segunda-feira, 29 de agosto de 2022

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Hino Constitucional Brasiliense, 1822, Typographia do Diário, Brasil

 


Hino Constitucional Brasiliense, 1822, Typographia do Diário, Brasil
Fotografia

“Brava gente brasileira, Longe vá temor servil; Ou ficar a Pátria livre Ou morrer pelo Brasil”. Os intensos versos de Evaristo da Veiga, musicados primeiramente por Marcos Portugal e posteriormente por d. Pedro I, foram entoados pelas ruas da Corte e da cidade de São Paulo, em meados de 1822. O convite aos brasileiros a lutar pela emancipação do país expressos no Hino Constitucional Brasiliense nos remete a proclamação de d. Pedro às margens do Ipiranga: “Para o meu sangue, minha honra, meu Deus, eu juro dar ao Brasil a liberdade: independência ou morte”.
Assim como a imagem do grito da independência, com imperador e sua espada em punho, foi imortalizada por Pedro Américo em seu quadro Independência ou Morte apenas em 1888, o estabelecimento do 7 de setembro como marco fundador da identidade nacional brasileira e símbolo de nossa emancipação política, também foi uma construção a posteriori. A historiografia moderna evidencia a falta de repercussão do “grito do Ipiranga” a época; o feriado de 7 de setembro, suas festividades e a construção da figura de d. Pedro como herói, foram resultados do projeto de formação de nossa identidade durante o II Reinado, período marcado por diversas revoltas separatistas.
A independência do Brasil foi um longo processo que teve início em 1808 com a transferência da sede do governo português para o Brasil, a consequente abertura dos portos e a suspensão do sistema colonial. A tentativa lusa de reforçar os laços de dominação com a colônia, durante o reinado de d. João VI, apressou o movimento de independência política. Foi, contudo, na regência de d. Pedro que, oficialmente, rompeu-se a relação com metrópole portuguesa. Não, talvez, em 7 de setembro de 1822, mas no dia 2 do mesmo mês, quando a princesa regente Leopoldina, numa sessão extraordinária do Conselho de Estado, assinou a declaração de independência; ou em 12 de outubro, data da aclamação do imperador; ou, até mesmo, em 29 de agosto de 1825, com o reconhecimento de nossa soberania pela Inglaterra e por Portugal.
Fato é que, mesmo após o “Grito do Ipiranga” ou a coroação de d. Pedro, o processo de independência não estaria concluso, o reordenamento político reverberou de modo diferente em cada segmento e região do Brasil, o que provocou guerras da independência ocorridas entre 1822-1824 em inúmeras províncias. Nesse sentido, a proclamação às margens do Ipiranga é apenas um episódio cristalizado e perpetuado por uma historiografia tradicional. O movimento de independência deve ser reconhecido antes como um processo do que por uma data oficial, ampliando os seus limites para além do 7 de setembro de 1822.
Na imagem do post temos o Hino Constitucional Brasiliense. Os versos desse hino se transformariam na letra do Hino da Independência, musicado por d. Pedro I em 1824. Com a proclamação da República, o hino foi gradativamente abandonado. Somente em 1922, quando do centenário da independência, ele voltaria a ser executado.

Praça Ouvidor Pardinho, Janeiro de 1941, Curitiba, Paraná, Brasil




Praça Ouvidor Pardinho, Janeiro de 1941, Curitiba, Paraná, Brasil
Curitiba - PR
Fotografia - Cartão Postal


A imagem mostra a praça Ouvidor Pardinho com seu espaço ainda sem benfeitorias.
Importante citar que em 1892, Rocha Pombo lançou nesse terreno a pedra fundamental para edificação da Universidade Federal do Paraná, cujo projeto não foi adiante por falta de recursos à época.
O nome Ouvidor Pardinho foi uma homenagem ao relevante trabalho desempenhado por ele, Rafael Pires Pardinho quando, em 25/09/1717, assumiu o cargo de Ouvidor Geral da Capitania de São Paulo, prestando serviços como corregedor por 16 anos, dando provimentos à vila de Curitiba, entre outras.
Em Curitiba regularizou a ocupação urbana, fez recomendações a respeito da abertura de ruas, alegando que deviam ser retas e contiguas, ordenou a manutenção do caminho de Itupava e a construção da casa de câmara e cadeia. Limitou os impostos, regulamentou também a ação de juízes e tabeliães nos processos judiciais em que havia roubos e desordens e recomendou a limpeza do Rio Belém, para evitar alagamentos em frente à Igreja Matriz. Baixou ainda diversas outras medidas, em um total de 129 provisões.
Nota do blog: Data 01/1941 / Fotografia de Arthur Wischral.

Propaganda "Leite Condensado Marca Moça", 1950, Leite Condensado Marca Moça, Nestlé, Brasil



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Propaganda "Mais 250 Razões Para Confirmar que o Crime Não Compensa", 1982, Volkswagen Fusca, Volkswagen, Brasil


 

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Nota do blog: Referente a aquisição de Volkswagen Fusca para a Polícia Militar do Rio de Janeiro.

Rua Comendador Araújo, Setembro de 1939, Curitiba, Paraná, Brasil


 


Rua Comendador Araújo, Setembro de 1939, Curitiba, Paraná, Brasil
Curitiba - PR
Fotografia - Cartão Postal

A imagem mostra-nos a Rua Comendador Araújo com suas importantes construções do tempo áureo dos ervateiros que nela moravam. As carroças e camionetes eram presença diária, juntamente com os bondes elétricos que faziam a integração com outros bairros e a Estação Ferroviária.
Nascido em Morretes, Antônio Alves de Araújo, mais conhecido como Comendador Araújo, foi um importante ervateiro na época do Império. Foi nomeado presidente da Província do Paraná, cargo que equivale ao de governador. Mesmo sendo do litoral, morou boa parte da vida em Curitiba, na Estrada do Mato Grosso, que hoje leva o seu nome.
Na época, a via era o caminho entre a Rua das Flores, o Centro da cidade, e a Avenida Batel, onde estavam importantes moinhos de erva-mate. Por esse motivo, produtores construíram seus casarões na Estrada do Mato Grosso. Com a economia alavancada pela produção agrícola, a implantação de asfalto e iluminação foi um investimento desses moradores abastados.
No século 19, imigrantes alemães escolheram essa rua para construírem a Sociedade Thalia, local de encontro deles para promoção de bailes, reuniões e ponto de encontro para matarem a saudade da terra natal.

Edifício Teixeira Soares, Curitiba, Paraná, Brasil











 

Edifício Teixeira Soares, Curitiba, Paraná, Brasil
Curitiba - PR
Fotografia

Edifício do Rodoviário da RVPSC / Edifício Teixeira Soares, Década de 40, Curitiba, Paraná, Brasil


 

Edifício do Rodoviário da RVPSC / Edifício Teixeira Soares, Década de 40, Curitiba, Paraná, Brasil
Curitiba - PR
Fotografia - Cartão Postal


Na rua João Negrão, quase esquina com a avenida Sete de Setembro, no Centro de Curitiba, um edifício colado à "Ponte Preta" faz mais do que chamar a atenção pelo estilo com influência art déco. Ele ajuda a contar a história de uma época em que a cidade adquiriu uma nova configuração. O edifício Teixeira Soares, que foi construído em 1941 e abrigou a sede da Rede Ferroviária Federal (RFFSA), hoje é um dos câmpus da Universidade Federal do Paraná (UFPR), inaugurado em junho deste ano.
“O edifício faz parte da paisagem ferroviária de Curitiba, que precisa ser preservada como um todo”, explica o arquiteto e professor da UFPR, Key Imaguire. Para entender essa história, é preciso voltar até 1885, quando a construção da estrada de ferro que liga Curitiba a Paranaguá foi realizada. A chegada dela à entrada da cidade gerou uma integração com o Centro, em especial pela rua Barão do Rio Branco, ligando as antigas sedes do poder público – como a Câmara e o Palácio do Governo da época – ao terminal de embarque de trens. Também fazem parte desse Setor Especial de Preservação da Paisagem Ferroviária de Curitiba, além da Estação Ferroviária, do edifício e da ponte, estruturas como a garagem de litorinas e o estádio Durival de Britto e Silva.
Essa influência permanece até hoje e a região do edifício Teixeira Soares conta essa história. 
O prestígio da região, com a praça Eufrásio Correia, a ligação à praça Tiradentes e ao Paço da Liberdade, permanece até as décadas de 1960 e 1970, marcada até mesmo pela presença do extinto Cine Vitória, por muito tempo o maior cinema de rua de Curitiba. O edifício centralizava os serviços de manutenção e administração da Rede Viação Paraná Santa Catarina e depois se tornou sede da Rede Ferroviária Federal (RFFSA).
Com seus tijolos aparentes e características originais preservadas na fachada, a edificação mantém a discrição arquitetônica e foi tombada pelo Patrimônio Histórico, com a Ponte e a Estação, em 1976.
Ocupar e preservar:
O espaço foi cedido pelo governo federal à UFPR em 2008 e, desde então, a revitalização e re-ocupação do local eram aguardadas tanto pela utilidade acadêmica quanto pela preservação da memória ferroviária. Em junho de 2018 foi inaugurado o Campus Rebouças, abrigando os estudantes do curso de Turismo e da pós-graduação em Educação.
De acordo com a autora do projeto de restauro e reforma do campus, a arquiteta e urbanista Neuza Noguchi Machuca, a revitalização do espaço e a sua ocupação pela universidade contribuem para a recuperação e melhoria da qualidade de vida do bairro Rebouças, “pois promove a valorização e desenvolvimento das características únicas do lugar e da sua gente e a recuperação social e cultural”.
A edificação passou por várias reformas e ampliações ao longo dos anos, mas as fachadas frontais da avenida Sete de Setembro e da rua João Negrão foram mantidas, de acordo com o projeto de reforma pela UFPR, assim como os destaques para a torre do relógio com as aberturas redondas, os detalhes da platibanda (faixa horizontal na parte superior de edifícios) e as aberturas das esquadrias. No hall de entrada principal, na Rua João Negrão, foram preservados os detalhes do piso, as molduras nas paredes e teto, os corrimãos e esquadrias de ferro. O espaço acadêmico também contará com anexo para salas de aula.
Nos eixos do transporte:
O edifício foi batizado em homenagem a João Teixeira Soares, o engenheiro ferroviário mineiro que foi diretor da Estrada de Ferro do Paraná e esteve à frente de marcos desse setor de transporte no Brasil. É o caso da primeira ferrovia eletrificada do Brasil, a Estrada de Ferro do Corcovado, no Rio de Janeiro, e a ferrovia São Paulo – Rio Grande, que liga o município de Itararé (SP) a Santa Maria (RS). Após a ideia e o traçado dos trilhos da Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá terem sido concebidos pelos irmãos André e Antônio Rebouças, Teixeira Soares encabeçou a construção da estrada.

domingo, 28 de agosto de 2022

Paço da Liberdade, Curitiba, Paraná, Brasil


 


Paço da Liberdade, Curitiba, Paraná, Brasil
Curitiba - PR
Fotografia




No dia 24 de fevereiro de 2022, o Paço Municipal (atual Paço da Liberdade) completou 106 anos . O prédio foi sede da prefeitura e da Câmara de Curitiba por quase cinco décadas. Na semana do aniversário de Curitiba, o projeto Nossa Memória conta a história dessa que é uma das construções mais importantes da cidade. Antes dela, entretanto, outras edificações foram erguidas com a finalidade de sediar o poder municipal.
A primeira foi a “Casa de Câmara e Cadeia”.
O livro “História e usos do Paço da Liberdade” (2009) traz dados sobre as construções que sediaram temporariamente a Câmara. “Até então os poderes municiais eram quase itinerantes. Mudavam de sede constantemente. Em 1901 funcionavam na Praça Tiradentes, 490, em prédio ainda hoje existente e de propriedade dos herdeiros de Sofia Wolf. Em 1902, passam para outro prédio, de nº 21 na mesma praça. De acordo com o contrato, o prédio seria alugado por três anos pelo valor de 300 mil réis”. A Fundação Cultural de Curitiba informa que em seu site que entre 1911 e 1912, a Câmara também desenvolveu suas atividades no Palacete Wolf, localizado nas proximidades da Igreja do Rosário. A informação é confirmada pelo livro Impressões do Brazil no Século XX, editado em Londres, em 1913.
Aproximadamente nessa época a Câmara inicia as discussões para a construção de uma nova sede para o Poder Legislativo. É aprovada a lei que possibilita a construção do Paço Municipal (348/1912). Sua inauguração no dia 24 de fevereiro de 1916 foi o último ato de uma sucessão de intervenções urbanas realizadas em Curitiba enquanto o engenheiro Cândido de Abreu esteve à frente da prefeitura (1913-1916).
Os “Melhoramentos de Cândido de Abreu” como foram chamados, mudaram não só a aparência da cidade, mas também muitos outros aspectos como, por exemplo, a relação entre os cidadãos e o poder público. De acordo com Rafael Augustus Sêga, autor de uma pesquisa de 1996 sobre a gestão de Cândido de Abreu, o diferencial entre ele e seus antecessores foi a introdução do conceito de “interesse coletivo”, que além de facilitar as operações, reforçava junto à população a percepção de que a prefeitura era um órgão meramente judicioso, formal, racional, destituído de paixões e ideologias.
Cândido de Abreu:
Carlos Cavalcanti, presidente do Estado, tinha a prerrogativa de escolher o prefeito. Duas opções se colocaram. Uma delas era o coronel João Gualberto, figura popular em Curitiba, comandante do “Tiro de Guerra” Rio Branco, presença obrigatória em todas as comemorações cívicas que aconteciam na cidade. Como não tinha apoio do Partido Republicano, seu nome foi preterido. A escolha do presidente recaiu sobre Cândido Ferreira de Abreu, parnanguara, neto do Visconde de Nácar, engenheiro formado pela Escola Politécnica do Rio, a primeira instituição de ensino de engenharia do Brasil. Em seu currículo acumulava passagens como chefe de seção nas obras da estrada de ferro Madeira-Mamoré, inspetor de colonização no Rio Grande do Sul e engenheiro do Ministério da Agricultura, no Rio de Janeiro.
Uma das novidades trazidas pela república a partir de 1889, lembra Rafael Sêga, foi a eleição para prefeito. Até então a administração municipal no Brasil era exercida de forma exclusiva pelas Câmaras. “Em 1892, Cândido de Abreu venceu a primeira eleição para prefeito da cidade de Curitiba. Sua tendência draconiana frente ao Executivo Municipal teve suas raízes nesse seu primeiro mandato, que por sinal foi muito breve (11 meses); foram desse período a inauguração da luz elétrica e a revisão do Código de Posturas, com o escopo de implantar medidas saneadoras e embelezadoras na cidade, assim como o esquadrinhamento das construções dentro do perímetro urbano. Porém, as limitações impostas pelo Legislativo Municipal irritaram Cândido de Abreu, que encaminhou uma carta renunciando ao cargo”, explica Sêga.
Em 1893, foi convidado por Aarão Reis para fazer parte da Comissão Construtora de Belo Horizonte, nova capital mineira em substituição à cidade de Ouro Preto. Durante a Revolução Federalista (1894), graças ao apoio que deu à legalidade (Floriano Peixoto) foi nomeado tenente-coronel honorário. Foi deputado e senador.
Melhoramentos:
“Com reflexão e commedimento estão sendo delineados os planos de remodelamento da cidade. Mais alguns mezes e os ferros da picareta do progresso, na faina gloriosa da destruição civilisadora, cahirão possantes, como um terremoto benefico e esplendoroso derribando a casaria vetusta. E essa Coritiba de hoje, ‘moça bonita trajando seda, porem calçada de tamancos’, resurgirá victoriosa do pó desses escombros, como Phenix de nova especie, exuberante em perfeição e graça”, diz um cronista em nota publicada pelo jornal Diário da Tarde de 8 de abril de 1913.
De forma essencial, os melhoramentos duraram toda a gestão de Cândido de Abreu (1913-1916) e consistiram em centenas de terraplanagens, aterros, calçamentos, drenagens e outros serviços isolados como a construção de um mercado de madeira na Praça 19 de Dezembro e outro no Batel. Rafael Sêga destaca o espanto da população frente a dois compressores importados da Europa para a realização das obras. “Esses equipamentos importados são signos de uma civilização, e as suas origens acentuam bem esse referencial. Compressores, britadeiras, betoneiras e guindastes, são metáforas da criação de um novo tempo e são fetichizados pela maioria da população”.
Em praticamente todos os dias do seu mandato alguma atividade dos melhoramentos foi realizada. Todo o trabalho foi descrito em relatórios públicos em que se destaca a preocupação com o detalhamento das obras [e dos valores gastos]. “Cândido de Abreu foi além como prefeito da cidade. Tinha experiência conseguida no tempo que trabalhou na construção de Belo Horizonte. E fez o que pode, nos horizontes limitados (tanto culturais quanto econômicos) de Curitiba”, diz Irã Taborda Dudeque, arquiteto, historiador e professor do Instituto Tecnológico de Educação (ITFPR).
Alexandre Fabiano Benvenutti em sua monografia “As Reclamações do Povo na Belle Époque: a cidade em discussão na imprensa curitibana (1909-1916)” menciona alguns números: “(...) As vias públicas que receberam revestimento de paralelepípedos, tanto usados como novos, correspondiam a 101.377 m² no total. Os trabalhos de macadamização totalizavam 145.754 m². No que se refere aos passeios ou calçadas, a área total revestida foi de 31.208,14 m², dos quais cerca de 19.255,16 m² correspondiam a revestimento de cimento, 10.200,55 m² a ladrilhos, 1.158,12 m² a petit pavê, e 594.31 m² a lajes de pedra”.
“Para se ter uma ideia da grandeza dessa operação, numa cidade de sessenta e cinco mil habitantes, aproximadamente, foram assentados quase três milhões e quatrocentos mil paralelepípedos, além das ruas macadamizadas. E mais, vários prédios foram demolidos, praças reformadas (ou criadas) e eletrificadas as linhas dos bondes”, lembra Sêga. Na mesma perspectiva, comenta o pesquisador Sérgio Henrique Schultz, em sua pesquisa “Sapatos de veludo”: “os cortiços, grandes inimigos da circulação, serão atacados, avenidas serão abertas, e as praças, verdadeiros respiratórios da cidade – mesmo que sem árvores – ganharão grande importância, assumindo a função de revitalização-deslumbramento no espaço urbano”.
“Ele era muito atualizado em relação às novidades arquitetônicas”, diz Marcelo Sutil, coordenador de pesquisa histórica da Casa da Memória. “Outras construções de sua autoria, como sua residência na Avenida João Gualberto (conhecida como “Casa das Ferraduras”) e o Belvedere, na praça João Cândido se valeram de ornamentações no estilo art nouveau”.
O emprego das características dessa corrente francesa também marcaria a reforma da praça Eufrásio Correia e as mudanças promovidas no Passeio Público que ganhou um portal de entrada semelhante ao do Cemitério de Cães, em Paris. Mas a obra arquitetônica de maior relevo atribuída a Cândido de Abreu é o Paço Municipal, o último dos “melhoramentos” (entregue dentro do prazo).
Paço:
Para Sutil, a localização do prédio do Paço teve caráter estratégico. “A rua da liberdade – transformada em rua Barão do Rio Branco em 1912 – era conhecida como a rua do Poder, em função da presença do prédio da Assembleia (Palácio Rio Branco) e do Palácio da Liberdade (atual Museu da Imagem e do Som), que durante anos foi a sede do Governo do Estado”. O Paço foi construído já na rua Riachuelo (continuidade da Barão), na mesma área onde ficava o antigo mercado (1874), cujas paredes lhe serviram de tapume.
A pesquisadora Suzelle Rizzi, em sua pesquisa de 2003 sobre Cândido de Abreu, salienta que os trabalhos foram dirigidos pelos construtores Ângelo Bottechia e André Petrelli, sob a fiscalização do engenheiro Eduardo Chaves. A supervisão geral era feita pelo engenheiro-chefe de Obras Municipais Adriano Goulin e pelo próprio prefeito Cândido de Abreu (a quem a obra é genericamente atribuída). A decoração interior do edifício ficou ao encargo do arquiteto Roberto Lacombe, sendo as pinturas incumbidas a João Ortoloni e João Guelffi. Trabalhos em marcenaria foram feitos nas oficinas Maderna & Boni, de Curitiba.
De acordo com o edital referente ao fornecimento de material, a construção do prédio demandou 1.168 m³/390 decâmetros cúbicos de pedra bruta para alvenaria de fundação; 65 m²/502 decâmetros cúbicos de pedra de cantaria, granito para a alvenaria de embasamento; 300.000 tijolos, 400 m³ de areia; e 125 m³ de cal. O mesmo documento abria concorrência para a mão de obra.
Dotado de três pavimentos, o prédio tem 15 metros de altura. Detalhes “art nouveau” se destacam em toda a construção, como por exemplo a estátua feminina conhecida como “Curityba”, localizada abaixo do relógio na torre, ou os peixes que adornam as portas laterais. O edifício também é lembrado por ter sido o primeiro em Curitiba a dispor de um elevador. “Sua presença valorizou o entorno da praça. Some o casario baixo e surgem edificações como o Tigre Royal”, frisa Marcelo Sutil.
Como lembra Alexandre Fabiano Benvenutti em sua pesquisa, o prédio ganhou “os mais modernos e luxuosos equipamentos: elevador Ottis Pifre, sistema de iluminação elétrica interna e externa invisíveis, duas fontes ornamentais bronzeadas, dois mictórios modernos, um artístico lampadário Torchiere, três porta-lâmpadas, um candelabro com figura, um relógio com mostradores transparentes e telefones. Na decoração externa, ricamente ornamentada, havia uma grande preocupação em ostentar a riqueza, o luxo e o poder”.
“As colunas da entrada principal do prédio estão suspensas por dois Hércules, que representam os poderes municipais, o Legislativo e o Executivo. Acima, um nicho contém uma estátua feminina, vestindo uma túnica, o que significa a cidade de Curitiba, e na ornamentação da torre, um escudo com as armas do município e cabeças de leão, símbolos da força”, descreve Marcelo Sutil em “O Espelho e a Miragem”.
E os vereadores?
Entre 1912 e 1920 a Câmara Municipal teve duas legislaturas, mas os nomes não se alteraram de forma substancial. Os integrantes da Casa durante aqueles oito anos foram: João Antônio Xavier, Jayme Ballão, Francisco de Paula Guimarães, Constante de Souza Pinto, Nicolau Mader, Percy Withers, Francisco Simas, Wallace de Mello, Wenceslau Glaser, Joaquim Augusto de Andrade, Antônio Torres e João Faucz.
Não participaram dos melhoramentos – embora recebessem informes sobre os avanços das obras – mas aprovaram uma série de leis importantes para a cidade. Algumas são listadas em uma espécie de balanço de fim de mandato que foi publicado no “Almanach do Paraná”, de 1920.
Um tema que tomou bastante a atenção dos vereadores foi a da regularização dos lotes. Eles aprovaram, por exemplo uma lei que tributou terrenos não edificados e não murados. Também exigiram que os construtores fornecessem a exata localização dos prédios para a verificação dos excessos (medida que rendeu 50 contos de réis para o município). Aprovaram, da mesma forma, a concessão de favores aos proprietários que cedessem as áreas para abertura de ruas e praças.
Dentro dessa temática, entretanto, a lei mais importante aprovada pelos vereadores das legislaturas de 1912-1920 foi a que dividiu a cidade em três zonas organizadas sob a forma de anéis concêntricos. “A 1° zona”, diz Suzelle Rizzi, “constituída pelas áreas centrais de Curitiba, com exceção da av. Batel e João Gualberto consideradas residenciais. A região central sofreu maiores reformas urbanas como pavimentação, onde também as leis e fiscalização eram mais rígidas, com preferência por edificações em alvenarias”.
“A 2° zona e a 3° zona obedeciam o mesmo formato em anel alargando-se cada vez mais para a periferia da cidade. A 2° zona era reservada as indústrias e a 3° zona para moradias de operários e sitiantes”, continua. Portão, Seminário e Juvevê, por exemplo, foram considerados “terceira zona”.
A Câmara Municipal também se ocupou da discussão e aprovação das leis que criaram a Maternidade, o Instituto Pasteur e o programa Gota de Leite. Os camaristas doaram um terreno para a recém-criada universidade e acataram a livre exploração da energia elétrica como força-motriz. Algumas atividades creditadas aos melhoramentos tiveram suas autorias reivindicadas pelos vereadores: o Palácio Municipal (lei nº 348/1912), a remodelação do Passeio Público e a desapropriação da chácara Bittencourt, ação que eles consideravam “necessária para normalizar o regime de aguas e esgotos”.

Paço da Liberdade, 1916, Curitiba, Paraná, Brasil


 



Paço da Liberdade, 1916, Curitiba, Paraná, Brasil
Curitiba - PR
Fotografia

À frente está a Casa Edith; no lado direito está a estátua do Barão do Rio Branco (na então Praça Municipal); e atrás da estátua está o Palacete Tigre Royal, existente até hoje.