terça-feira, 24 de outubro de 2023

Vista Aérea, Companhia Eletro Metalúrgica Brasileira, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil



 



Vista Aérea, Companhia Eletro Metalúrgica Brasileira, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil
Ribeirão Preto - SP
Fotografia




Texto 1:
Em 1922, Ribeirão Preto já somava mais de 70 mil habitantes e era então a terceira cidade mais populosa do estado e a maior do interior paulista. Ao mesmo tempo em que despontava como importante centro logístico, comercial e de prestação serviços, o município dava naquele ano o passo mais arrojado de sua trajetória industrial.
Em 27 de agosto, investidores ligados ao setor cafeeiro, liderados pelo engenheiro Flávio Uchoa, inauguravam a Companhia Eletro-Metalúrgica Brasileira, com a presença ilustre do presidente da república à época, Epitácio Pessoa.
O grandioso projeto siderúrgico traria minério de ferro de São Sebastião do Paraíso (MG) por meio de um ramal ferroviário próprio para produzir ferro gusa no bairro Tanquinho.
Integrado à Empresa Força e Luz de Ribeirão Preto, o empreendimento operou por cerca de sete anos, até ser desativado como reflexo da crise de 1929.
Durante o período de atividade, os fornos importados da Suécia bateram recorde de produção nacional, tendo fornecido, por exemplo, todo o material utilizado na construção do Edifício Martinelli, na capital paulista.
Texto 2:
A Companhia Eletro Metalúrgica Brasileira foi instalada em 1922 no antigo bairro Tanquinho em Ribeirão Preto. Idealizada por Flavio de Mendonça Uchoa, o seu primeiro presidente foi o Dr. João Alves de Meira Júnior; para a formação do capital da empresa houve significativa participação de ricos fazendeiros produtores de café, evidenciando a estreita relação entre o capital gerado pelo "ouro verde" e o processo de industrialização no Estado de São Paulo.
Existem poucos trabalhos sobre o contexto e os significados da instalação desta metalúrgica no interior do Estado, bem como estudos detalhados sobre a influencia do capital gerado pelo café para o processo de industrialização do município de Ribeirão Preto. O que apresentamos a seguir trata-se de um levantamento preliminar sobre alguns dados referentes a Cia. Metalúrgica.
Conforme as escrituras de organização da empresa, datadas de 9 e 15 de abril de 1920 (Empresa de Força e Luz de Ribeirão Preto, vol II, São Paulo: Casa Ghaphica, 1921, p. 93-127), a Cia. Electro-Metalúrgica Brasileira Sociedade Anônima foi constituída por 90 acionistas tendo por fim a exploração da indústria de ferro em todas as suas modalidades: fabricar ferro gusa do minério das jazidas situadas no município de Jacuhy-MG, pelo processo de altos fornos elétricos e transformar essa gusa em aço; instalar serviço de laminação para transformar o aço fabricado em bitolas comerciais; instalar fornos para transformação da madeira em carvão; montar e explorar fábrica de cimento para aproveitamento das escórias dos altos fornos; adquirir ou construir estrada de ferro para transporte de matéria prima; adquirir terras marginais da estrada de ferro para plantação de eucaliptos, etc. A sociedade foi formada com um capital de seis mil contos de réis (6.000:000$000), dividido em ações de duzentos mil réis (200$000), para a duração de 50 anos. Para a formação do capital da empresa os maiores acionistas eram: 12 mil ações da Empresa Força e Luz de Ribeirão Preto; 12 mil e 500 ações da Cia. Intermediária Paulista; 1 mil ações de Flávio de Mendonça Uchoa; 905 de Osório da Cunha Junqueira; 750 de Sylvio Alvares Penteado; Caio da Silva Prado, Martinho da Silva Prado, Manuel Maximiano Junqueira, Joaquim da Cunha Diniz Junqiueira, Theodomiro de Mendonça Uchoa, Francisca Silveira do Val, entre outros, possuíam 500 ações cada; o restante dos acionistas possuíam cotas de 300 ou menos que 300 ações.
Ainda segundo artigo de Assis Chateuubriand, publicado no Jornal do Comércio, no Rio de Janeiro, n. 96, de 15 de abril de 1922, o edifício construído pela empresa The Corning Incorporated Company Lmid. New York, media 250 metros de extensão. O empreendimento iniciou-se em 1920 com a Usina Epitácio Pessoa; a Cia. Electro Metalúrgica Brasileira foi uma das primeiras da América do Sul. A empresa adquiriu jazidas ferro próximo a cidade de São Sebastião do Paraíso em Minas Gerais e, para transportar a matéria prima até Ribeirão Preto fez a incorporação da Estrada de Ferro São Paulo-Minas.
A produção de ferro de boa qualidade propiciou que a Cia. Metalúrgica tenha sido a fornecedora de toda a ferragem usada na construção do Edifício Martinelli na cidade de São Paulo, em 1924.
Em 1926 Flávio Uchoa vendeu a Empresa de Força e Luz para o grupo americano-canadense Eletric Bond Share, aplicando todo o dinheiro da venda na Cia. Metalúrgica.
Em 1929 com o "crack" da bolsa de valores de Nova Iorque iniciou-se um período de crise para a economia nacional baseada na produção de café. Durante o ano de 1930 as vendas da Cia. Metalúrgica começaram a cair até que no final de 1931 pediu concordata e em seguida a falência. Sobre as causas da falência, alguns autores apontam além da quebra da bolsa, que o Morro do Ferro não possuía o manancial de matéria prima esperado, obrigando a Cia. Metalúrgica a comprar ferro para alimentar os seus altos fornos e que isso teria encarecido muito a sua manutenção; apontam ainda que as duplicatas emitidas em 1929 não foram pagas e que o Banco do Brasil e o Governo Federal não prestaram socorro financeiro a Cia. Metalúrgica.
Com a tramitação do processo de falência os bens da empresa foram sendo vendidos e arrematados. Em 1935 a empresa Moinho Santista com o Engº. Eugenio Belloti adquiriu o acervo da Cia. Metalúrgica que foi posteriormente vendido para a SANBRA para industrialização de algodão e, depois para a Industria Penha.
Outros dados sobre a Metalúrgica são citados no livro História de Ribeirão Preto, vol II, de Rubem Cione:
Em 1919 foi construída uma Usina Hidroelétrica na confluência dos córregos Ribeirão Preto e Retiro pela Cia. Força e Luz, Água e Esgotos de Ribeirão Preto, de propriedade do Eng. Flávio de Mendonça Uchoa. Em seguida idealizou a criação de uma Metalúrgica, teve apoio para este projeto da Família Prado, principalmente seu cunhado Antônio Prado Júnior e de Dr. João Alves Meira Júnior.
Flávio Uchoa comprou uma área de 600.000 metros quadrados no bairro Tanquinho e iniciou a construção de 2 altos fornos elétricos (um alto forno Bressemer), almoxarifado, um complexo de transformadores de 90 mil volts e escritórios (toda a siderúrgica era movida à eletricidade). As obras foram realizadas por engenheiros especialistas oriundos da Suécia e ao lado dos brasileiros: Engº. Joaquim Desidério de Mattos, Almiro Pedreira, Martinico Prado Uchoa. Os engenheiros da Empresa de Força e Luz Azevedo Queriga e J.H. Hodge também auxiliaram nas obras.
A matéria prima vinha do Morro do Ferro no município de São Sebastião do Paraíso-MG. Para o transporte do minério até a Metalurgica, Flávio Uchoa adquiriu a Estrada de Ferro São Paulo-Minas, que ligava Bento Quirino a São Sebastião; construiu então o ramal Ribeirão Preto-Serrinha, fazendo chegar os trilhos até os fornos da usina.
A Metalúrgica foi inaugurada oficialmente em 27 de agosto de 1922. A solenidade contou com a presença do Presidente da República Epitácio Pessoa (ficou hospedado no Palacete do Cel. Joaquim Firmino - sogro de Veiga Miranda, da rua Tibiriçá esquina com Florêncio de Abreu); Ministro da Indústria e Comércio José Pires do Rio; Presidente do Estado de São Paulo Washington Luiz, Ministro da Marinha e ex-prefeito Veiga Miranda e, do Prefeito Municipal João Rodrigues Guião.
Texto 3:
Esta crônica focaliza momentos iniciais da industrialização da região de Ribeirão Preto, São Paulo, com implicações no sudoeste mineiro e particularmente no município de São Sebastião do Paraíso. O importante polo cafeeiro, fortalecido pelas relações entre mineiros e paulistas, estava dando os primeiros passos rumo à diversificação das fontes de riqueza econômica. A expressiva produção de café, abençoada pela ótica da velha política dos coronéis, financiou parte das primeiras indústrias do interior paulista. Este é o caso da Companhia Eletro Metalúrgica Brasileira, inaugurada em 1922, em Ribeirão Preto, cujos principais acionistas eram grandes cafeicultores.
Organizada na forma de sociedade anônima, por uma centena de acionistas, o projeto consistia em implantar uma grande indústria siderúrgica, prevendo o funcionamento integrado de três etapas especializadas, incluindo a fabricação de ferro gusa, a sua transformação em aço e a produção de lâminas para fornecer a outras indústrias. Entre os principais acionistas estavam a Empresa Força e Luz de Ribeirão Preto, outras empesas paulistas e mais abastados fazendeiros cafeicultores, que após a conquista honrada da riqueza com o famoso “ouro verde”, pretendiam ascender vôo mais alto no campo industrial. Foi uma época de grande entusiasmo gestada ainda no início da última década da República Velha. Sinal desse momento ficou registrado, para sua inserção na história, em um artigo escrito por Assis Chateaubriand, publicado no Jornal do Comércio, no Rio de Janeiro, em de 15 de abril de 1922.
Para abastecer os fornos de transformação do ferro gusa em aço, estava previsto que a matéria-prima viria de jazidas dos municípios de Jacuí, Passos e São Sebastião do Paraíso. Houve então valorização especulativa no preço de propriedades agrícolas, existentes no entorno do Morro do Ferro e atual município de Itaú de Minas. Antigos proprietários foram enganados com falsas promessas de atravessadores. A memória coletiva regional confirma esse momento de euforia, em que as terras no entorno do Morro do Ferro foram valorizadas, no mesmo ritmo em que apareceram especuladores e propositores de negócios nada republicanos. Os novos industriais, com raízes profundas na cultura agrícola, compraram várias glebas ao longo da estrada de ferro da Mogiana, destinadas ao plantio de eucaliptos, cuja produção seria usada na fabricação de carvão e escórias de madeira para abastecer os altos fornos da grande indústria.
Para construir o prédio industrial, com 250 metros de comprimento, em Ribeirão Preto, foi contratada uma empresa internacional. Todas as estimativas foram sonhadas com excessiva euforia e certo desprezo ou mesmo desconhecimento da importância das bases mais objetivas das áreas científicas e tecnológicas. Não foram realizados estudos mais aprofundados para estimar, com maior rigor e precisão, o efetivo potencial das jazidas supostamente existentes nas cercanias do importante polo cafeeiro. Na fase inicial de produção, tudo aconteceu como os diretores tinham planejado.
Mas, em 1929, com a grande crise financeira mundial, os problemas começaram a surgir. Máquinas e equipamentos importados tiveram o custo elevado. A produção das jazidas não estava alcançando o volume esperado. Transportar a matéria-prima de Goiás ou de outras regiões do País, era inviável em termos econômicos. Vieram os momentos mais difíceis e inesperados. Em 1930, com o início da longa Era Vargas, a política dos coronéis sofreu o primeiro grande golpe. As vendas da empresa entraram em retração. Veio o pedido de concordata e, depois, a falência. Ficou a história.

Vista Aérea da Neve, 17/07/1975, Rua Professor Fernando Moreira, Curitiba, Paraná, Brasil


 

Vista Aérea da Neve, 17/07/1975, Rua Professor Fernando Moreira, Curitiba, Paraná, Brasil
Curitiba - PR
Fotografia

Nota do blog: À esquerda, edifício Itália. 

Piscina, Cassino Ahú, Curitiba, Paraná, Brasil


 

Piscina, Cassino Ahú, Curitiba, Paraná, Brasil
Curitiba - PR
AH N. 851
Fotografia - Cartão Postal


Freiras não frequentam cassinos, é verdade. E foi exatamente este o espanto que tiveram as religiosas da Divina Providência ao receber o convite do padre Valério Alberton para conhecer o Cassino Ahú, em 1957. O propósito do sacerdote, porém, estava longe de vê-las apostando algum dinheiro. O objetivo era saber da possibilidade de comprar o local para transformá-lo em convento. Uma ideia aparentemente mirabolante deu certo e sobrevive até hoje. O salão de jogos, onde funcionavam as roletas, foi dividido e transformado em capela, salas de visita e oração. O cassino literalmente se converteu em local de sossego e reza. O palco, entretanto, que recebeu diversas personalidades nacionais e internacionais, ainda está lá, intacto, junto ao salão principal. O silêncio que ecoa das paredes maciças parece esconder ainda os segredos do auge da antiga sociedade curitibana.
Mulheres desacompanhadas e estudantes tinham o acesso restrito ao cassino, que funcionou de 1939 a 1946. Elas não podiam entrar solteiras porque o local era familiar e devia-se, por isso, evitar a todo custo a prostituição. Eles eram barrados porque não davam lucro algum à jogatina. Como lembra o professor Alceu Schwab, no livro A música no Cassino Ahú, estudante que se prezava, na época, vivia de bolso vazio. Já as crianças só poderiam entrar durante os matinês de domingo, acompanhadas dos pais.
Enquanto cerca de 18 pessoas se sentavam à mesa para fazer as apostas no salão de jogos, diversos outros curiosos (e, por que não, torcedores) se amontoavam no ambiente para ver o espetáculo do jogo de azar: era uma diversão para a sociedade daquela época. Schwab lembra que a atração pelo jogo era tão grande que "os maiores jogadores eram vigiados por olheiros dos banqueiros de Curitiba": o objetivo era evitar o mau uso do dinheiro aplicado pela população nos estabelecimentos de crédito. O custo das fichas variava entre 5 mil e 500 mil réis, já os jogos mais populares e a própria roleta tinham o preço inicial de 1 mil réis.
No lado oposto da sala de azar, ficava o salão grill-room, uma espécie de local para jantar, dançar, ouvir músicas e ver apresentações. "Entre os dois salões estava o ambiente destinado aos fumantes", lembra Nelly Hellender Macedo, ela era casada com o filho de um dos antigos proprietários do local. Nelly era criança quando o cassino começou a funcionar, o que não a impede de se lembrar das personalidades que passaram pelo salão grill-room, o nome se refere a um lugar para jantar (com grill). "O comentário da época era o Cassino Ahú. Por lá passaram famosos como Orlando Silva, Carlos Galhardo, Dalva de Oliveira e Francisco Alves", diz. O irmão mais novo de um dos frequentadores do cassino, Airton Ferreira do Amaral, conta que sentava para ouvir as histórias que o primogênito tinha para contar. "Havia um convênio com o Cassino da Urca, do Rio de Janeiro. Eles mandavam para Curitiba os artistas que se apresentavam lá. Era uma festa tão elegante, por sinal, que a entrada aos homens só era permitida para aqueles que estavam com traje social completo", afirma. Já as mulheres, conforme lembra Nelly, portavam chapéus, peles e joias.
A última apresentação do cassino ocorreu em 30 de abril de 1946, uma terça-feira, por causa da proibição dos jogos de azar, decretada pelo então presidente Eurico Gaspar Dutra. Depois disso, o cassino nunca mais abriu. Estiveram presentes, nesta última noite, Nelly Ferri, cantora internacional de Buenos Aires; o Garoto, homem que era o maior solista de instrumentos de cordas da América do Sul; e "Betty and Newton", a dupla de bailarinos mais jovem do Brasil. Depois daquele dia, o destino da antiga casa de jogo seria se tornar casa de oração.

Irmãos Vecchi, Avenida da Saudade, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil


 

Irmãos Vecchi, Avenida da Saudade, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil
Ribeirão Preto - SP
Fotografia

Nota do blog: Imagem publicada no jornal Diário da Manhã em 28/03/1952.

Sanatório Esquirol, Avenida da Saudade, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil


 

Sanatório Esquirol, Avenida da Saudade, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil
Ribeirão Preto - SP
Fotografia

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Avenida Iguaçu, 2003, Bairro Água Verde, Curitiba, Paraná, Brasil


 

Avenida Iguaçu, 2003, Bairro Água Verde, Curitiba, Paraná, Brasil
Curitiba - PR
Fotografia

Locomotiva a Vapor, Estrada de Ferro Sorocabana, Trecho Santa Cruz do Rio Pardo - Distrito de Sodrélia, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, Brasil








Locomotiva a Vapor, Estrada de Ferro Sorocabana, Trecho Santa Cruz do Rio Pardo - Distrito de Sodrélia, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, Brasil
Santa Cruz do Rio Pardo - SP
Fotografia


Uma porteira, a placa indicando passagem de nível e uma estrada que se perde ao longe, com destino ao bairro do “Cebolão”. Para completar a cena bucólica, a locomotiva “Maria Fumaça” passando a caminho do distrito de Sodrélia. A fotografia foi obtida pelo comerciante Leandro Moraes Paula Assis, que comanda uma tabacaria em Santa Cruz do Rio Pardo.
Colecionador de objetos antigos, Leandro tem um carinho especial pela história da cidade. De Santa Cruz, ele guarda flamulas, botons comerciais ou de campanhas políticas e até caixas de fósforos com propaganda de candidatos.
Nos últimos tempos, ele conseguiu três raridades. Duas fotos da locomotiva que fazia o trajeto no ramal entre a estação de Santa Cruz do Rio Pardo e Bernardino de Campos, passando pelo distrito de Sodrélia, foram conseguidas de uma maneira inusitada, quando as imagens teriam o lixo como destino.
Ele contou que um comerciante de reciclagem percebeu as fotos num lote de papel e papelão que comprou de um cliente e resolveu avisar Leandro. Claro que as imagens ganharam um novo dono.
Leandro explicou que o pai, o ex-prefeito Otacílio Parras (PSB), que nasceu no bairro rural do Caetê, reconheceu numa das fotos a ligação antiga que saía da estrada em direção a Sodrélia. Na verdade, a ferrovia passava ao lado da estrada antiga, hoje pavimentada e com o nome de “Vicinal Anysio Zacura”.
O comerciante, entretanto, possui outra preciosidade, que está emoldurada num pequeno quadro. É uma passagem de trem de Sodrélia até Santa Cruz do Rio Pardo. O bilhete tem o número 5995, o timbre da Estrada de Ferro Sorocabana e indica que o portador tem direito a viajar na primeira classe.
Várias imagens conhecidas da antiga locomotiva mostram que havia de três a quatro vagões de passageiros, indicando que havia grande movimento entre a estação de Santa Cruz do Rio Pardo e Sodrélia. A explicação é que o distrito teve grande desenvolvimento nas décadas de 1930 e 1940, principalmente pelo avanço da agricultura e do café.
Não é por acaso que em dezembro de 1935 o jornal “Correio de S. Paulo” publicou duas páginas a respeito de Sodrélia, enaltecendo o “progresso” do distrito de Santa Cruz do Rio Pardo. Há, inclusive, anúncios de empresas sediadas em Sodrélia.
O trem chegou a Santa Cruz do Rio Pardo em 1908 e o município havia perdido o tronco principal da Sorocabana, cujo trajeto foi modificado. Entretanto, a prefeitura bancou a construção do ramal até Bernardino de Campos e assumiu uma dívida gigantesca, que só foi perdoada muitos anos depois. Em 1966, o ramal foi definitivamente extinto, quando os governos estadual e federal já não se importavam em sucatear a malha ferroviária. Texto de Sérgio Fleury Moraes.

Fachada do Clube dos Vinte, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, Brasil


 

Fachada do Clube dos Vinte, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, Brasil
Santa Cruz do Rio Pardo - SP
Foto Postal Colombo N. 16
Fotografia - Cartão Postal



O clube que foi considerado um dos melhores e mais animados do interior do Brasil hoje é uma mera lembrança dos “anos dourados” e cuja história está se perdendo. Ninguém sabe o paradeiro dos enormes álbuns de fotografias que o clube guardava a sete chaves, o imponente prédio foi cedido à Associação Comercial e Empresarial (ACE) e até o piano de cauda desapareceu. Mas quem conheceu a alegria de seus bailes e eventos não esquece a magia do Clube dos Vinte de Santa Cruz do Rio Pardo.
A agremiação era uma das mais antigas da cidade, fundada em julho de 1929 por um grupo de 20 nomes considerados ilustres na sociedade, liderados por Leônidas do Amaral Vieira. Aliás, a data de inauguração foi escolhida por ser o aniversário do principal nome entre seus fundadores, que era o prefeito da cidade no ano anterior.
A primeira sede foi na rua Conselheiro Antônio Prado, num prédio alugado que mais tarde seria a rádio Difusora. É por isso que a emissora aproveitou um palco que existia no imóvel para promover eventos durante muitos anos.
Em 1954, o clube recebeu auxílio do governo do Estado para construir sua sede própria. O terreno escolhido ficava na antiga Praça da República (atual Leônidas Camarinha) e a construção ficou pronta em 1958.
“Foi um clarão de cultura, lazer, bom gosto e entretenimento em toda a Média Sorocabana no final da década de 1950 e nos anos 1960. Não havia apenas grandes orquestras e cantores ou um restaurante fabuloso, mas todo um movimento cultural”, conta o economista Miguel Moyses Abeche Neto, que morava em Santa Cruz do Rio Pardo naquela época e frequentava o Clube dos Vinte.
De fato, o Clube dos Vinte mantinha uma programação cultural invejável, com brincadeiras dançantes, cinema, teatro e outras atividades. Foi a agremiação que trouxe para Santa Cruz, por exemplo, o matemático José Cesar de Mello e Souza, que adotou o nome de “Malba Tahan” e cuja data de nascimento foi instituído como o “Dia da Matemática” no Brasil.
Havia, ainda, o “Programa do Estudante” nas noites de sextas-feiras e o “Rádio Clube Mirim”, apresentado pelo animador José Eduardo Catalano nas manhãs de domingo. Estes eventos chegaram a revelar talentos, como a atriz de teatro e televisão Cléo Ventura.
Após o cinema ou o Programa do Estudante, a juventude tinha um encontro marcado com Mário Nelli e seu conjunto. Naquele tempo, a dança era frequente entre os casais.
Os bailes das debutantes marcaram época, com a presença de artistas famosos da televisão ou cadetes da Academia das Agulhas Negras. Miguel Abeche conta que, certo dia, conheceu um músico e, durante a conversa, descobriu que ele havia tocado em Santa Cruz do Rio Pardo. “Segundo ele, o baile do Clube dos Vinte era o sonho de todo artista da época. Eram eventos reconhecidos no Brasil todo”, disse.
Havia também promoções beneficentes, como o “Natal das Crianças Pobres”, que o clube fazia para arrecadar recursos para, no final do ano, comprar brinquedos para crianças de vilas carentes.
Os carnavais do clube passaram a fazer história logo que a sede própria foi inaugurada. Claro que no ano seguinte, 1959, uma outra ala política de Santa Cruz inaugurou o Icaiçara Clube e durante anos houve uma rivalidade intensa. Mas nada desbancou a hegemonia do Clube dos Vinte durante quase uma década. Afinal, era o clube popular, o lugar da classe média.
O equilíbrio entre Icaiçara e Clube dos Vinte só começou a partir de 1964, quando Geraldo Vieira Martins assumiu a presidência do Ica e iniciou um trabalho de popularização da agremiação ligada ao grupo político dos “azuis”.
Mas até 1964, o melhor carnaval de toda a região estava no Clube dos Vinte, cujo salão ficava lotado nas quatro ou cinco noites de folia. Vinha gente de toda a região para acompanhar as brincadeiras.
A agremiação teve até uma orquestra exclusiva, comandada por Sérgio Ribeiro, que animou carnavais durante quase uma década. Além disso, havia bailes “pré-carnavalescos”, promovidos a partir de janeiro e até a véspera da folia. Na semana da folia, havia o “Carnaval dos Brotinhos”, das 19h às 22h.
Em 1963, por exemplo, pularam no piso do clube nada menos do que a atriz norte-americana Rhonda Fleming — chamada na época de “Vênus Platinada de Hollywood” — e o astro italiano Rossano Brazzi. A dupla estava rodando o filme “Pão de Açúcar” em Jacarezinho/PR e veio passear em Santa Cruz.
O carnaval no clube era tão importante que em 1966, logo após a cassação do governador Ademar de Barros em plena ditadura militar, o substituto Laudo Natel resolveu passar uma noite em Santa Cruz do Rio Pardo. E foi ao carnaval do Clube dos Vinte, acompanhado do usineiro Luizito Quagliato.
Terminado o carnaval, as atividades continuavam na Quaresma, com campeonatos de pingue-pongue, xadrez, dama, baralho e até futebol de botão. A juventude, enfim, tinha o que fazer em praticamente todas as noites.
Segundo Miguel Abeche, o segredo do sucesso era a direção do clube sob comando de “pessoas diferenciadas”, citando, entre outros, Teófilo Queiroz, Leônidas Camarinha, Carlos Queiroz, Paulo Suzuki e Ângelo Aloe.
Até 1964, apesar do apelo popular, o clube seguia as regras sociais da época. Só entrava quem vestisse paletó e, logo na recepção, havia um porta-chapéus e cabideiros para guardar os acessórios dos homens e os casacos — de pele ou mais simples — das mulheres.
O restaurante era o mais equipado da região, com um balcão de luxo fabricado com aço inox, e oferecia aperitivos e amendoim nas manhãs de domingo, enquanto a criançada se divertia no programa “Rádio Clube Mirim”. Durante anos houve também a “Festa Junina”, com quentão e o tradicional “correio elegante”.
Na primeira metade dos anos 1960, o clube chegou a sortear um automóvel zero quilômetro entre seus associados. O reluzente Dauphine, fabricado pela Willys do Brasil sob licença da francesa Renault, saiu para o advogado santa-cruzense Osmar Gonzaga de Oliveira.
Era comum a presença de artistas em bailes do Clube dos Vinte, como o cantor Dick Farney ou a vedete Virgínia Lane, além de astros como Carlos Zara, Paulo Figueiredo e outros.
Alguns nem eram contratados, mas apareciam para se divertir, como Pery Ribeiro — o primeiro cantor que gravou a música “Garota de Ipanema” de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Na verdade, Pery havia se apaixonado por uma mulher de Santa Cruz do Rio Pardo.
Mas nada foi tão marcante quanto um baile cujo cantor não compareceu. O contratado era nada menos do que Cauby Peixoto, uma das grandes estrelas da MPB na época. No sábado à noite, o cantor não apareceu, frustrando centenas de fãs e a direção do clube. Numa época em que não havia internet e nem celular, ninguém imaginava o que havia acontecido.
Porém, na tarde de domingo eis que um sorridente Cauby aparece na porta do Clube dos Vinte. “Mas o baile não é hoje?”, perguntou. Na verdade, o cantor se confundiu com as datas e ficou muito irritado ao descobrir o erro e saber que não iria mais se apresentar no salão.
Uma multidão começou a se formar em frente ao clube. Cauby percebeu e logo disse às pessoas que estavam no bar: “Venham comigo”. Em seguida, dirigiu-se ao coreto da praça central, cantou uma música e mais a consagrada “Conceição” antes de entrar no carro e deixar a cidade. Nunca mais Cauby Peixoto pisou em Santa Cruz do Rio Pardo.
Nos “anos dourados”, a rádio Bandeirantes transmitiu ao vivo, diretamente do Clube dos Vinte, o programa “Os Brotos Comandam”, comandado por Luiz Aguiar. Era um sábado e à noite houve um baile com a banda “The Bells”, famosa na “Jovem Guarda”, e a presença de astros como Jerry Adriani, Wanderlei Cardoso, Dalva Aguiar, Meire Pavão e outros. Horas antes, todos participaram de um show no cinema.
Claro que ainda houve uma outra geração que se divertiu no Clube dos Vinte a partir dos anos 1970 até o final da década de 1980, quando começou o declínio da agremiação. Em meados dos anos 1990, o clube fechou as portas. Algum tempo depois, o prédio foi entregue à Associação Comercial e Empresarial, que instalou sua sede no local sob o compromisso de manter e zelar por suas instalações.
Ficaram, contudo, as lembranças daquele que foi um dos maiores clubes do interior do Brasil e cuja história não pode se perder. Texto de Sérgio Fleury Moraes.

Vista Aérea, Curitiba, Paraná, Brasil







Vista Aérea, Curitiba, Paraná, Brasil
Curitiba - PR
Fotografia - Cartão Postal

Nota do blog: 1-) Edifício Moreira Garcez; 2-) Edifício ASA; 3-) Hotel Del Rey; 4-) Edifício Tijucas; 5-) Biblioteca Pública; 6-) Lord Hotel / Hotel Eduardo VII; 7-) Edifício Muricy; 8-) Edifício João Alfredo / Praça Zacarias; 9-) Edifício na Rua José Loureiro; 10-) Quartel Praça Rui Barbosa; 11-) Edifício Clube Curitibano; 12-) Administração da Rede Ferroviária / Rua João Negrão com Avenida Sete de Setembro.

Catedral, Curitiba, Paraná, Brasil


 

Catedral, Curitiba, Paraná, Brasil
Curitiba - PR
AH N. 1078
Fotografia - Cartão Postal