Artigo
Nascido em
1923 no vilarejo polonês de Zakilikof, próximo de Lublin, onde cresceu, Samuel
Klein teve uma infância de privação numa Europa ainda em reconstrução depois da
Primeira Guerra Mundial. Os pais, sem posses, tiveram nove filhos, e Samuel só
pôde cursar os primeiros quatro anos do ensino fundamental.
Com o início
da Segunda Guerra, a família judia sofreu com a perseguição nazista. Pouco
depois, em 1942, pais e filhos foram presos. A família foi separada. Samuel, o
irmão mais novo e o pai foram levados a um campo de trabalho forçado; a mãe e
os outros irmãos, encaminhados ao campo de extermínio de Treblinka, onde ela e
a maioria deles morreu.
Samuel esteve
dois anos no campo de concentração de Majdanek. Conseguiu fugir em 1944 e,
terminado o conflito, passou a morar na Alemanha. Aprendeu o ofício do pai
marceneiro, mas logo percebeu que ganharia mais atendendo às necessidades das
tropas aliadas: vendia vodca a russos e cigarros a americanos.
Foi assim que
juntou algum dinheiro para deixar a Alemanha, onde não via perspectiva de
melhorar de vida. Em 1952, partiu em definitivo, com a mulher, Anna, e um filho
de dois anos, Michael. No fim do ano, depois de uma breve experiência
fracassada na Bolívia, chegaram ao Brasil. Samuel tinha uma tia no Rio de Janeiro,
mas preferiu morar em São Caetano do Sul, na região metropolitana de São Paulo.
O dinheiro,
cerca de US$ 6 mil, deu para comprar uma casa e uma carroça. O meio de
transporte veio junto com um cavalo e, mais importante, com uma lista com 200
fregueses do mascate que passou o negócio adiante.
Com essa
estrutura precária e sem falar português, começou a revender cobertores e
toalhas aos nordestinos imigrantes que chegavam aos milhares à região do ABC
para trabalhar na nascente indústria automobilística. Foi só em 1957, quando
multiplicou por dez a clientela inicial, que Klein decidiu abrir "o
primeiro loja", como dizia, trocando o gênero dos substantivos com um
sotaque carregado e inconfundível.
Os fregueses,
chamados de "baianos" pelos paulistas, deram o mote para o
estabelecimento: Casa Bahia. O singular logo teria que ser corrigido para
refletir o número crescente de lojas. Ao longo das décadas seguintes, as Casas
Bahia se espalhariam por 15 Estados e mais o DF, somando mais de 500 lojas e
cerca de 56 mil colaboradores.
Samuel Klein
se tornou o rei do comércio varejista popular, sobretudo de móveis e de
eletrodomésticos, área em que foi líder. A grande maioria dos 15 milhões de
clientes que atendia por mês comprava a prazo, pagando carnês. A cadeia se expandiu
com mais velocidade a partir do Plano Real, em 1994, que, ao controlar a
inflação, aumentou o poder aquisitivo dos clientes em potencial das Casas
Bahia. No ano seguinte, sintomaticamente, o grupo de rock Mamonas Assassinas
fez enorme sucesso com uma música cujo refrão repetia: "A minha felicidade
é um crediário nas Casas Bahia".
Samuel Klein
acreditava que seus clientes deveriam estar diariamente expostos ao conhecido
bordão: "Dedicação total a você". Por isso investia pesadamente em
publicidade, algo em torno de 3% do faturamento, o que o colocava com
frequência em primeiro lugar no ranking dos anunciantes. No final dos anos 80,
teve Pelé como garoto-propaganda.
Depois da
forte expansão nos anos 90, com várias aquisições seguidas, as Casas Bahia, em 2009,
já então sob a gestão do primogênito de Samuel Klein, venderam o controle da
empresa para o Pão de Açúcar.
Samuel Klein
gostava do mar, de que desfrutava a bordo de um iate de 61 pés. Salvo essa
extravagância, era um homem de hábitos simples, que costumava trabalhar de
sandálias franciscanas, quando não tinha compromissos fora da empresa. Por mais
de cinco décadas, teve dedicação total às Casas Bahia.
Samuel Klein morreu
em 2014, aos 91 anos em São Paulo.

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