Paz e Concórdia (Pax et Concordia) - Pedro Américo
Museu Histórico e Diplomático do Itamaraty, Rio de Janeiro, Brasil
OST - 300x431 - 1902
Para Baxandall, a intenção existente em uma pintura pode ser
traduzida como um interesse do artista em produzir uma determinada visualidade.
Intenção que se transforma, particularmente em cada caso, numa diretriz
compositiva que ele pode compreender como uma relação crítica com sua própria
produção precedente: uma relação mental entre a obra e seu contexto. Nas
palavras do autor:
A hipótese de fundo é que todo ator histórico e, mais ainda,
todo objeto histórico tem um propósito - ou um intento ou, por assim dizer, uma
“qualidade intencional”. Nessa acepção, a intencionalidade caracteriza tanto o
ator quanto o objeto. A intenção é a peculiaridade que as coisas tem de se
inclinar para o futuro (2006, p. 81).
Como observadores, estamos inexoravelmente separados por um
hiato temporal que vai da execução à conclusão da obra: estamos diante de um
resultado acabado e produto de uma atividade em que pesam enormemente as
variáveis subjetivas do autor, de cujo processo muito raramente possuímos dados
que permitem uma análise factual. Como fato, temos a materialidade da obra, que
em determinado momento o artista concluiu como acabada, decidindo que a imagem
correspondia às necessidades que lhe deram origem. Como “leitores”, esta
posição não poderá ser absolutamente superada. Trata-se então de confrontar
fontes, interpretações, pontos de vista. Operação de “leitura” a que se refere
Baxandall: resta-nos a leitura da imagem e a interpretação do ver que pode
permitir avançar além da obviedade das muitas “intenções” declaradas e dos
objetivos manifestos. Em muitos casos, o que há de mais eloquente pode ser
localizado sob a superfície do discurso evidente.
Pax et Concordia parece ser um exemplo deste fenômeno. Pintada
por Pedro Américo de Figueiredo e Melo (1843-1905) no apagar das
luzes do século XIX, foi sua última obra em escala monumental que tanto o havia
notabilizado. O próprio artista tinha-a em alta conta. Ao menos é isto que
podemos deduzir de sua correspondência: escrevendo ao Barão do Rio Branco em
1902, o artista faz uma espécie de “balanço” de sua produção como artista e
como intelectual:
Como o presidente da Nação, talvez não me conheça, o Barão
poderá dizer que além de ter emancipado a pintura brasileira compondo os
grandes painéis de Campo Grande, Avahí, Proclamação da
Independência e muitíssimos outros (entre os quais a grande alegoria - Pax
et Concordia - que apenas esboçada foi exposta em Paris) sou autor de uns
12 ou 14 trabalhos literários de História, Filosofia Natural, Belas Artes,
Romances, Discursos etc; que no passado regime fui grande Dignatário da Rosa
(sem falar de outras recompensas estrangeiras); e ainda no atual, fui membro da
Constituinte e deputado pela Paraíba. (Carta de Pedro Américo ao Barão do
Rio Branco. Florença, 25/11/1902. Correspondência, Lata 812, Maço 4, Pasta 14,
Arquivo Histórico, Palácio do Itamaraty, Rio de Janeiro).
Desta maneira, Pedro Américo colocou a “grande
alegoria” Pax et Concordia no mesmo patamar de importância que
a Batalha de Campo Grande (1871), a Batalha de Avai (1877)
e a Proclamação da Independência (1888). Obras que o fizeram famoso e
reconhecido internacionalmente. Conforme o salientado por Zaccara, o
registro das importantes batalhas e campanhas militares, aliado ao ufanismo da
vitória brasileira na Guerra do Paraguai e ao agudo senso de oportunidade do
artista haviam pavimentado seu caminho rumo ao reconhecimento.
Mas em 1902, a situação era bastante diferente. Aos 59 anos,
doente, com a visão muito debilitada e arruinado financeiramente devido ao
“encilhamento” de 1890, o artista era uma sombra amargurada numa espécie de
exílio auto imposto em Florença. Eleito deputado pela província da Parahyba do
Norte da Assembleia Nacional constituinte em 1890, sabia que não havia
desempenhado um papel destacado no cenário político da “nova e alta atmosfera”
da República: apesar do esforço de sua oratória, estava mais preocupado com as
artes do que com as “lutas partidárias”. Fazia necessário então, recordar ao
Barão, sua condição de Dignatário da Rosa.
Para um Doutor em ciências físicas pela Universidade de
Bruxelas e artista laureado como ele, soava dissonante ter que se fazer
“lembrar” a um político como o Barão do Rio Branco, também um alto
representante do Império. Logo ele, que havia sobrevivido praticamente incólume
ao naufrágio da monarquia e as implicações daí decorrentes na Academia Imperial
de Belas Artes. Sob a égide da República o artista já havia produzido
a Libertação dos escravos (1889), Tiradentes Esquartejado (1893), Honra
e Pátria (1897) além do próprio Pax et Concordia.
Devido em parte à natureza do tema alegórico e em parte às
figuras, esquema compositivo e cores utilizadas, Pax et
Concordia parece um desdobramento ou uma continuidade figurativa do estudo
para Libertação dos escravos. Desde a década de 1870, a argumentação
abolicionista havia encontrado na representação alegórica um meio privilegiado
de expressão. Como instrumento a representar uma ideia através de uma
ilação moral, a alegoria constituía-se num ferramental importante aos
propósitos abolicionistas: convidando o espectador a uma reflexão sobre a
ética, apelava à moral, à virtude e principalmente ao patriotismo. Almejando
também exercer um poder educativo junto ao público, no seu sentido romântico
conforme o formulado por Goethe (1749-1832) e com larga inserção na
produção de artistas que eram referência para a produção erudita do final do
século XIX como, por exemplo, Jean-Auguste Dominique Ingres
(1780-1867), Jacques-Louis David (1748-1825), Jean-Hippolyte Flandrin
(1809-1864) e Émile Jean-Horace Vernet (1789-1863).
De acordo com Heloisa P. Lima, em 1886 Pedro Américo aceitou
a encomenda governamental de uma obra com a temática abolicionista, mas somente
concluiria o estudo em 1889. Neste estudo, podemos identificar vários dos
elementos presentes no Pax et Concordia. Fortemente teatralizada, a
Escravidão está representada no Libertação dos Escravos pela figura
do demônio morto atrás dos escravos libertos, ajoelhados diante da Liberdade
que lhes rompem os grilhões: a escravidão não está nem vencida, nem subjugada,
mas morta. Atrás dela, numa composição piramidal à esquerda do quadro,
destaca-se a figura da Vitória alada, sustentada por figuras que representam a
Música e o Amor. Ao fundo, a presença discreta da cristandade representada por
uma cruz fulgurante sustentada por anjos. Como elemento delimitador, um muro
curvo final que funciona como um limite visual para a composição da cena.
Somado aos degraus em primeiro plano, o elemento da arquitetura formado pelo
muro de fundo contribui para a caracterização cenográfica ao entender o
espectador como inserido diante de um teatro de arena.
Este entendimento da arquitetura enquanto elemento gerador da
cena, parece ser o elemento que distingue Libertação dos
Escravos de Pax et Concordia. Apesar de que não encontramos
prova desta preocupação nos escritos do artista, a conclusão não pode ser outra
ao compararmos as duas imagens. Essa prova escrita também é irrelevante. Como
não estamos interessados em encontrar provas escritas sobre o que se passou na
cabeça do artista, mas sim elaborar uma análise sobre seus fins e os meios
utilizados para isto, ela não é necessária. A este olhar, basta a evidência do
processo criativo do artista que se alimentava autofagicamente com suas
próprias obras. Luciano Migliaccio já havia observado com clareza este
fenômeno, como por exemplo, o fato de Pedro Américo citar a si mesmo com a
inclusão de Independência ou Morte em Pax et Concordia. Para
ele:
Com Independência ou Morte, apresentado em Florença em
1887, na presença do imperador e da mais alta aristocracia europeia, Américo
candidatava-se a vate do império; nem por isso a Academia abriu-lhe as portas.
O nascimento da República ofereceu-lhe a moldura ideal para uma nova tentativa,
com Paz e Concórdia, por exemplo, hoje no Palácio do Itamaraty, no Rio de
Janeiro. Com o pano de fundo desse mesmo quadro, Pedro Américo pintou um grande
edifício monumental, um templo-museu em cujo interior pode-se ver representado
seu Independência ou Morte, a grande pintura histórica que representa o
monumento fundador da independência brasileira. Para Pedro Américo, ser o pintor-sacerdote
da nação era uma vocação. Tratava-se de um pintor digno de monumento nacional,
de um Altar da Pátria todo mármore e lobas capitolinas (MIGLIACCIO, 2000,
p. 113).
Como podemos observar, são bastante numerosas as semelhanças
entre Libertação dos Escravos e Pax et Concordia: as
figuras femininas, anjos e panejamentos - claramente referentes a obras
anteriores como A Noite e os Gênios do Estudo e do Amor, de 1883, são
praticamente os mesmos, com poucas mudanças de cores ou detalhes; a composição
grupal disposta em blocos piramidais também é reutilizada; a disposição
cenográfica das figuras - ainda que colocadas sob um novo sentido - e o
entendimento do espaço arquitetônico como um elemento delimitador do
acontecimento narrativo, são fatos que inegavelmente interligam estas duas
obras.
Apesar das semelhanças e da (re)utilização de elementos de
outras obras do artista, a composição alegórica de Pax et Concordia difere
bastante da Libertação dos Escravos, e pode ser entendida, pelo
menos, de duas maneiras bastante diferentes. Uma primeira abordagem poderia ser
vista como literal, ou como expressão do conteúdo alegórico do encontro da Paz
à direita do quadro, com a Concórdia, que a saúda com uma coroa de louros: como
representação da República, a Paz encontra seu reconhecimento e legitimação com
a Concórdia. Do lado da paz, estão os símbolos da cristandade, anjos
translúcidos, uma cruz fulgurante e a maternidade. Aos seus pés, o demônio da
guerra, morto com a espada na mão e flechado pelas costas: se
em Libertação dos Escravos, o demônio morto representava a escravidão
vencida, agora representa o fim das guerras. Da mesma maneira que havia feito
em Libertação dos Escravos, o demônio - agora representando a guerra
e as desgraças dela decorrentes - encontra-se morto. Representar a guerra
rendida ou subjugada, abriria possibilidades de que ela rompesse as amarras e
voltasse a incomodar. Com a “morte” da guerra, a mensagem de perenidade da
República ganha um reforço quando colocada em primeiro plano.
Do lado da Concórdia estão representadas as artes, o amor e a
vitória alada que legitima o evento. Seguem-na uma multidão de estrangeiros
laureados de flores. Neste entendimento, a imagem pode ser entendida como uma
alegoria pragmática, conforme definida por Peter Burke, sendo um meio para
um fim e não um fim em si. Pedro Américo estaria atendendo os objetivos da
encomenda: a figura da Paz representaria a figura da República e seu
estabelecimento significando uma era de ouro para o Brasil.
Enquanto o artista estava envolvido com o quadro, o cenário à
sua volta era bastante tumultuado. O governo de Prudente de Morais (1841-1902)
não podia ser descrito como pacífico: além da feroz oposição dos partidários de
Floriano Peixoto e da reorganização do Partido Monarquista, o governo lutava
contra as pressões inflacionárias e as sucessivas quedas no preço do café no
mercado internacional. Somando-se a isto, o governo teve que enfrentar grandes
problemas como a Revolução Federalista no Rio Grande do Sul, as difíceis
questões diplomáticas - como o da Ilha da Trinidade com a Inglaterra - e
principalmente a Guerra de Canudos. Questões que fragilizaram enormemente a
tênue ordem republicana.
Num cenário como este, uma imagem da paz triunfante sobre todas
as adversidades tornou-se uma necessidade: se o equilíbrio político e a paz
social ainda não haviam sido estabelecidas, a arte seria um importante veículo
de propaganda ao seu estabelecimento. Mediante a alegoria, a República
procurava uma legitimação, ainda que imagética rumo a uma estabilidade. E as
fontes desta estabilidade encontravam-se no passado imperial, encontrando
neste, um lastro de unidade enquanto nação.
Este fato não escapou ao artista e o manto que a Paz que
representa a República é, sem dúvida, o mesmo manto de veludo verde orlado de
galão de ouro semeado de estrelas usado por Pedro II. Ainda que sem a pelerina
de plumas de tucano, a referência ao manto imperial concebido por Debret (1768-1848) em
1822 é evidente. A Paz republicana também desce uma escadaria flanqueada por
dois dragões alados, mais uma semelhança com o cenário construído para a
Coroação de Pedro II em 20 de julho de 1841: o quadro seria a expressão da
consciência história da jovem república, ainda presa aos marcos tradicionais e
à imagem de unidade e estabilidade do período imperial. Uma expressão do
esforço do regime à construção de uma tradição republicana através da união
entre o presente e passado, conforme observa Serpa. Para ele:
A criação de uma tradição histórica repousa, sobretudo, na
necessidade de que a ordem social instituída alcance um tipo distinto de
legitimidade fundado em um movimento de alargamento do tempo histórico. Além do
tempo imediato é preciso detectar um tempo de maior duração, capaz de produzir
um elo entre o presente e o passado (2007, p. 131).
A citação de Proclamação da Independência (1888) que
o artista faz ao inserir o quadro no edifício, mais que uma licença poética -
como a inclusão do retrato do Barão do Rio Branco no séquito da Paz - parece
ser uma afirmação dos valores do passado: a paz (republicana) seria um produto
da Independência. Neste sentido, o quadro de Pedro Américo antecipa o uso dos
elementos monárquicos como elementos para a construção de uma imagem de nação,
como as comemorações do centenário da Independência em 1922 e do nascimento de
Pedro II em 1925. Construção de uma imagem de nação através da fórmula do
passado como fonte de tradição e matriz do presente:
A reabilitação do passado permite o estabelecimento de um laço
de continuidade entre o Império e a República, cujo sentido ultrapassa o mero
saudosismo ao tornar-se fonte legitimadora da própria identidade nacional e,
consequentemente, assegurar ao país a estabilidade e a solidariedade necessárias
ao enfrentamento dos problemas do presente (SERPA, 2007, p. 135).
Todas estas questões colocadas pelo artista são o que Baxandall
conceitua como troc, referindo-se às escolhas que o artista usa num
determinado contexto criativo, no sentido em que na obra de arte,
o como é mais claramente contaminado pelo porquê. Para ele:
Troc indica apenas uma forma de relação em que duas
classes de pessoas pertencentes a uma mesma cultura são livres para fazer
escolhas num processo de permuta, sendo que toda escolha influi no universo da
permuta e, por conseguinte, em todos os participantes (op. cit., p.
89).
Mas há um problema. Se aplicadas à imagem, estas análises,
apesar de corretas e precisas, ficam inscritas apenas no primeiro plano da
alegoria do quadro. Esbarram na superfície da literalidade da encomenda e aos
objetivos da propaganda que Pedro Américo tanto se esforçou para atingir. Mas a
composição do quadro parece dizer mais.
Na composição do quadro, a figura da Paz indica o ponto de um
grande cortejo festivo que descreve uma grande curva, saindo do “templo-museu”
descrito por Migliaccio, à direita do quadro. Parece ser este o ponto central
da composição de Pedro Américo: o estabelecimento da paz realizar-se-ia
mediante a arquitetura, vista como expressão da arte e da cultura de seu tempo.
Desta maneira, se as figuras alegóricas aproximam Pax et
Concordia de Libertação dos Escravos, o papel compositivo da
arquitetura utilizada como fundo, claramente os diferenciam. Se em Libertação
dos Escravos a arquitetura é um mero elemento decorativo que estabelece um
limite pictórico, em Pax et Concordia a representação de uma
arquitetura de destinação pública marca o estabelecimento de um lugar de
cultura e tradição, ou uma civilização moderna no Brasil, ao mesmo tempo em que
fortalecia e estabilizava o regime que a promovia. Uma representação que por
sua vez também é dúplice: se vista como um museu-galeria, e portanto, como
lugar depositário da cultura, a arquitetura é um monumento colocado a
representar a nova ordem republicana, conforme o colocado por Del Brenna (1987,
p. 57); se vista como um templo cerimonial, lugar cerimonial e, portanto, local
do sagrado, a arquitetura estabelece um genius loci no espaço da
pintura. A representação da arquitetura torna-se, de qualquer maneira, o
elemento responsável pela identidade visual da alegoria, uma vez que é ela que
determina o “mundo” do acontecimento alegórico. Sem ela, o sentido da alegoria
seria certamente bastante alterado. Em Pax et Concordia, a arquitetura
não estabelece um fundo cenográfico, mas sim uma fronteira. Ao constituir numa
abertura por onde passa a procissão cerimonial da Paz, o espaço arquitetônico
é, a um só tempo, instrumento de representação e representação de um
instrumento.
À este juízo, a imagem toma outra dimensão e pode ser entendida
como uma alegoria dentro da alegoria: um segundo tipo de alegoria, entendido
por Burke como metafísico, ao assumir uma conexão velada entre conceitos
bastante distintos como arquitetura e paz, ou arquitetura e república. O espaço
arquitetônico aparece como definidor do caráter pictórico e lugar da alegoria:
se por um lado o espaço indica a configuração tridimensional do lugar da
representação da obra, por outro lado, o caráter denota a atmosfera geral do
espaço público onde o sentido da obra pode encontrar sua expressão.
Com Pax et Concordia Pedro Américo parece atingir um ponto novo em sua carreira. O artista parece escapar às amarras da encomenda e, muito discretamente, encontrar caminhos à sua expressão individual. Uma afirmação objetiva de suas convicções artísticas e de seu entendimento do papel da obra de arte.
Com Pax et Concordia Pedro Américo parece atingir um ponto novo em sua carreira. O artista parece escapar às amarras da encomenda e, muito discretamente, encontrar caminhos à sua expressão individual. Uma afirmação objetiva de suas convicções artísticas e de seu entendimento do papel da obra de arte.

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