diversas capitais, um século depois, nunca faltaram projetos para empurrar as zonas de pobreza para os confins das cidades – processo que se deu com participação seletiva do Estado, muito atuante na hora de fazer a remoção e bem menos na hora de prover moradia e infraestrutura nas periferias. A consolidação do transporte motorizado sobre pneus, a partir dos anos 1940, foi peça-chave nesse esquema, já que os ônibus urbanos garantiam a possibilidade de os mais pobres viverem nas lonjuras e trabalharem nos centros, enquanto os automóveis ofereciam um modo de deslocamento exclusivo, ao menos no início, para os ricos, que passaram a se mover com velocidade e distinção.
Com o aumento das frotas de veículos, a partir da década de 1960 os centros urbanos entraram em uma espiral de degradação e esvaziamento: acidentes, poluição sonora e do ar foram às alturas; as obras de alargamento de avenidas, a construção de túneis e viadutos eliminaram árvores, deterioraram espaços públicos, acinzentaram e aqueceram as cidades, tornando árdua a vida pedestre. Tudo isso afugentou as pessoas, à medida que as ruas, esvaziadas de gente fora dos fluxos e horários comerciais, tornavam-se menos seguras. Para escapar desses impactos, muitos da elite também se mudaram para longe dos centros e passaram a se deslocar em automóveis, realimentando o problema que buscavam solucionar.
Essa dinâmica já era vivida intensamente em 1972, quando Elis Regina gravou Casa no Campo, composição de Zé Rodrix e Tavito que fez grande sucesso na voz da cantora. A letra evoca um sonho que crescia no país: o de viver próximo à natureza, “onde eu possa ficar no tamanho da paz”. Naquele mesmo ano foi exibida, na Rede Globo, a novela Selva de Pedra, que explorava as dificuldades da vida nas metrópoles e mostrava, já na abertura, um rosto que se petrificava diante de imagens do caos da cidade. O sucesso da canção e da novela diz muito sobre os incômodos e as tendências da sociedade no auge do “milagre econômico”, como argumenta a historiadora Regina Horta em uma análise das relações entre o boom automobilístico ocorrido naquela época em Belo Horizonte, a grande degradação ambiental no Centro da cidade e a fuga que se iniciava para os condomínios.
Com o sonho de viver fora dos centros, ganhava relevância uma expressão usada com frequência no país para criar diferenciação em situações teoricamente igualitárias: “Sabe com quem está falando?” Analisada por Roberto DaMatta em Carnavais, Malandros e Heróis, publicado em 1979, a interpelação faria parte, segundo o antropólogo, de aspectos velados da nossa sociedade – o autoritarismo e a hierarquia, que, ao contrário da informalidade revelada na malandragem, no Carnaval, no samba e no futebol, não integravam a autoimagem propagada do povo brasileiro.
Essa bipolaridade cultural, em que a informalidade e a abertura são excessivamente expostas, ao passo que o autoritarismo e a hierarquia são discretamente escondidos, não significa que alguns aspectos prevaleçam sobre outros na vida cotidiana: todos convivem, mas em regimes narrativos distintos. O rito autoritário provoca um mal-estar nos brasileiros por indicar “uma situação conflitiva” numa sociedade que se imagina “avessa ao conflito”, nas palavras de DaMatta. Essa ojeriza à discórdia é traço de uma cultura social altamente hierarquizada, pois, ainda nos termos do antropólogo, num “mundo que tem de se mover obedecendo às engrenagens de uma hierarquia que deve ser vista como algo natural, os conflitos tendem a ser tomados como irregularidades” e devem, portanto, ser reprimidos.
No período em que DaMatta realizou suas pesquisas, não por acaso o da ditadura civil-militar iniciada em 1964, a frase “Sabe com quem está falando?” estava disseminada no país e era usada de alto a baixo na escala social para criar hierarquia em situações que, na letra da lei, seriam de igualdade cidadã. Em contextos tão diversos como disputas de trânsito, filas de hospitais e bancos, convivência nas calçadas e praças, o espaço público brasileiro, em vez de se constituir como um espaço universal em que o conflito é resolvido graças a regras comuns, foi historicamente permeado pela diferenciação e o uso discricionário do poder.
Impossível não notar como o mecanismo que aí opera, a distinção entre indivíduo e pessoa, sempre esteve por trás da atuação do Estado nas cidades brasileiras. Conforme essa lógica, ainda na análise do antropólogo, enquanto o indivíduo é submetido à aspereza das leis, a pessoa está além delas e merece o tratamento especial dos bem-nascidos. Parodiando um dito popular que tem origem num hino fascista: às pessoas, tudo; aos indivíduos, a lei. No caso das políticas urbanas, tratou-se de voltar a lei contra os indivíduos sempre que isso interessava às pessoas, como no caso das remoções de comunidades pobres de determinadas áreas, e de permitir que os indivíduos se instalassem nas periferias à revelia da lei se isso significasse afastá-los da vista das pessoas.
Recém-chegado ao Brasil em 1980, o antropólogo norte-americano James Holston notou que a palavra “cidadão” era por aqui empregada num sentido muito particular. Em vez de se referir ao membro de uma coletividade de iguais, o termo carregava um sentido pejorativo e servia para designar alguém distante, irrelevante, um “cidadão qualquer” – um zé-ninguém. Holston enxergou aí uma cidadania diferente, em que a lei não é vista como direito e benefício, mas como desvantagem e humilhação. Sobrepondo sua análise à de DaMatta, nota-se que, por aqui, o cidadão equivale ao indivíduo (aquele submetido à desvantagem das leis e sem a carteirinha do clube das pessoas) e que a ideia de cidadania no Brasil não implica igualdade de direitos e deveres – princípio das sociedades democráticas modernas, mesmo se nunca atingido integralmente.
A combinação da forte hierarquização social com a degradação dos centros urbanos, somada ao crescimento da pobreza, da violência e da concentração econômica, produziu o combo segregador que resultou no progressivo enclausuramento das cidades brasileiras a partir dos anos 1980. As elites, que haviam empurrado os pobres para fora das áreas centrais na primeira metade do século, em seguida deixaram para trás os centros degradados, rumo a uma vida “junto à natureza”. As cidades, que haviam passado pelas fases da coexistência conflituosa e da segregação territorial, adicionaram ao acúmulo de desigualdades a camada da exclusão murada.
O enclave fortificado é a concretização física da distinção entre indivíduos e pessoas. Trata-se de demarcar com ferro, tijolos e cercas elétricas os dois regimes de tratamento que, na prática, já existiam no país. Do lado de dentro dos condomínios e shopping centers, as pessoas; lá fora, o mundo dos indivíduos, do cidadão qualquer. A permeabilidade é funcional, já que aos indivíduos é permitido entrar, desde que seja para jardinar, cozinhar, limpar, atender, vigiar, servir.
O esquema, além de excludente, se dá à margem do estado de direito. Embora a legislação que ampara o fechamento de loteamentos só tenha sido estabelecida em 2017 e ainda seja tema de debates no campo do direito urbanístico, a prática tem sido recorrente desde a década de 1970. Dentro dos condomínios funciona um regime legal à parte: a livre circulação prevista na Constituição é sumariamente restrita e controlada por seguranças particulares armados; a forma de atuação das instituições é alterada em situações como a privatização da regulação das normas construtivas; e até o código de trânsito é suspenso, já que crianças e adolescentes dirigem impunemente seus bugues, quadriciclos, carros e motocicletas, colocando a vida de outros em risco. A aplicação irrestrita e universal das leis não condiz com o seleto universo das pessoas.
Criam-se então ilhas de privilégio legal, socialmente consolidadas. Para os problemas “internos” aos condomínios, a legislação e as instituições públicas são dispensadas; já para os “externos”, são acionadas. Como notou a antropóloga Teresa Caldeira em seus estudos sobre os condomínios de São Paulo, “esta noção é tão arraigada que, associada à desconfiança generalizada em relação à polícia, faz com que ninguém pense que ela poderia fazer cumprir a ordem pública dentro do condomínio. A polícia deveria apenas manter os traficantes de drogas, estupradores e assassinos longe dos muros”. Os moradores que transgridem as regras são tratados com medidas especiais, como a disciplina familiar ou o aviso protocolar de abuso por parte dos seguranças. Já os transgressores vindos de fora merecem a dura atuação da polícia, o severo julgamento dos juízes, o malfadado destino do sistema prisional.
De certa maneira, a lógica do condomínio torna desnecessário o rito do “Sabe com quem está falando?”. Lá dentro todos sabem muito bem com quem estão falando. Quem tem poder e quem não tem, quem é patrão e quem é empregado, quem pode e quem não pode usufruir dos espaços: estão todos muito bem demarcados pelos uniformes, pelas entradas social e de serviço, pelos meios de deslocamento, pela cor da pele.
Embora esse tipo de empreendimento não seja uma invenção brasileira, há especificidades relevantes no nosso modelo. Os bairros residenciais horizontais que conformaram os subúrbios das cidades norte-americanas em meados do século XX – com a típica casa unifamiliar de gramado frontal e garagem ao lado – raramente eram murados, ao passo que no Brasil é incomum encontrar algum condomínio sem muros. Em uma proposição inusitada, o psicanalista Christian Dunker apontou a origem dos condomínios fechados brasileiros nos hospitais psiquiátricos que proliferaram no século XIX – em suas palavras, “espaços que são ao mesmo tempo de produção de saúde e de reprodução de um modo de vida perdido”.
A referência aos hospitais psiquiátricos pode soar exagerada, mas fato é que os elementos de “produção de saúde” e “reprodução de um modo de vida perdido” desde muito estão presentes nas publicidades dos empreendimentos. Mensagens como “aqui todo dia é domingo” e “acorde o homem livre que existe em você” fazem parte dos primórdios das propagandas de condomínios em São Paulo. Em Belo Horizonte, empreendimentos eram apresentados nos anos 1970 como lugares “onde você vai respirar a beleza do ar puro” e onde “trânsito, só o dos pássaros” haveria. Em territórios urbanos adoecidos, a alguns poucos era oferecido o retorno à saúde e ao mundo natural que teria existido em outros tempos.
As mensagens segregadoras sempre estiveram presentes nas propagandas, de maneira mais ou menos velada. Ainda são frequentes os anúncios de “segurança total”, de complexos circundados “com muros de alta proteção”, de recepções que “controlam tudo”. A promessa de segurança coincidia, nas grandes cidades, com o aumento da violência e do que se chama de narrativa do crime – a disseminação de conversas sobre assaltos, sequestros e assassinatos, e a consequente amplificação do medo no tecido social. A violência real e sua propagação imaginária ajudaram a impulsionar os negócios de certos incorporadores, cujos empreendimentos foram invariavelmente apresentados como soluções para o problema.
Mas os condomínios não buscam resolver a questão da segurança pública. Se o fizessem, a proliferação da violência teria diminuído nas últimas décadas. Seu objetivo é permitir que alguns vivam em espaços supostamente protegidos, enquanto o problema da violência segue intocado do lado de fora. O mesmo ocorre com a deterioração ambiental das cidades, que continua negligenciada, enquanto alguns poucos “respiram ar puro” em espaços isolados. Condomínios, assim como shopping centers e automóveis, demandam exclusividade para entregar os benefícios que oferecem. Se todos puderem morar em condomínios, estes passarão a ser a cidade, e então os problemas coletivos estarão lá, ainda que segmentados por classe.
Mais do que isso, os enclaves fortificados agravam, do lado de fora, os problemas que buscam resolver para quem está dentro. No início dos anos 1960, a ativista e escritora Jane Jacobs demonstrou como o esvaziamento dos centros gerado pela adoção da vida nos subúrbios e a substituição do comércio de rua pelos shopping centers tornavam as cidades dos Estados Unidos mais violentas. Esse esvaziamento é um dos pontos de partida da insegurança urbana, e o fechamento em enclaves contribui para minar a vida do lado de fora. Já o meio de deslocamento que esse modo de vida demanda, o automóvel, produz congestionamentos, poluição sonora e atmosférica – justamente itens cuja ausência consta na proposta de valor dos condomínios.
Se até os anos 1980 os condomínios eram restritos às grandes cidades e suas elites, nas décadas seguintes surgiram os empreendimentos para as classes média e média baixa, inclusive em cidades médias e pequenas. Ao mesmo tempo, explodiu o número de centros comerciais fechados: no ano de 1980, havia 11 shopping centers no país; em 2020, chegou-se a 577, distribuídos em 222 cidades, segundo dados da Associação Brasileira de Shopping Centers. Uma pesquisa da mesma associação apontou que, em 2015, 70% dos frequentadores dos shoppings eram das classes A e B, segmento que corresponde a uma minoria da população. Essa segregação acintosa teve suas vísceras expostas ao final de 2013, com a repressão aos rolezinhos, reuniões de jovens de periferia nos shoppings que escandalizaram as elites pelo simples fato de eles estarem ali se divertindo e apresentando seus corpos, a maioria negros.
A disseminação dos enclaves fortificados contribuiu para ampliar o déficit de cidadania da sociedade brasileira, prejudicando a concretização de uma democracia efetiva na Nova República. A democracia não é um sistema de representação abstrato, descolado da vida cotidiana. O sistema político moderno é alimentado também pela vida democrática exercida no dia a dia das cidades, nas quais convivência, pluralidade e igualdade em direitos e deveres são princípios constitutivos.
Para uma democracia plena, importam tanto os aspectos formais (relacionados ao pertencimento ao Estado-nação) quanto os substantivos (conjunto de direitos civis, políticos, socioeconômicos e culturais) da cidadania, para utilizar uma distinção colocada por James Holston e Arjun Appadurai na introdução de um livro de referência sobre cidadania e cidades, Cities and Citizenship. O processo de urbanização brasileiro – precarizado para uns e fortificado para outros – produziu uma cidadania parcial de sinais trocados. De um lado, a maioria pobre teve sua cidadania substantiva inúmeras vezes subtraída de direitos tão básicos como moradia digna, mobilidade, segurança e acesso a serviços públicos, restando-lhe apenas a formalidade do direito ao voto como fator de igualdade. De outro, as classes altas, embora tivessem acesso à maior parte dos direitos substantivos, acharam por bem acrescer a eles uma espécie de cidadania VIP, que permite que se submetam a leis especiais em territórios exclusivos, sem por isso deixarem de recorrer às leis universais quando necessário.
Na cidade do Rio de Janeiro, a proliferação dos condomínios se deu sobre a base do urbanismo moderno. A Barra da Tijuca, refúgio da elite carioca para escapar do adensamento de bairros como Copacabana e Ipanema, foi concebida por ninguém menos que Lucio Costa, autor do plano urbano de Brasília. Atendendo a um convite do governo fluminense no final dos anos 1960 – época de acirramento do autoritarismo e da violência da ditadura militar –, o arquiteto desenhou um bairro horizontal, coalhado de áreas verdes e entrecortado por duas vias expressas perpendiculares. Seu plano continha premissas como a de que as casas não deveriam ser cercadas por muros, mas por cercas vivas. Em meio à explosão das populações urbanas, da desigualdade e da violência, apostava-se num bairro elitizado com padrões de convivência de países nórdicos – ou seja, buscava-se o desenho urbano de lugares marcados pelas políticas do Estado de bem-estar social sem que houvesse no Brasil nenhum vestígio dessas mesmas políticas.
Não deu certo, obviamente. Já nos anos 1980, os primeiros loteamentos da Barra da Tijuca começaram a ser murados, e a pressão do mercado imobiliário alterou as normas construtivas, permitindo maior adensamento. Ao contrário de Brasília, as terras sobre as quais foi executado o plano eram privadas. Quando a região começou a ficar atraente, percebeu-se que as diretrizes de Lucio Costa limitavam os ganhos financeiros. Para desgosto do arquiteto, a região se verticalizaria e se fecharia num conglomerado de condomínios, tornando-se aquilo que alguns chamam de “anticidade” carioca – um território elitizado e fortificado, onde a vida pedestre fora dos muros é um martírio e as atividades do dia a dia são resolvidas em espaços controlados, apartados da esfera pública.
Em um desses condomínios, o Vivendas da Barra, morava até 2018 o atual residente do Palácio da Alvorada, bem como parte de seu clã familiar. Jair Bolsonaro não é apenas um morador da Barra da Tijuca que fez da casa no condomínio o Q.G. de sua campanha vitoriosa à Presidência. Ele e seus asseclas foram capazes, como ninguém antes, de levar a lógica dos condomínios para o centro do poder, em Brasília. Assim como os construtores que alteraram o plano de Lucio Costa, os Bolsonaro converteram o Palácio da Alvorada em uma espécie de Vivendas da Barra, a começar pelo cercadinho que, emulando a portaria de um condomínio, tornou-se ponto de contato controlado do presidente com apoiadores. Mais do que isso, o bolsonarismo busca destruir a débil esfera pública brasileira e encher a política de muros, dentro dos quais opera com uma ética particular que oferece direito político VIP a familiares e amigos.
O termo “cidadão de bem”, amplamente disseminado por certa direita que tem no bolsonarismo sua expressão mais radical, atualiza a distinção entre pessoa e indivíduo, tão cara ao país: contra a irrelevância do cidadão qualquer, tem-se os direitos irrestritos de uma classe superior, a dos cidadãos de bem – e de bens. Essa distinção é central na conduta do presidente. Seus opositores são tratados com o pior dos descasos e devem se submeter às desvantagens das leis. Já seus familiares merecem afagos paternais como indicações para embaixadas e proteção contra investigações por má conduta – no linguajar de Bolsonaro, qual pai não quer dar um filé-mignon a seu filho? A confusão entre família e política analisada por Sérgio Buarque de Holanda atualiza-se com viés miliciano, evidenciando que a democracia por aqui segue sendo, mais de oitenta anos depois da publicação de Raízes do Brasil, um lamentável mal-entendido.
Em suas pesquisas de campo, Teresa Caldeira notou que os seguranças dos condomínios – homens de origem popular, boa parte deles negros – tinham dificuldade de se fazer obedecer pelos adolescentes que ali residiam. Estes sabiam que seus pais pagavam os salários daqueles que vinham se contrapor a suas liberdades. Para Bolsonaro, as instituições da República devem funcionar da mesma maneira: punir exemplarmente os “de fora” e tratar “os seus” com um aviso camarada, deixando a correção para o ambiente familiar. Seu comentário quando o deputado Eduardo Bolsonaro ameaçou fechar o STF com um cabo e um soldado – “Já adverti o garoto” – poderia perfeitamente ser a fala de um pai, dirigida ao síndico, sobre o filho que foi pego dirigindo ilegalmente ou fumando maconha atrás do muro do clube.
A revolta de Bolsonaro quando era deputado federal ao ser multado por um fiscal do Ibama por praticar pesca ilegal é exemplar de como ele se enxerga: não como um cidadão qualquer, submetido à humilhação das leis, mas alguém que está acima delas e não deve ter as mesmas restrições que os demais. O fiscal talvez não soubesse com quem estava falando, mas seu afastamento do Ibama depois que o infrator se tornou presidente colocou as coisas no devido lugar. A distinção entre quem deve e quem não precisa respeitar leis está na base da agenda bolsonarista: da cruzada contra os radares – pelo direito à contravenção no trânsito – à concessão de indultos que livrem policiais de condenações por seus atos, trata-se de criar regimes especiais para alguns, de consolidar na esfera pública as ilhas de privilégio legal que são os enclaves fortificados.
Da mesma maneira que os condomínios não resolvem a questão da segurança pública, mas criam bolsões de proteção que acentuam o problema do lado de fora, as propostas do bolsonarismo para combater a violência só agravam a situação calamitosa que vivemos. A ideia de que o armamento particular reduz a violência não tem base empírica, com todas as evidências apontando para o contrário: a maior circulação de armas faz aumentar o número de assassinatos, embora o cidadão detentor de um revólver possa eventualmente se sentir mais seguro em sua residência.
A engenharia financeira do condomínio, que se serve da disseminação do medo e da narrativa do crime para impulsionar as vendas, é a mesma utilizada pelas milícias – locus originário do bolsonarismo – para extorquir moradores em troca de segurança paga e controle paraestatal de territórios. Deveríamos nos perguntar, aliás, por que essas quatro últimas palavras, geralmente aplicadas à atividade miliciana, não são utilizadas para se referir aos loteamentos fechados, já que ambos produzem ilhas regidas por leis especiais e controladas por agentes à margem do Estado.
No Brasil bolsonarista e da pandemia de Covid-19, o “Sabe com quem está falando?” voltou à tona. A submissão às regras de proteção sanitária parece não combinar com o seleto universo das pessoas. Emergem cenas caricatas de um Brasil profundo: do desembargador que, abordado por não estar de máscara, evocou (involuntariamente?) a distinção de direitos da República Velha, chamando de analfabeto o agente público que fazia seu trabalho, à mulher que, ao ver o marido associado a um cidadão qualquer, respondeu em alto e bom som ao fiscal: “Cidadão, não. Engenheiro civil, formado.”
A estridência desses eventos pode nos levar a crer que se trata de uma particularidade do momento autoritário, que fez ressuscitar velhos fantasmas há muito esquecidos. É inegável que o atual presidente e seus seguidores operam como exímios levantadores de tampas de bueiro, mas é também muito evidente que o autoritarismo, o paternalismo, o racismo e a hierarquia nunca saíram de cena por aqui. O que hoje assistimos é a volta dos que não foram. Mesmo nos anos em que o país parecia finalmente avançar, em que produzimos uma Constituição pautada por direitos sociais, demos alguma ordem democrática à disputa política, reduzimos a pobreza extrema e construímos bases mínimas de oportunidades para os excluídos, as marcas autoritárias seguiram incrustadas em nosso corpo social, na forma de muros, portarias, cercas elétricas, concertinas, grades, seguranças particulares, entradas social e de serviço, automóveis cada vez maiores, obras rodoviaristas e tantos outros elementos que dão concretude material a nossa segregação histórica. Não é possível haver democracia enquanto o espaço público for esse lamentável mal-entendido.
Texto de Roberto Andrés.

Terreno Onde Seria Construída a Estação da Luz, 1860, São Paulo, Brasil

 


Terreno Onde Seria Construída a Estação da Luz, 1860, São Paulo, Brasil
São Paulo - SP
Fotografia


Propaganda "Apollo VIP, o Apollo com Griffe Própria", Volkswagen Apollo, Volkswagen, Brasil


 

Propaganda "Apollo VIP, o Apollo com Griffe Própria", Volkswagen Apollo, Volkswagen, Brasil
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O Volkswagen Apollo e seu irmão, o Ford Verona, surgiram durante a existência da Autolatina, um acordo entre a Volkswagen e a Ford.
Com o mercado em crise, a Ford pensava em sair do Brasil naquele final dos anos 1980. Mas o processo de indenização das concessionárias era tão caro, que acabou ficando. A solução foi criar uma joint venture com a Volkswagen no Brasil e na Argentina.
Difícil conciliar as filosofias de trabalho americana e alemã. Integrando as fábricas e operações das duas empresas, a ideia era compartilhar custos e potencializar os pontos fortes de cada uma, em uma experiência tentada também em Portugal com a AutoEuropa. A engenharia da VW não passava todas informações para a da Ford, e vice-versa. Na época, a VW tinha 34% do mercado, e a Ford, 21%.
Durante o período da Autolatina, a VW ofereceu à Ford os motores AP-1600, AP-1800 e AP-2000 além da plataforma do sedã Santana, que originou os modelos Versailles e Royale com características Ford. 
A Ford, em contrapartida, forneceu à VW os motores AE-1000 e 1600 (CHT), além da plataforma do Escort, que originou os modelos Apollo (irmão do Verona, derivado do Orion europeu), Logus e Pointer com identidade Volkswagen, mais o chassi do caminhão Cargo, que viria a ser a base de operações da VW Caminhões.
A associação foi desfeita em janeiro de 1996.

Rua Borges Lagoa em Direção à Rua Domingos de Morais, 1968, Vila Clementino, São Paulo, Brasil

 


Rua Borges Lagoa em Direção à Rua Domingos de Morais, 1968, Vila Clementino, São Paulo, Brasil
São Paulo - SP
Fotografia

A Rua Borges Lagoa em direção à Domingos de Morais. No centro, o viaduto homônimo sobre a Avenida Ruben Berta — ainda não concluída. À esquerda a Igreja de São Francisco de Assis localizada no número 1209. Repare os terrenos que no futuro seriam super valorizados. Embaixo, a Avenida Professor Ascendino Reis.

Galeria Prestes Maia, São Paulo, Brasil













Galeria Prestes Maia, São Paulo, Brasil
São Paulo - SP
Fotografia



Inaugurada em 1940, pelo então prefeito Francisco Prestes Maia – com direito à presença do presidente Getúlio Vargas –, a galeria surgiu com a dupla função de ser um espaço cultural e servir como ligação subterrânea entre a Praça do Patriarca e o Vale do Anhangabaú, com saída abaixo do Viaduto do Chá. Depois da degradação sofrida ao longo da década de 1970, o local passou a abrigar postos administrativos de órgãos públicos.
Em novembro de 2000, como resultado de um convênio com o Museu de Arte de São Paulo (Masp), a galeria passou a ser uma espécie de filial do museu, embora sem um acervo permanente.
O local abriga até hoje as esculturas de bronze Graça I e Graça II, de Victor Brecheret (1894-1955) – com 2,10 metros de altura e expostas, cada uma, sobre um pedestal de granito de 30 centímetros –, e uma réplica, do mesmo metal, da escultura Moisés, do artista renascentista Michelangelo (1475-1564), produzida pelo Liceu de Artes e Ofícios. O local foi também o primeiro a expor um presépio napolitano datado de 1720, doado à cidade pelo industrial Francisco “Ciccillo” Matarazzo, no final dos anos de 1950, e que hoje compõe o acervo do Museu de Arte Sacra de São Paulo.




 

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Volkswagen Santana GLS 2000 1992, Brasil

 



















Volkswagen Santana GLS 2000 1992, Brasil
Fotografia

Estátua Discóbolo / Discobolo, Nápoles, Itália - Giacomo Brogi




Estátua Discóbolo / Discobolo, Nápoles, Itália - Giacomo Brogi
Nápoles - Itália
Edizioni Brogi 5278
Museu Arqueológico Nacional de Nápoles, Itália
Estátua


Nota do blog: Estátua de bronze encontrada em Herculano em 1754.

 

Estátua Fauno Dançarino / Fauno Danzante, Nápoles, Itália







 

Estátua Fauno Dançarino / Fauno Danzante, Nápoles, Itália 
Nápoles - Itália
Museu Arqueológico Nacional de Nápoles, Itália
Estátua

La statuetta fu rinvenuta, tra il 1830 e il 1832, nella Casa del Fauno, la più vasta domus gentilizia messa in luce a Pompei, cui dà anche il nome. La statuetta bronzea, databile intorno alla seconda metà del I a.C. (49 – 1 a.C.), raffigura un personaggio maschile nudo, barbato, con la testa rovesciata all’indietro e lo sguardo rivolto al cielo, con coda e chioma fluente a ciocche abbondanti, in atto di accennare un passo di danza. La presenza di corna di caprone sul capo e la piccola coda identificano la figura in un Fauno, in Pan o in un Satiro.
La raffinatezza dell’esecuzione rimanda ad un centro di produzione ellenistico, verosimilmente alessandrino.
Sul retro della base: PCIXX. Come spesso avviene sugli oggetti metallici, si tratta della registrazione di peso, incisa a freddo con una punta triangolare, probabilmente in occasione di un passaggio di proprietà di un acquisto.