Bugatti Chiron, França - Jeremy Clarkson
Fotografia
Vários anos
atrás fiz uma análise do Bugatti Veyron que foi um tanto efusiva. Falei sobre a
tremenda complexidade em fazer um carro estável e equilibrado andando a mais de
390 km/h e o quanto pilotar um veículo em tal velocidade pode ser
perigoso e incômodo.
Um vento de
390 km/h poderia derrubar todos os prédios de Nova York. E, no entanto, o Veyron
tinha de ser capaz de lidar com ventos de tais velocidades sendo pilotado por
alguém cujas únicas qualificações fossem a capacidade de entrar em uma vaga de
ré e reconhecer uma placa de preferencial.
Eu fiquei
maravilhado com a engenharia do carro – por exemplo, ele tinha dez radiadores
para lidar com o calor gerado – e avaliei que, por causa da guerra
inexorável contra a velocidade e os motores de combustão interna, nunca
veríamos outro carro parecido.
Simplesmente
não haveria ambiente para se produzir um substituto. Seria difícil demais, não
apenas do ponto de vista político mas também de engenharia.
E acabou sendo
duplamente difícil, já que a empresa-mãe da Bugatti, a Volkswagen, está
gastando cada centavo para lidar com o Dieselgate.
Mas,
contrariando todas as expectativas, a Bugatti criou um sucessor. Custa 2,5
milhões de libras esterlinas (R$ 10,3 milhões), chama-se Chiron e consegue ser ainda mais
rápido que o Veyron.
Sua máxima é
de 420 km/h, o que significa que ele cobre mais de 114 metros por
segundo. Sabe aquele helicóptero de ataque Apache? O Chiron é mais
veloz.
Parte do seu
ritmo quase inacreditável deve-se ao motor de 8 litros, 16 cilindros em W e
quatro turbos. O resultado são inacreditáveis 1.500 cv. Sim, 1.500
cv.
Mas igualmente
importante é a carroceria e a forma que ela baixa e muda seu ângulo de ataque à
medida que você anda mais rápido. Algo que não se chega a notar ao volante.
Porque você está ocupado demais prestando atenção na estrada e pensando, de
olhos arregalados: “Isto é absurdo”.
Recentemente
eu dirigi o Chiron, não só num autódromo, mas por todo o trajeto
de Saint-Tropez até a fronteira com a Suíça, e depois até Turim. Eu consegui
conhecê-lo bem, e a agitação ainda não passou. Sua velocidade está além de
qualquer coisa que você possa imaginar.
Em um ponto da
rodovia francesa encontrei um daqueles ralis de luxo em que jovens senhores
levam seus Audi R8, Aston Martin DB11 e óculos de sol envolventes Oakley em um
tour por castelos e pistas de corrida ao sol.
O tempo
todo eles emparelhavam comigo e ficavam acelerando, na esperança que eu
cravasse o pé. Bom, depois de um tempo, foi o que fiz.
Mesmo eles estando 1 km à frente, que foi aonde cheguei depois de alguns
míseros segundos.
Não há nada
feito por um fabricante de carros de produção que possa fazer cosquinhas em um
Chiron. Um McLaren P1 não chega nem perto. É como me comparar, como
guitarrista, a Jimi Hendrix.
E não é só a
velocidade em reta que o deixa sem fôlego e assustado. É o ritmo
nas saídas de curva. Você enterra o pé no carpete em primeira marcha
saindo de um cotovelo e cada um dos cavalos-vapor que você acionou é convertido
sem espalhafato, sem destracionar, diretamente em movimento para a frente.
É aceleração,
força g tão vívida, que você pode sentir seu rosto se soltando dos ossos. É
velocidade que dói.
Mas ele não é
difícil de guiar. Bem, meu colega de TV Richard Hammond conseguiria jogá-lo
morro abaixo, mas para o resto de nós ele é canja. Não há recursos
teatrais.
O escapamento
não faz estouros e estampidos. O motor não grita. Não há truque
sonoro algum. E, dentro da cabine, tudo em que você toca é de couro ou metal.
Exceto o emblema. Que é de prata.
Se a
Rolls-Royce decidisse fazer um supercarro de motor central, acho que sairia
algo parecido com o Chiron. Ele nunca é áspero ou desafinado. Não
fica pulando nem em vias de paralelepípedos. Mas tem um porta-malas em que
cabe, bem, uma laranja grande.
O lado
ruim desse conforto e luxo é que ele não se comporta realmente como um
supercarro de motor central. Ele não “flui”. Não há delicadeza. Ele
simplesmente dispara na saída de curva e então você já está freando para a
próxima.
Principalmente
porque em um carro tão potente não há coisas como retas. Ele as devora antes de
você ter a chance de perceber. O que significa que não há onde
colocar seus pensamentos em ordem. Não há paz. É tudo ação.
Então, este
não é um carro para pilotos “raiz”. Ele passa a sensação de pesado, porque é.
Ele parece vulcânico. Você pode ver um McLaren P1 como um beija-flor,
maravilhando-se com sua capacidade de disparar de lá para cá em um instante. Já
no Chiron, parece que você está passando pela garganta do Vesúvio, impulsionado
por lava, convecção e pressão.
Ele nem se
parece com um supercarro de motor central tradicional. Parece importante e
estadista. E de alguns ângulos – especialmente a traseira – ele parece feio.
E há aquele
focinho com radiador em forma de ferradura. Que está lá porque a tradição da
Bugatti diz que deve estar. E não dá para deixar de se maravilhar com isso,
pois, para que esse carro seja tão veloz, cada detalhe aerodinâmico teve de ser
examinado, descartado e refeito.
Veja um F-1
quando perde algum de seus apêndices aerodinâmicos: logo acerta o guard
rail. E eles raramente passam de 320 km/h. O Bugatti é bem mais
rápido que isso, o que significa que incorporar aquele focinho deve
ter sido um pesadelo. Mas os engenheiros de algum jeito conseguiram.
Essa é a
essência desse carro: não é prazer ao dirigir. Não é estética. É só um homem
olhando para a natureza, arregaçando as mangas e dizendo: “Vai encarar?”.
Este carro não
desafia as leis da física. Ele faz ameaças para elas. Ele é uma maravilha da
engenharia, porque, como todas as outras maravilhas da engenharia, ele é uma
afronta a Deus. E também é uma afronta aos Amigos da Terra e ao Greenpeace.
Temos de adorar o Chiron
por isso também, e aplaudir a Volkswagen por dizer: “Ainda não, cara.”



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